[Off-Topic] Empresas, Pessoas, Sucesso

2010 January 30, 14:22 h - tags: career off-topic

Adoro o vídeo Wear Sunscreen, acho que eu vi pela primeira vez em 2003 ou 2004 e ela ficou para mim como um “aviso”, algo a se lembrar de vez em quando. As partes que mais gosto são:

“Tenha cuidado com quais conselhos você aceita, mas seja paciente com quem lhes dá conselhos. Conselho é uma forma de nostalgia, distribuí-lo é uma forma de pescar o passado do lixo, limpá-lo, pintar sobre as partes feias e reciclá-lo por mais do que vale.”

Outra parte importante:

“Talvez você se case, talvez não, talvez você tenha filhos, talvez não, talvez você se divorcie aos 40, talvez você dance a dança da galinha no seu 75o aniversário de casamento. Não importa o que faça, não se parabenize demais ou se critique demais. Suas chances são de 50%, assim como as de todo mundo.”

Relembrei dessa parte lendo o livro What the Dog Saw, do Malcolm Gladwell, no capítulo onde ele fala sobre outro autor que eu gosto, o Nassim Taleb, que escreveu o excelente Fooled by Randomness. Esse capítulo, por acaso está no blog do Gladwell e esse é o trecho que me chamou a atenção:

“Para Taleb, então, a questão de porque alguém foi um sucesso no mercado financeiro era vexatório. Taleb consegue fazer os cálculos de cabeça. Suponha que existiam 10 mil gerentes de investimento por aí, o que nem é um número grande, e que a cada ano metade deles, totalmente por sorte, ganharam dinheiro e que metade deles, totalmente por azar, perderam dinheiro. E suponha que a cada ano os perdedores saiam do mercado, e o jogo é refeito com os que sobraram. Ao final de 5 anos, haveriam 330 pessoas que ganharam dinheiro e cada um desses anos, e depois de 10 anos, sobrariam 9 que ganharam dinheiro em cada ano, seguidamente, totalmente por sorte. Niederhoffer, como Buffett e Soros, era um homem brilhante. Ele tinha um Ph.D em economia pela Universidade de Chicago. Ele iniciou a idéia de que por análise matemática rígida de padrões no mercado um investidor poderia identificar anomalias lucrativas. Mas quem poderia dizer que ele não era um dos 9 sortudos? E quem poderia dizer que no 11o ano Niederhoffer não seria um dos azarados, que de repente perderia tudo, que de repente, como se diria em Wall Street, ‘se ferrou’?”

O artigo é longo, mas vou poupá-los dos detalhes: Victor Niederhoffer literalmente ‘se ferrou’, em outubro de 1997. Perdeu praticamente tudo.

O Milagre da Apple

Em 1997, a Apple era considerada praticamente fora do mercado, com uma linha de produtos ruins, péssima imagem, marketshare em declínio, enormes prejuízos. Foi quando Steve Jobs retornou.

Em 2009, a Apple é uma das empresas mais admiradas do mundo, seu valor de mercado se multiplicou dezenas de vezes, demonstra lucros extraordinários, a marca é uma das mais reconhecidas e adoradas do mundo, seus produtos são invejados por toda a indústria.

Essa é a história do CEO da Década, do iMac, para o iPod, para o iPhone e agora o iPad. Todos nós adoramos histórias como essa. Imaginar que um grande cérebro, um gênio, um herói, pode sozinho dobrar uma indústria inteira a seus pés. 12 anos ininterruptos de sucesso.

Eu também adoro essa história, ela me fascina desde a década de 90, conheço essa história toda desde quando ela começou em 1976, o Macintosh em 1984, a Pixar em 1995, o grande retorno em 1999, o iPod de 2001, o iTunes de 2003, o iPhone de 2007. Mas não consigo deixar de tentar imaginar o quanto disso foi pura sorte e quando amanhã será o dia da grande virada para o azar – claro, espero que não aconteça, mas a história mostra que é uma questão de tempo.

As Receitas Mágicas

A coisa que eu acho mais engraçado é quantos “analistas”, “especialistas”, “gurus”, gostam de citar histórias como a da Apple, de Warren Buffet ou dos Victor Niederhoffer da vida como os detentores de “Receitas Mágicas para o Sucesso”.

Existe toda uma indústria que vai de psicólogos, MBAs, Ph.Ds, economistas, etc com toneladas de livros, análises, traçando as rotas das grandes pessoas ou empresas de sucesso, tentando encontrar o que elas tem em comum e a partir daí entregar procedimentos que “garantidamente” o levarão ao sucesso.

É uma tarefa fácil: se der certo, a fórmula funciona; se não der certo, foi você quem não seguiu a fórmula corretamente. Não tem como errar.

Estou cansado de ouvir: “nós devemos seguir esse caminho, porque é assim que a empresa XXX, de grande sucesso, está fazendo.” Mal sabem eles que muito disso pode ser pura sorte. E sorte é algo incontrolável, totalmente dependente da situação onde ela aconteceu, e que é impossível replicar quando se quer.

Num mundo caótico, é impossível replicar 100% de todas as milhões de variáveis que levaram a um fenômeno. Nós conseguimos enxergar, em retrospectiva, muitos dos fatores macro, mas jamais saberemos todos os micro-fatores que influenciaram no resultado, portanto é fútil tentar. Podemos sim, aprender com erros, mas acho muito difícil aprender com acertos, especialmente o tipo de acerto que leva uma Apple a sair da quase-falência em 1997 para o estrelato em 2009. Nem todos os maiores super-computadores do mundo seriam suficientes para analisar todas as variáveis envolvidas.

Admirar os grandes sucessos é um bom exercício. Isso nos inspira a tentar coisas diferentes ou a rever nossos pontos de vista e nisso encontro um exercício saudável.

Mas é burrice fazer citações ou tentar imitar os outros. “Vamos fazer X porque esse guru de sucesso disse.” Isso é cegueira, é não saber o que está fazendo, é não entender que só porque alguém está fazendo sucesso, isso não foi devido a pura sorte. Independente do que muitos podem achar: que foi por suor, por esforço próprio, por mérito 100% da sua perspicácia e inteligência. Como Taleb diz, pode parecer uma heresia dada a nossa cultura voltada a “suor = sucesso”, mas infelizmente é como as coisas funcionam no mundo. Espécies animais evoluem ou se extinguem baseadas em pura aleatoriedade. O Homo Sapiens está aqui por pura chance. É um fato a se aceitar.

E mais ainda: análises em retrospectiva são muito perigosas. Depois do acontecido é extremamente simples traçar um caminho para trás e ver a maioria dos passos que foram tomados. Mas o truque é que no passado, no momento onde era necessário tomar a decisão, nós não temos como saber o desenrolar da história. Portanto não podemos comparar o crítico de hoje que diz “ah, mas você deveria ter feito Y.” com o decisor de outrora, que não detinha o conhecimento futuro. Pior ainda: análises retrospectivas não servem como receitas para o futuro, porque o conjunto de variáveis e circunstâncias será totalmente outro.

Histórias heróicas fazem parte do nosso folclore, da nossa cultura, eu já falei sobre isso no artigo O Poder do Mito: Redux e recomendo dar uma olhada se ainda não leram.

Dado tudo isso um dos perigos, é o bom e velho analysis paralysis, onde queremos avaliar o máximo possível todas as variáveis que podemos conseguir antes de tomar qualquer decisão. Aceite que você nunca terá todas elas, e independente do volume de variáveis que conseguir analisar, suas chances de acerto não melhoram tanto assim. Como eu disse antes:

“Não importa o que faça, não se parabenize demais ou se critique demais. Suas chances são de 50%, assim como as de todo mundo.”

Isso tudo dito, o que uma pessoa ou empresa deve fazer? “Satisfazer os clientes?” Não, isso é somente um aspecto do negócio. “Entregar bons produtos?” Também não, isso é apenas mais um aspecto. O que você faz no meio do caminho lhe dará ou não sustentabilidade, mas não confunda as coisas. O propósito é apenas um. Um marketeiro lhe dirá que o principal é “satisfazer o cliente”, um engenheiro de produção lhe dirá que o propósito é “aumentar a produtividade”, um investidor lhe dirá que o objetivo é “aumentar o valor da sua empresa”, um cientista de computação lhe dirá que o objetivo é “criar tecnologias inovadoras”, um sociólogo lhe dirá que é “fazer uma diferença no mundo”, etc.

O propósito de uma empresa é “ganhar dinheiro de forma sustentável”. Apenas isso.

Obs: Não estou afirmando que tudo é derivado apenas de sorte, claro que não. Estou dizendo que é inútil tentar discernir isso de casos passados, e especialmente pior em tentar usar isso de modelo para o futuro, justamente por causa dessa incerteza.

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