Minha Primeira Visita à Semco

2013 June 14, 19:44 h - tags: semco obsolete

Original de 13/7/2010: Gestão 2.0 - este artigo está ultrapassado na interpretação, depois de mais pesquisas, aplicações práticas, cheguei à conclusão que expliquei nestes outros dois artigos. Quando escrevi o artigo ainda não compreendia todos os aspectos e contexto. Não entendam errado: a história da Semco é extremamente interessante e as idéias são muito sedutoras. Mas considerem o contexto.

Quem me conhece há algum tempo sabe que um dos cases que mais me interessa é o grupo brasileiro Semco. É difícil definir essa empresa que existe desde a década de 50 e passou as últimas décadas se reinventando, passando desde fornecedor da indústria naval, passando por serviços imobiliários com a Cushman & Wakefield, serviços e consultoria ambiental com a ERM, informatização de inventário com a RGIS, investimentos com a Tarpon, soluções de gerenciamento postal de documentos com a Pitney Bowes. Ela acredita em diversificação de negócios, fez diversas joint ventures, já revendeu várias delas. Em seu pico chegou a ter mais de 5 mil colaboradores.

Hoje, fiz minha primeira visita à sede da Semco, em Santo Amaro. O vídeo abaixo foi feito durante o horário do almoço, por isso parece tão vazio Espero poder retornar e inclusive visitar as outras filiais e fábricas.

A Semco se tornou destaque mundial por causa de sua inusitada forma de gestão, iniciada pelo visionário Ricardo Semler, autor dos livros Virando a Própria Mesa e Você Está Louco. Semler foi vice-presidente da FIESP, articulista da Folha de S.Paulo, professor visitante da Harvard Business School. Já viajou o mundo explicando como implementou Gestão Participativa em suas empresas e depois de tudo isso atualmente prefere se manter mais reservado.

Quando a Semco começou esse processo de Gestão Participativa no começo dos anos 80, poucos poderiam imaginar que daria certo e até hoje muitos preferem imaginar que foi mais uma questão de sorte do que de técnica, já que eles praticam o contrário do que é conhecido hoje como “senso comum” em gestão e administração de empresas.

Para começar, os números da empresa são abertos a todos os funcionários, lucros, fluxo de caixa, gastos, etc. Todos tem remuneração variável onde o variável é proporcional às metas da empresa como um todo, metas do departamento e metas individuais, negociadas entre cada um e seu gestor. O gestor, diferente da figura autoritária tradicional, não pode ter mais esse papel, servindo como um “líder servil”. Existe um GPS – Grupo Participativo Semco – formado por funcionários não-gestores e que ajuda a orientar e representar os demais. Esse grupo é eleito pelos funcionários a cada dois anos e é fundamental no bom funcionamento da empresa.

O processo de contratação sempre foi diferente, onde não só RH e gestor entrevistam os candidatos, como de costume, mas seus futuros pares também participam da entrevista. Aliás, os funcionários participam da entrevista de seus futuros gestores também. As avaliações são de baixo para cima, onde os funcionários avaliam seus gestores e não o contrário. O sistema se sustenta na premissa de autonomia das pessoas, no incentivo para que eles procurem sempre melhorar (metas individuais) e que as metas da empresa sejam atingidas de forma coletiva em vez da forma autoritária tradicional e, principalmente, que dadas as condições básicas, as pessoas sempre querem fazer o melhor.

Esta visita foi possível graças à Flordelice Bassanelli, responsável pelo RH desde 1986. Ela se envolveu em todo o processo desde o começo. Estávamos conversando como isso foi difícil, especialmente se considerar que se tratava de uma empresa familiar muito tradicional desde a década de 50. Mas o pai do Ricardo fez uma excelente escolha ao colocar seu filho na presidência, mesmo muito jovem, em seus 20 e poucos anos. Ele desfez a diretoria familiar e profissionalizou a empresa.

Mais do que isso, ele entendeu que tanto o modelo de negócios (pouco diversificado) e o modelo de gestão (autoritário) não eram bons. Tão logo conseguiu um bom Chefe de RH, Clóvis Bojikian, eles começaram a transição e isso no meio de uma crise iminente no setor naval mais a turbulência na aquisição de outras empresas com diferentes culturas. Em meio a isso a Flordelice foi contratada para implementar esse plano. Eu conheci o Clóvis por intermédio do Caio Túlio (um dos fundadores do UOL), na época eu queria implementar algumas dessas idéias na Locaweb, então levei o Clóvis até lá para apresentá-lo à diretoria e ele nos recomendou que teria sido seu braço direito, a Flordelice.

Como curiosidade estávamos justamente discutindo sobre o bom e velho assunto da folha de ponto (o timesheet), que a Semco – e qualquer empresa moderna – não usa há décadas mas que o Ministério do Trabalho, tornou obrigatório através de uma portaria (!) Na Semco cada funcionário faz o seu horário, não há cobrança de presença ou coisa parecida. Inclusive não há cobrança para aparecer na empresa.

Quando os escritórios estavam no auge da sua capacidade, inclusive, não havia mesas para todos – de propósito. As pessoas deviam reservar as mesas e o sistema não permitia que ele escolhesse a mesma mesa mais do que dois dias seguidos, como um incentivo realmente para que não se caísse em rotina. E quem ficasse sem mesa poderia escolher trabalhar em outros escritórios, como os da Faria Lima, ou mesmo trabalhar de casa.

Mais do que isso, nem mesmo nas Fábricas, onde funcionam turnos e escalas, onde normalmente os processos são mais espartanos e regulados, os próprios operários decidem entre si quem vem em que horário, como deveriam trabalhar e tudo mais.

Semler

Enfim, ainda vou explorar muitos dos temas da Semco nos próximos posts e eu recomendo fortemente ler os dois livros do Ricardo Semler que contam a trajetória da Semco e como ele implementou esse modelo. Aliás, uma das frases dele que eu mais gosto é a seguinte:

Se quiser adultos trabalhando na sua empresa, os trate como adultos. Se os tratar como crianças, elas vão agir como crianças.

Outra curiosidade adicional à quem é da área de Internet, provavelmente já ouviu falar na 37signals e no seu sucesso com produtos Web 2.0 e justamente uma nova forma de empreendedorismo. Pois Ricardo Semler e seu livro Maverick (a versão americana do Virando a Própria Mesa), é leitura obrigatória e um dos livros preferidos de Jason Fried e David Hansson, fundadores da 37signals.

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