[Off-Topic] NÃO Faça o que Você ("ACHA") que Ama

2014 September 13, 17:04 h - tags: career off-topic principles insights startups

Hoje eu li uma série de tweets de Marc Andressen onde ele começa dizendo o seguinte:

"Faça o que ama"/"Siga sua paixão" é um conselho perigoso e pode destruir sua carreira.

Outra celebridade reconhecida nos EUA é Mark Cuban, dono do Dallas Mavericks que, em 2012, disse a mesma coisa:

"Não siga sua paixão, siga seu esforço."

Ao que indica, o famoso Confucious disse pela primeira vez a frase que se tornaria um dos maiores clichês para jovens, saindo da adolescência e tendo que encarar a vida adulta de responsabilidades reais:

"Faça o que você ama e o dinheiro vem em seguida."

Aliás, Confucious é meio que um genérico pra tudo: não sabe quem disse? Diga que é de Confucius. (Aliás, o disclaimer de sempre: só porque eu citei pessoas não significa que concordo com elas ou com tudo que dizem, são meras referências!)

Além de Mark Cuban, Marc Andressen, diversos outros já levantaram o assunto antes - e recomendo que você leia o "Don’t do what you love." da cartunista Rachel Nabor, onde ela conclui como uma nova frase:

"Apenas não faça o que você odeia."

No reconhecido site Slate, Miya Tokumitsu também escreveu "In the Name of Love" onde inicia com o excelente subtítulo ao artigo:

Elites abraçam o mantra "faça o que ama". Mas isso desvaloriza o trabalho e machuca os trabalhadores.

Devo dizer que fiquei até um pouco surpreso de que este assunto também esteja no Brasil. Em março de 2014, Daniela Carasco escreveu o artigo "5 razões pelas quais o "faça o que ama" não é a solução" que foi publicado pela EXAME.com, falando de Bárbara Castro, socióloga especialista em questões do trabalho e professora do curso de sociopsicologia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). E ela também já identificou o óbvio que muitos ainda se mantém cegos a respeito:

Segundo ela, o grande problema da narrativa do “ame o que você faz” é que ela está vinculada a um discurso de felicidade que é “estar no topo da montanha russa o tempo inteiro”. Como se uma vida normal, cotidiana, rotineira não pudesse ser uma vida de satisfação. Tudo isso torna esse cenário preocupante.

Finalmente, a blogueira Dani Arrais analisou o assunto em Fevereiro de 2014 em seu post "A ARMADILHA DO “FAÇA O QUE VOCÊ AMA”" que coincidentemente também é amiga da mesma socióloga Bárbara Castro (algo me diz que eu deveria procurar conhecê-la), e ela diz:

A gente precisa ser feliz o tempo todo com o trabalho que a gente faz? Ainda que a gente ame o que a gente faça? Não podemos sofrer com as contradições que esse trabalho nos impõe? Porque não podemos assumir que ele não faz sentido? A quem isso interessa?

Você pode estar confuso lendo tudo isso, imagino que a grande maioria dos meus leitores sempre se identificou com o mantra do "Faça o que Ama". Afinal se está num blog que fala de Ruby e - em menor ênfase - tecnologia em geral e Empreendedorismo provavelmente é porque "ama" os assuntos Ruby, Tecnologia ou Empreendedorismo.

E provavelmente lê o que posto porque assume que eu seja "apaixonado" por esses assuntos. E aqui vem a parte importante:

  • Eu não amo Ruby ou programação
  • Eu não amo empreender ou ser dono de uma empresa
  • Eu não amo tecnologia ou os equipamentos que compro
  • Eu não amo escrever ou o tempo que gasto nisso

E sendo sincero, ao longo dos anos, por causa desse mantra tão repetido, tantas tentativas de lavagem cerebral, por algumas vezes eu quase sucumbi e acreditei nessa idéia, mas felizmente eu sempre consegui me trazer de volta. E eu não tenho nenhum problema em dizer que eu não amo nenhuma dessas coisas.

Mas se for assim, você poderia querer me perguntar:

  • Por que tanto esforço em escrever tanto sobre esses assuntos? (1000 posts!)
  • Por que tanto esforço em trabalhar em programação? (quase 20 anos!)
  • Por que tanto esforço em organizar eventos? (7 Rubyconf Brasil!)
  • Por que tanto esforço em viajar o país para evangelizar esses assuntos? (mais de 100 palestras!)
  • Por que tanto esforço em criar uma empresa? (6 anos em consultoria, 3 anos na minha própria!)

Vou tentar responder no final. E não há nada de errado com o que você acha que gosta, ama ou está apaixonado. A idéia do artigo não é dizer porque isso é "errado", é apenas a forma como a frase é usada que quero explorar dentro do meu próprio contexto pessoal.

Antes de mais nada, não siga conselhos cegamente. A primeira vez que entendi esse conceito de forma consciente foi assistindo o famoso vídeo viral do começo do século, Everybody's Free to Wear Sunscreen onde um dos trechos diz o seguinte:

Cuidado com quais conselhos você acredita, mas seja paciente com aqueles que os dão.
Conselho é uma forma de nostalgia. Distribuí-lo é uma forma de pescar o passado do lixo, limpá-lo, pintar as partes feias e reciclá-lo por mais do que vale.

Isso dito, não quero aconselhá-los sobre o que devem fazer, mas quero explicar alguns pontos que podem passar batido.

Primeiro, o Óbvio.

Antes de mais nada, se você pensa "Faça o que ama" está na verdade pensando "Faça APENAS o que ama".

  • "Eu não amo acordar cedo"
  • "Eu não amo obedecer ordens"
  • "Eu não amo pegar trânsito"

E essa lista vai crescer, porque existem milhões de coisas que precisamos fazer mas, obviamente, não "amamos". No fundo, a mais genérica seria: "Eu não gosto de fazer nada (trabalhar)". Só não sei como disso se deriva o outro grande clichê de nossos tempos:

"Vou virar meu próprio chefe para seguir minhas próprias paixões e não o sonho dos outros".

A ironia é que se alguém acredita nisso já está seguindo o sonho de quem fez essa frase da primeira vez. Você já está vivendo o sonho de outra pessoa, quer você queira ou não. Pense nisso.

Frases como essa levam naturalmente a outras falácias da auto-ajuda. Uma das mais famosas certamente seria o tenebroso e perigoso "The Secret"), cuja definição seria o seguinte (segundo a Wikipedia):

The Secret afirma que a lei da atração é uma lei natural que determina a ordem completa do universo e de nossas vidas pessoais através do processo de "igual atrai igual". A autora afirma a forma como pensamos e sentimos, uma frequência correspondente é enviada ao universo e isso atrai de volta eventos e circunstâncias da mesma frequência. (...) e você pensar positivamente, vai atrair eventos e circunstâncias positivas. Os proponentes clamam que resultados desejáveis como saúde, riqueza e felicidade podem ser atraídos mudando seus pensamentos e sentimentos.

A idéia de "fazer o que ama" está inequivocadamente interligado com o "pensar positivo para atrair positivo", mesmo que racionalmente tentar coisas como "largar tudo pra perseguir o que ama", pra dar certo, tem as mesmas chances de ganhar na loteria. E quem pensa desta forma, deveria olhar pra criança da foto abaixo e dizer a ela:

"Você certamente não está pensando positivo o suficiente."

Criança com Fome

Exagero? Nem tanto, é o mesmo resultado: você acreditou cegamente numa idéia, sem pensar nela. Fazemos isso todos os dias, e eu sei que é necessário um esforço consciente, grande, para não ser vítima disso. Eu mesmo já quase acreditei nessas idéias.

Segure o que você quer trolar nos comentários neste instante: eu não estou dizendo que pensar positivo é errado, que perseguir seus sonhos é errado ou que fazer o que gosta é errado! Acompanhem até o final.

Segundo, o que você Ama?

Qual a diferença de Paixão e Amor? E o que é Paixão? E o que é Amor?

Estas são perguntas que a humanidade já passou milênios explorando e ainda deve explorar por mais alguns milênios. Quantos poemas, literaturas, músicas, pinturas, esculturas, discursos, revoluções já não aconteceram por causa de Paixão e Amor? Não será este post num mero blog onde você encontrará uma resposta, e este autor nem tem a presunção de imaginar que sabe a resposta.

Mas para efeito de continuar este texto, gosto deste pequeno resumo:

  • Amor é um estado de modo de vida, enquanto paixão é um estado de ser.
  • Paixão dura por pouco tempo, mas Amor dura mais tempo.
  • No Amor, entendimento profundo é a essência, enquanto paixão não a requer.

Releia a frase "Faça o que Ama", ou similares como "Siga sua paixão".

Você é apaixonado ou ama muitas coisas ao mesmo tempo. E isso muda com o tempo. Raramente você encontra algo ou alguém que vai amar pra sempre (e só vai saber disso perto da sua morte).

APENAS seguir algo que muda o tempo todo é uma corrida sem propósito. E o único resultado garantido é que você vai se frustrar de maneira pior.

Mas isso significa que deveríamos ignorar nossas paixões? Claro que não. Apenas estou dizendo que uma vida onde você acha que deve ser preenchida somente pelo que está apaixonado e ignorar todo o resto do mundo, é uma postura absolutamente infantil. É como qualquer criança, tão empolgada pelo Nintendo 64, que passa dias sem tomar banho, sem dormir, sem falar com ninguém, sem querer ir pra escola, porque está profundamente apaixonado por isso. E, como todos sabemos, é o típico caso onde a maioria vai enjoar em alguns dias e, daqui algumas semanas, o tão apaixonante objeto de desejo estará num canto do armário pegando pó. E a criança estará em busca do que amar em seguida, em todo dia das crianças, aniversário e Natal.

Fazer "SOMENTE" o que "ACHA" que "AMA" (veja as ênfases nesta frase), significa simplemente ignorar o mundo real. Ignorar escovar os dentes, ignorar ir pra escola, ignorar trabalhar, ignorar responsabilidades, que é o que todo adulto chamaria de "ainda é uma criança".

Terceiro, o que Eu amo?

Falando dessa forma parece outro clichê: de que um adulto é uma criança que deixou suas paixões de lado. E por isso talvez a evolução mais tardia, onde "adultos" de 30 anos ainda tentam ser as mesmas crianças que eram, e isso normalmente significa ser um irresponsável, egocêntrico, anti-social, já que o tal "mundo adulto" exige responsabilidade, colaboração, interação e compromissos. Ninguém "ama" esse tipo de coisa, ninguém ama "negociar meio termo". Toda criança quer tudo ou nada.

Se você é um leitor que me acompanhou nos últimos 8 anos, até este post 1001 (que meus amigos carinhosamente já pré-apelidaram que deveria ser o "post bombril, de 1.001 utilidades"), talvez tenha uma idéia sobre o que quero dizer agora.

E agora vem um disclaimer: não me citem dizendo que esta é a solução ou a resposta. O que vou dizer agora é absolutamente pessoal.

Eu de fato persigo algumas de minhas "paixões", como todo ser humano eu me apaixono muito fácil por muita coisa. Significa que eu me frustro muito também, o tempo todo. Sou humano: me corte e eu sangro. E muito do que gosto são supérfluos, e a diferença talvez seja que faz muito tempo que eu entendi que são supérfluos. Ou seja, eu cometo erros, tropeço, caio, o tempo todo, e aprendo como me levantar todas as vezes.

Eu sou apaixonado por tecnologia, por programação, pelos métodos, pelos processos. E ao mesmo tempo elas me frustram, me deixam chateado, me deixam frustrado, me deixam irritado e com vontade de jogar tudo fora. Como toda paixão sempre é.

Eu sou apaixonado por comunicação, por sociologia, por pessoas, por compartilhar conhecimento, seja escrevendo, seja palestrando. E novamente, isso me deixa cansado, estressado, frustrado quando não me entendem, chateado quando assumem coisas sem perguntar, mas novamente, é como uma paixão deve ser.

Mas como disse no começo, não Amo nenhuma dessas coisas. Elas não são meus "objetivos de vida" ou definições da minha identidade ou qualquer coisa filosófica desse tipo. São coisas que gosto, que persigo, que me trazem ao mesmo tempo prazer e sofrimento, e que são meios para outro fim, e que não é me fazer "feliz" (no sentido de estar confortável no curto prazo, como é pra todo mundo).

Estar feliz o tempo todo é o domínio dos drogados em LSD. Já viu alguém que é honestamente feliz 100% do tempo? Isso é impossível. E achar que seu trabalho deve ser sua maior paixão só vai trazer como resultado um estado de miséria e frustração que é domínio dos psicólogos e psiquiatras, o domínio dos calmantes e anti-depressivos.

Pokemon LSD

(Aliás, se eu fosse neurótico, quase concluiria que frases de auto-ajuda como a discutida aqui é uma Conspiração dos Psiquiatras pra gerar mais Depressivos. #troll)

Ninguém nunca deveria estar "confortável" ou "feliz" 100% do tempo. Paixões, Amor, Felicidade, sempre são um balanço dinâmico entre coisas que te satisfazem e coisas que não te satisfazem. Não dá para ter Luz sem existir Escuridão. Não dá para existir saciação sem existir fome. Não dá para existir calor sem existir o frio.

Outra frase derivada é "Ame o que faz" mas isso é um exagero. Eu penso de outra forma que acho que foi minha mãe quem me disse pela primeira vez e que é verdadeiro:

"Não importa o que está fazendo, mas já que está fazendo, faça o melhor possível."

Confucius não disse somente a frase que dá origem a este post. Talvez você se lembre de Confucionismo e que os antigos orientais talvez já tenham definido isso melhor: Yin e Yang, o conceito de como coisas opostas ou forças contrárias são na realidade complementares, interconectadas e interdependentes no mundo natural, e como uma dá origem à outra. Yin e Yang podem ser vistas como complementares em vez de opostas, que interagem num sistema dinâmico onde o todo é maior que a soma das partes.

Sem nunca ter sofrido, como é possível saber o que é felicidade?

Minha Conclusão

No final, Ruby, programação, tecnologia, projetos, empreendedorismo, palestras, blog e tudo isso são apenas meios que não definem o que eu realmente gosto e sempre gostei: aprender e me aprimorar, puramente.

Se você pelo menos alguma vez ouviu falar de Agilidade, Lean, Kanban, Toyota (temas recorrentes neste blog) vai lembrar do conceito japonês de Kaizen (改善) ou "melhoria contínua". Pra mim é algo consciente. Me lembro de quando era criança ver uma coisa muito simples numa alegoria: como um ninja consegue pular tão alto e até por cima de uma árvore (nos desenhos)? Simples: ele começa pulando um matinho no chão, depois um pequeno arbusto, e assim por diante.

Perfeição não é um objetivo atingível, melhoria contínua é o processo infinito para um objetivo inalcançável. E o que eu amo é o desafio de melhorar um aspecto de cada vez em cada uma das capacidades que eu tenho hoje (programar, comunicar, ensinar, produzir).

Meu fundamento é que eu sou apaixonado por produzir, e tudo que eu produzo é não mais do que um rascunho do conhecimento que eu tenho hoje, e sempre pior do que eu posso produzir amanhã. Minha única, verdadeira, "paixão" é a certeza de que eu nunca vou ser realmente "bom" e que eu sou hoje um pouco melhor do que fui ontem. Só isso. Não importa agora se estou fazendo um projeto de programação ou escrevendo este post ou se amanhã eu decidir pintar quadros.

Aprender significa que eu não gosto de coisas fáceis. Tudo aquilo que todo mundo diz que é difícil, chato, que nunca faria, ou que não consegue fazer, naturalmente me atraem. Porque eu gosto de resolver problemas, que é uma das melhores formas de testar o que eu sei. Fazer o que todo mundo já sabe não me dá nenhum prazer.

Em particular eu gosto de produzir algo que é útil para alguém. Seja um post ou uma palestra que ajudou alguém a aprender alguma coisa, seja uma oportunidade de trabalho que alguém pode usar para seus próprios objetivos, seja um projeto que um cliente pode usar para atingir seus objetivos.

No fundo, tenho a impressão que se pudesse resumir é que eu amo e sou apaixonado não pelo "o que" eu faço mas o "como" eu faço. Principalmente quando há obstáculos no que seria o "como ideal" e como eu posso resolver esse problema para atingir o "o que". O "o que" não é a parte que me interessa mais.

A frase "Faça o que ama" é sempre levada pra "Faça 'apenas' o que ama" e o que quis resumir foi: "Não faça 'apenas' o que 'acha' que ama". Só isso.

Meu único princípio inviolável é viver através de trocas voluntárias para mútuo benefício. Por isso mesmo nada do que eu digo são verdades absolutas e invioláveis, mas ensinamentos de como pensar, como contra-argumentar, como ser consciente, como ser um indivíduo que não vive pelos clichês dos outros. Não quero seguidores cegos da mesma forma como não quero e não preciso de ídolos carismáticos para seguir.

Espero que este possa ser meu legado.

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