Finalmente acabou, a segunda edição do Rails Summit 2009. Novamente tivemos aproximadamente 550 participantes, 20 palestrantes. Num ano de “semi-crise” (ou seja lá como estão chamando isso), foi um bom resultado.

Tive a impressão que vieram mais pessoas de mais lugares fora de São Paulo. Claro, os cariocas vieram em peso, praticamente um arrastão :-) Foi ótimo ter todos eles juntos depois do #devinrio. O pessoal do Norte estava presente com o Paulo Fagiani, o Elomar e, claro, seu irmãozinho Aldo. Veio pessoal do Sul, do Nordeste, do Centro-Oeste. Além deles vieram meus amigos da Argentina, que não vejo desde o Locos x Rails que participei no começo do ano.

Os Brasileiros, novamente, deram um show de hospitalidade e camaradagem, teve #horaextra todos os dias. No primeiro dia foi no Bar Brahma, no segundo dia foi no Villa Vintém, eu sei que ontem ainda saíram novamente. É o tipo de coisa que não acontece nas RailsConf. Espero que todo mundo tenha aproveitado para fazer novos amigos, conseguir mais contatos e voltar mais inspirados em cada região para fortalecer as comunidades locais.

Os Bastidores

Escolhemos o mesmo local do ano passado, o auditório Elis Regina, no Anhembi. Porém, ano passado as coisas foram feitas com muito mais pressa. Em 2008, começamos a organizar o evento em julho, para ser lançado em outubro, ou seja 3 meses efetivamente para fazer tudo. Foi bem difícil, mas a equipe de eventos da Locaweb fez um excelente trabalho. Este ano começamos a olhar isso com muito mais antecedência. Por exemplo, o website ficou pronto em julho, sendo que no ano passado ele só foi pro ar em setembro.

Mesmo assim, os dias que escolhemos – 13 e 14 de outubro – foram difíceis de pegar. Tentamos já alugar em novembro do ano passado e mesmo assim a agenda de 2009 do anhembi já estava lotada, tinham poucos slots pra pegar. Ano passado concorremos na mesma semana do Microsoft TechEd e este ano concorremos com o Futurecom.

Dos problemas do ano passado, resolvemos todos os principais:

  • o calor do auditório B, que foi bem ruim no primeiro dia, mas resolvemos desta vez tendo de antemão nada menos do que 16 ar condicionados. Acredito que desta vez ninguém passou calor.
  • o espaço apertado e o pé-direito baixo do auditório B foram resolvidos também, com uma sala que era quase o dobro do tamanho e altura do que o do ano passado. Para isso alugamos um espaço muito maior, o que também proporcionou um restaurante muito melhor e que gerou quase nenhuma fila na hora do almoço, nenhum aperto, e também muito menos calor.
  • com o auditório B maior também conseguimos colocar uma cabine de tradução decente e tivemos tradução simultânea de português-inglês e inglês-português nos dois auditórios. Uma reclamação justa no ano passado foi a divisão de americanos no auditório maior e brasileiros no menor. O problema foi logístico mesmo. Pior porque ano passado tínhamos tradução para espanhol. Este ano eu resolvi não ter tradução pra espanhol (quem viaja até o Brasil pro Summit com certeza sabe inglês). Assim conseguimos dividir e colocar americanos também no auditório B.

Cerca de 3 ou 4 meses antes do evento já estávamos em contato com todos os palestrantes internacionais para acelerar o processo de vistos que sempre é um problema. A intenção era que eles também se adiantassem, mas muitos deles empurraram com a barriga e deixaram para a última hora. Por isso tinha palestrante que só pegou o visto alguns dias antes do evento, seja porque demoraram, ou seja porque o consulado demorou mesmo.

E ao contrário do ano passado, este ano tivemos muito mais problemas com os palestrantes internacionais. Primeiro o Justin Gehtland não conseguiu tirar o visto a tempo. No lugar dele deu tempo de colocar o Carlos Villela. O mesmo problema aconteceu com o Jason Seifer, mas felizmente ele ia palestrar em dupla com o Bruno Miranda e por isso deu pra manter a mesma palestra. Finalmente, na última hora, o Bryan Liles ficou com suspeita de gripe suína e também não pôde vir, mas como ele ia palestrar em paralelo comigo, acabei fazendo minha palestra ser um keynote.

Fora isso o Ilya Grigorik e o Chad Fowler tiveram problemas com atrasos nos vôos, mas pelo menos eles vieram antecipadamente. O Gregg Pollack aterrissou em São Paulo lá pelas 8 da manhã, sendo que ele ia palestrar às 10:30, então foi bem corrido. O Matt Aimonetti teve o vôo dele cancelado pela Delta Airlines! Felizmente ele conseguiu se virar e arranjar outro vôo e chegou na hora do almoço, sendo que a palestra dele ia fechar o primeiro dia! Haja coração!

Este ano, felizmente, tivemos mais patrocinadores que o ano passado, também começamos a procurá-los com muito mais antecedência. Mais legal ainda porque tivemos três empresas que efetivamente usam Rails: a Caelum, a GoNow e a ThoughtWorks. Sem revelar valores, este ano conseguimos gastar menos do que o ano passado e ainda conseguimos entregar mais. Aprendemos muito. Mesmo assim, a Locaweb ainda foi a maior patrocinadora deste evento, pagando aproximadamente 1/3 do valor total. Para quem estava curioso, não, o evento não foi feito para dar lucro. Mas não significa que podemos gastar quanto quisermos – não podemos -, por isso estamos já planejando o que podemos fazer para diminuir esse custo sem sacrificar muito da qualidade e ainda manter o evento viável.

Outro problema inesperado que não tivemos no ano passado foi o serviço dos terceirizados de som. No primeiro dia tivemos diversos problemas espalhados pelo dia, como chiado, microfonia, microfone que desligava do nada, etc. Vocês devem ter sentido parte desse problema, nos bastidores estava literalmente um “pega-para-capar”. Mas corremos para ajustar isso, e no segundo dia acho que não tivemos nenhum problema de microfones. O trabalho nos bastidores é bem pesado. Para que os participantes achem que tudo está correndo de forma suave, alguém está puxando muito peso por baixo dos panos :-) Eu só fiz isso agora no Summit, é preciso parabenizar a equipe de eventos da Locaweb que faz essa correria o ano inteiro.

Palestras

Ano passado algumas pessoas reclamaram porque as palestras focavam muito ou em testes ou em temas motivacionais. Eu acho importante que os keynotes sejam mais motivacionais. Por outro lado, foi por pura coincidência, mas de fato tivemos muitas palestras sobre o tema de testes. Este ano tentei tomar mais cuidado para escolher os palestrantes e acho que, no geral, deu uma boa mistura de temas para agradar à maioria.

Tanto o Chad Fowler quanto o Obie Fernandez fizeram palestras especificamente direcionadas ao público brasileiro. O Chad levou em consideração que, diferente dos Estados Unidos, a adoção de Ruby on Rails está só começando aqui no Brasil. Por isso mesmo o tema foi sobre “Insurgência Rails”, ou seja, estratégias para tentar colocar Rails, gradualmente, dentro da sua empresa.

O Obie palestrou sobre um tema que eu particularmente gosto muito (e que palestrei bastante a respeito no começo do ano), que é sobre maestria. Em particular ele usou o tema do livro “Outliers” do Malcolm Gladwell, para explicar que talento é muito menos importante do que prática. Gladwell explica que, empiricamente, uma pessoa precisa de pelo menos 10 mil horas de prática antes de chegar ao estágio de mestre. Isso são 10 anos de esforço. Isso vai contra o “bom senso” de que “basta se formar” ou “basta se certificar” ou “basta ter um cargo de sênior” para se considerar bom em qualquer coisa. Novamente, um tema bastante comum atualmente para nós.

Para falar especificamente de Rails 3, eu pedi ao Matt Aimonetti, um dos Rails Activists e ao José Valim, que participou do Google Summer of Code. O Ilya Grigorik e o Marcos Tapajós falaram de duas temas mais modernos, PubSubHubBub e CouchDB. As palestras um pouco mais técnicas ficaram a cargo do Leonardo Borges com JRuby, Arthur Zapparoli com Git, Glenn Vanderburg com Testes Fuzz, David Chelimsky com RSpec e Cucumber, o Carlos Brando falou sobre criar um framework web com Ruby, o Gregg Pollack e o Pratik Naik nos mostraram diversas bibliotecas e técnicas que muitos desconheciam, e o Fabio Kung mostrou todo o poder da magia negra da metaprogramação Ruby, codificando uma DSL ao vivo!

Especificamente sobre Ruby, tivemos Rich Kilmer dando uma introdução ao Macruby e o Nando Vieira mostrando as novidades do Ruby 1.9. O Bruno Miranda falou sobre o case Cyloop, mais um exemplo de quão longe o Rails pode escalar. O Carlos Villela nos contou sobre a experiência da Thoughtworks em projetos de Ruby e, finalmente, o grande Vinícius Teles deu um show com um tema à la Getting Real da 37signals, falando sobre sua própria experiência como empreendedor e dando dicas valiosas para quem quer começar seu próprio negócio. De longe uma das palestras mais aplaudidas do Summit.

No primeiro dia ainda tivemos a famosa Desconferência, com várias boas palestras curtas. O pessoal do Guru-SP e RubyInside se apresentou. O pessoal da Plataforma Tec mostrou um plugin novo de autenticação, o Devise. O Cipriani deu um show técnico mostrando sistemas de comunicação em real-time usando Rails, AMPQ, etc. A galera do Rio, que veio em peso, falou de todas as atividades cariocas como o Dojo, o #horaextra, o Dev in Rio. O pessoal de Natal falou sobre eventos e do Oxente Rails 2010. Mas um dos pontos altos foi o Aldo Filho, irmão do Elomar, que fez uma palestra codificando ao vivo, com apenas 11 anos, demonstrando muito controle no que estava fazendo e falando tão bem quanto um profissional do palco. Dêem uma olhada:

Eu fiquei particularmente contente com a diversidade de assuntos e mais: como os brasileiros estão envolvidos em assuntos avançados. Espero que todos sigam os exemplos deles. Aliás, antes que eu me esqueça, dia 13, o primeiro dia do evento foi aniversário do José Valim e eu esqueci de dar os parabéns a ele! Sorry!!

Minha Palestra

Propositalmente, com tantos excelentes Railers e Rubistas presentes dando excelentes palestras, eu me dei ao luxo de palestrar sobre algo fora de Rails. Foi a segunda versão do tema “Além do Caos”. É uma palestra sobre agilidade que não fala especificamente sobre o que a maioria pensa sobre uma apresentação sobre metodologias Ágeis. Portanto nada de ficar pregando “farás TDD”, ou “farás pair-programming” ou qualquer outro tipo de dogmatização dessa maneira.

Partindo da premissa que, sim, metodologias ágeis funcionam “para quem pratica da forma correta” eu quero encontrar as razões de porque as coisas funcionam. O “porque” sempre é mais importante do que o “como”, porque o segundo é consequência do primeiro. Sem entender os fundamentos, jamais saberemos quando estamos indo na direção correta, jamais saberemos como decidir quando encontramos bifurcações. Em vez de ficar apenas com as anedotas, o “para ele funcionou então para mim deve funcionar”, o folclore, eu preciso entender os princípios.

Porém, mesmo depois de mais de um ano pesquisando a respeito em áreas como física, psicologia, sociologia, biologia, etc eu ainda não tenho um modelo unificado que explica todos os aspectos. Por isso o subtítulo da palestra é “Pensamentos Aleatórios sobre Agilidade”.

Alguns recados importantes que eu queria passar: 1) nós estamos acostumados demais a apenas dogmatizar e apresentar as coisas como “tudo funciona, basta fazer direito”, isso pode ser bom num curto primeiro momento, mas não se sustenta; 2) sim, agilidade funciona mas se mantê-la estática ela deixará de funcionar rapidamente, por isso é preciso entender os princípios para adaptá-la e evoluir; 3) agilidade não é o fim da linha, é apenas mais um passo evolutivo, existem mais caminhos à frente que alguns já desbravaram; 4) ninguém tem uma resposta exata ainda, por isso apenas discutir o sexo dos anjos não nos levará a lugar algum.

Nós, da organização do Rails Summit, gravamos todas as palestras. Eu ainda não sei como ficou porque o terceiro que ficou responsável por isso ainda não terminou de editar tudo. Assim que estiver tudo certo, vou publicar no site oficial do evento. Enquanto isso, alguns participantes gravaram algumas palestras, então vocês já podem se adiantar e assistir a minha por exemplo:

Além do Caos – Pensamentos Aleatórios sobre Agilidade from Locaweb on Vimeo.

Comunidade

A melhor parte do evento, sempre, é a participação da comunidade, e vocês não decepcionaram. Muitos Railers, todo mundo reunido, trocando idéias, experiências, essa é a idéia do evento. Assistir as palestras é apenas uma pequena parte. E isso é bem claro no pós-evento. Tanto no primeiro quanto no segundo dia, uma quantidade enorme de pessoas continuaram reunidas, socializando. No primeiro dia demos Denial of Service no Bar Brahma do Aeroclube, no segundo dia foi a vez de um stack overflow no bar Vila Vintém.

Este deve ser o único evento de tecnologia que dá ressaca depois :-) Enquanto todos se recuperam, alguns já começaram a reportar como foi o evento. Então lá vão alguns dos links mais recentes.

Quem quiser ver as fotos do evento, vejam estes álbuns:

Quem quiser assistir vídeos do evento, aqui vai:

Finalmente, os blog posts:

Espero que todos tenham aproveitado o evento. Não deixem de blogar, publicar suas fotos e vídeos, compartilhar o que aprenderam, novas inspirações, novas idéias. Obrigado a todos que participaram, espero revê-los até o ano que vem!

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