A IA desmascarou a histeria das mudanças climáticas

17 de setembro de 2026 · 💬 Participe da Discussão
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Ontem eu fechei o artigo sobre o TypeSafe com este parágrafo:

“E se um dia eu conseguir gastar token o suficiente pra ferver um lago inteiro com o calor do datacenter, eu vou gastar com o maior prazer do mundo. É minha vingança pessoal contra quem me obrigou a usar canudo de papel que desmancha na boca por tantos anos.”

Confesso: foi provocação explícita, escrita já sabendo que eu ia explicar ela aqui hoje. Porque por trás da piada tem uma tese séria.

Semana passada eu desmontei aqui a propaganda do medo da IA, da OpenAI, Anthropic e NVIDIA. Hoje eu quero usar a mesma lente para uma histeria muito mais antiga e muito mais lucrativa: a climática. E tem uma ironia no meio: quem desmascarou essa histeria foi a própria IA, sem querer.

A tese é simples. No momento em que a corrida por datacenters apertou de verdade, todos os compromissos “verdes” de governos e big techs evaporaram. A mesma Microsoft que prometia ser carbono negativa está religando Three Mile Island. A mesma Alemanha que desligou o parque nuclear tem hoje um chanceler admitindo que foi um erro estratégico. O que derrubou a pauta climática foi outra pauta, uma com mais dinheiro.

E antes que alguém me etiquete, a minha posição com todas as letras: sim, existe efeito humano no clima. Não, o mundo não está acabando, e a distância entre essas duas frases é onde a histeria mora. O que eu contesto é o pânico industrializado e a má alocação de trilhões que ele justifica.

Toda década tem o seu apocalipse

Eu cresci sob o apocalipse nuclear da Guerra Fria. A gente vivia sob a certeza de que o mundo podia acabar em cogumelos atômicos a qualquer momento. Quando a URSS caiu em 1989, esse medo esvaziou, e o buraco na camada de ozônio ocupou o vazio. Esse, aliás, está se recuperando décadas depois do Protocolo de Montreal de 1987, que baniu CFCs e afins aos poucos: prova de que problema real com solução barata dispensa histeria.

Depois veio o bug do milênio. Depois o “aquecimento global”. E quando “aquecimento” ficou difícil de sustentar em toda manchete, a pauta trocou de nome para “mudança climática”.

Repara no truque. Orwell chamou isso de Novilíngua em “1984”: capturar as palavras para capturar o pensamento. “Aquecimento global” era uma hipótese testável: ou esquentou, ou não. “Mudança climática” acomoda tudo. Calor, frio, seca, enchente, neve, falta de neve. Qualquer evento confirma a tese, e uma tese que tudo confirma explica nada.

Quando o vocabulário é capturado, a pergunta vira crime. Quem pede evidência vira “negacionista”. Cientista financiado por interesses obscuros vira “especialista”, e “especialista” é vendido como monopólio da verdade. A histeria do covid foi o pior fruto desse modo de pensar, mas covid fica para outro artigo. O caso climático já basta.

O custo humano dessa máquina está medido. Uma pesquisa Washington Post/Kaiser Family Foundation de 2019 com adolescentes americanos achou 57% com medo e 52% com raiva por causa do clima. Uma enquete global da ONU que juntou cerca de 9,7 milhões de votos perguntou prioridades: “ação contra a mudança climática” ficou em último entre 16 temas no total global, e mesmo nos países mais pobres ela ficou no fundo da lista. O povo quer hospital e emprego. Quem ranqueia apocalipse em primeiro é quem tem o conforto garantido.

Siga o dinheiro: quem financia o medo

Sobre a Greta Thunberg, um fato incomoda os dois lados: ela mesma não fica com dinheiro nenhum. O pai dela disse à Politico que ela nunca recebeu um centavo, e ela doou o prêmio Gulbenkian de 1 milhão de euros inteiro para projetos climáticos. O personagem é real e, pelo que consta, sem salário.

A menina e a startup

A máquina em volta é outra história. A greve escolar começou em 20 de agosto de 2018, uma segunda-feira. A startup sueca We Don’t Have Time, fundada pelo publicitário Ingmar Rentzhog, ainda construía a sua rede social climática. No dia da greve, Rentzhog postou a foto da menina no Facebook pessoal dele e a conta da empresa tuitou no mesmo dia, marcando o Climate Reality Project do Al Gore. Três dias depois do início da greve, na quinta-feira 23 de agosto, chegava às livrarias o livro da família, “Scenes from the Heart”.

O prospecto de captação da startup, de novembro de 2018, citava a Greta 11 vezes, sem o conhecimento da família; aquela rodada levantou ~13 milhões de coroas suecas, e a empresa dizia ter captado 23 milhões no total até o começo de 2019. Ela foi conselheira júnior da fundação da empresa de outubro de 2018 a janeiro de 2019 e saiu. O produto era a startup; a menina era o marketing.

A indústria do protesto assalariado

Depois veio a industrialização do protesto. O Climate Emergency Fund, fundado em 2019, financia Just Stop Oil, Extinction Rebellion, Scientist Rebellion e afins. Quem abriu o cofre com US$ 500 mil foi Aileen Getty, herdeira da fortuna do petróleo Getty, note bem. O diretor de Hollywood Adam McKay entrou com US$ 4 milhões e uma cadeira no conselho.

Até abril de 2022 o fundo já tinha distribuído US$ 1,7 milhão para ativistas em 25 países; as declarações fiscais do ano inteiro apontam ~US$ 5 milhões em grants. Só a Just Stop Oil recebeu quase US$ 1 milhão, ajudando a pagar o salário de uns 40 organizadores. Aquela sopa na tela do Van Gogh é trabalho assalariado, financiado por herança de petróleo e dinheiro de cinema.

Fundações bilionárias e governos

Acima dos fundos de protesto estão as grandes fundações. A Bloomberg Philanthropies já soma US$ 1 bilhão só na campanha Beyond Carbon, e o New York Times chamou o Bloomberg de talvez o maior financiador individual do ativismo climático do mundo. A Hewlett Foundation comprometeu US$ 600 milhões em cinco anos, a Rockefeller anunciou em 2023 que investiria mais de US$ 1 bilhão em clima ao longo de cinco anos, e a ClimateWorks já distribuiu mais de US$ 2 bilhões. Isso é uma indústria, com orçamento de PIB de país pequeno.

E os governos financiam a pressão contra os adversários políticos deles. A UE paga €15,6 milhões por ano em subvenções operacionais para umas 30 ONGs verdes via programa LIFE, e em janeiro de 2025 o Parlamento Europeu fez um debate formal sobre ONGs financiadas pela Comissão fazendo lobby sobre a própria Comissão, em que o comissário de orçamento admitiu ser “inapropriado” que partes da Comissão assinassem acordos obrigando ONGs a fazer lobby em cima de eurodeputados específicos. Na Alemanha, o Correctiv recebeu €2,5 milhões de dinheiro público desde 2016, o programa “Demokratie leben!” tinha orçamento de €182 milhões em 2024, e a CDU protocolou 551 perguntas formais sobre a neutralidade política de organizações financiadas pelo Estado.

E quem ganha com as políticas? O memorando interno da Enron de dezembro de 1997, escrito de Kyoto, já comemorava: “this agreement will be good for Enron stock!!”. O complexo climático-industrial nasceu junto com o tratado. A arrecadação global com precificação de carbono, impostos e mercados de emissão somados, bateu recorde de US$ 104 bilhões em 2023, e um estudo da Point Carbon de 2008 para o WWF estimou entre €23 e €71 bilhões de lucro inesperado para geradoras de cinco países da UE só na fase II do mercado de carbono europeu. E o maior beneficiário das metas verdes ocidentais tem nome e endereço: a China controla mais de 80% de cada etapa da cadeia de manufatura de painéis solares e produziu quase 75% dos carros elétricos do mundo em 2025. O Ocidente subsidia a demanda; Pequim vende a oferta.

Se você não conhece o caso Enron, pare um minuto e assista:

Quem ganha

Quem se beneficia do discurso do medo, então? Fundações bilionárias, consultorias, indústrias subsidiadas, governos comprando paz social com subvenção e o maior competidor industrial do Ocidente. A Greta saiu sem um tostão. A máquina ficou com o megafone.

A corrida dos datacenters

Parte dos números que eu vou mostrar vem da pesquisa que eu fiz para a minha palestra na Tropical Ruby 2026, sobre energia e IA. Os dados do IEA contam a história:

  • Datacenters consumiram 415 TWh em 2024, cerca de 1,5% da eletricidade mundial.
  • Em 2025: ~485 TWh, crescimento de 17% num ano; os datacenters focados em IA sozinhos cresceram 50%.
  • Projeção central para 2030: ~945 TWh, o consumo do Japão inteiro, perto de 3% do planeta.

Nos EUA, datacenters respondem por quase metade de todo o crescimento de demanda elétrica até 2030. E o dinheiro seguiu: o capex das big techs passou de US$ 400 bilhões em 2025 para ~US$ 715 bilhões guiados para 2026, mais que o investimento anual de todo o setor de energia americano. O investimento acumulado em datacenters entre 2026 e 2030 deve bater US$ 3,9 trilhões.

E mesmo assim não dá conta. O gargalo deixou de ser chip e virou cobre e concreto:

  • A PJM, maior operadora de rede dos EUA, fechou pela primeira vez na história um leilão de capacidade abaixo do requisito de confiabilidade, em dezembro de 2025: faltaram ~6,6 GW. O preço da capacidade saltou para US$ 333,44 por MW-dia, mais de 11 vezes o patamar do leilão de 2024/2025, batendo no teto permitido pela FERC.
  • Transformador de alta potência tem fila de dois a três anos, e os maiores modelos passam disso. A fila de interconexão americana tem mais de 2.000 GW esperando, cerca de 1,6 vez toda a capacidade instalada do país.
  • Dos ~16 GW de datacenters grandes que a Sightline Climate previa globalmente para 2026 (o recorte americano é ~12 GW), só ~5 GW estavam em construção no começo do ano, e a estimativa é que 30% a 50% desse pipeline anunciado atrase.

A fila do mercado agora é por GPU, energia e datacenter.

Lembra do carro elétrico, a grande salvação da agenda verde? A frota global inteira de EVs consumiu ~250 TWh em 2025, cerca de 1% da eletricidade do mundo. Os datacenters consumiram quase o dobro, já no ano passado. E a projeção conta o resto: de 415 TWh em 2024 para ~945 TWh em 2030, são +530 TWh de carga nova na rede, quase três vezes a eletricidade da frota global inteira de EVs de 2024 (~180 TWh).

Gráfico de barras comparando os 250 TWh da frota global de EVs em 2025 com os datacenters: 415 TWh em 2024, 485 em 2025 e projeção de 945 em 2030

A década inteira de “economia verde” foi engolida em dois anos de corrida de IA. E o detalhe cômico: em março de 2026, Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez anunciaram o AI Data Center Moratorium Act, uma tentativa de proibir datacenter novo nos EUA. A agenda verde passou décadas mandando você consumir menos energia. Diante da IA, a saída coerente que sobrou foi tentar proibir o consumidor novo.

A volta da energia nuclear

Se a pauta climática fosse séria, o maior aliado dela sempre foi a energia nuclear: a fonte mais limpa, mais densa e mais confiável que existe. A mesma pauta que pregava apocalipse tratou nuclear como tabu por cinquenta anos. Eis o que a fome de energia da IA fez em um ano:

A corrida nuclear das big techs

O motivo técnico é simples. Nos EUA, nuclear opera com fator de capacidade em torno de 91%, e ficou acima de 92% na média da década até 2023; vento fica em ~34% e solar em ~23%. Datacenter quer baseload, 24 horas por dia. Sol e vento não entregam isso sem uma montanha de bateria que ninguém tem.

Se você não conhece o incidente de Three Mile Island, em 1979, assista:

O caso alemão

E a Alemanha? A Alemanha desligou suas três últimas usinas em 15 de abril de 2023 e virou importadora líquida de eletricidade pela primeira vez desde 2002, inclusive importando nuclear francês. A Energiewende custou na casa das centenas de bilhões de euros, a eletricidade industrial alemã custa cerca do dobro da americana ou mais, e a rede alemã emite em torno de 350 g de CO2 por kWh, contra 22 g da França nuclearizada.

Pois bem. Em janeiro de 2026, o chanceler Friedrich Merz admitiu em público: “Foi um grave erro estratégico abandonar a energia nuclear”, “estamos fazendo a transição energética mais cara do mundo inteiro”. O chefe do próprio IEA, Fatih Birol, foi a público concordar com ele. Desde maio de 2025 a Alemanha parou de sabotar a França nuclear na UE, e em junho de 2026 ex-diretores das usinas fechadas pediram oficialmente a reativação dos reatores.

Deixa eu registrar a minha opinião aqui: fechar o parque nuclear foi um dos maiores erros da história moderna da Alemanha. Eles empobreceram a própria indústria, se viciaram em gás russo, voltaram a queimar carvão na crise de 2022 e hoje compram eletricidade nuclear do vizinho. Tudo isso em nome de uma pauta que eles mesmos estão abandonando.

O medo contra os números

Sobre o medo em si, os números oficiais são outros. Mortes por TWh produzido, somando acidentes e poluição: carvão mata 24,6; petróleo, 18,4; gás, 2,8. Nuclear: 0,03, menos que vento e quase igual a solar. Chernobyl matou 30 trabalhadores diretamente, e a projeção do Chernobyl Forum e da OMS para cânceres eventuais fica em até 4 mil entre os 600 mil mais expostos, enquanto o Greenpeace vendia 93 mil. O mesmo relatório concluiu que o maior problema de saúde pública foi o dano psicológico: pessoas adoeceram de medo da radiação, não da radiação. Fukushima: zero mortes por radiação entre o público (o Japão reconheceu uma única morte ligada à radiação: um trabalhador com câncer de pulmão, em 2018); 2.313 mortes ligadas à evacuação em pânico. O medo matou mais que o acidente.

E o lixo? Todo o combustível usado dos reatores comerciais dos EUA cabe num campo de futebol americano, empilhado a menos de 10 jardas, uns 9 metros. A França reprocessa o dela em La Hague há décadas. A Finlândia construiu o primeiro depósito geológico profundo do mundo para combustível nuclear usado, Onkalo, já na reta final de licenciamento. Problema técnico resolvido há tempos; o que faltava era coragem política, e ela chegou na forma de uma conta de luz de datacenter.

O homem que aponta isso há vinte anos

Quem organiza essa argumentação com rigor há duas décadas é o dinamarquês Bjorn Lomborg. Cientista político de formação, professor de estatística por anos na Universidade de Aarhus, ex-professor visitante da Copenhagen Business School, fellow do Hoover Institution de Stanford, fundador do Copenhagen Consensus Center, um think tank que trabalha com centenas de economistas, Nobel inclusos. Ele estourou em 2001 com “The Skeptical Environmentalist” e virou persona non grata do establishment verde, apesar de repetir desde sempre a mesma frase:

“O aquecimento global é real, mas não é o fim do mundo. É um problema administrável.”

Anota: Lomborg aceita o consenso científico sobre a existência do aquecimento e sua causa humana. Ele defende imposto de carbono e investimento em P&D verde. O que ele contesta é o pânico e a matemática das políticas. O livro dele de 2020, “False Alarm”, é um catálogo de números que a manchete nunca te conta:

Capa do livro “False Alarm”, de Bjorn Lomborg

Os números que a manchete não conta

  • Mortes por desastres climáticos (seca, enchente, tempestade, incêndio, temperaturas extremas; compilação do Lomborg sobre a base EM-DAT): de ~500 mil por ano nos anos 1920 para menos de 20 mil por ano hoje, queda de 96%. Como a população quadruplicou, o risco individual caiu 99%.
  • Na síntese do Lomborg sobre os modelos do Stanford Energy Modeling Forum, cumprir o Acordo de Paris custa entre US$ 1 e 2 trilhões por ano, o pacto mais caro da história humana. E o efeito de cumprir todas as promessas de 2030, medido no modelo MAGICC, o mesmo usado pelo IPCC, é reduzir o aquecimento de 2100 em 0,048°C, no paper dele na Global Policy. Esticando todas as promessas até 2100: 0,17°C. Cada dólar gasto em Paris evita 11 centavos de dano.
  • O custo do aquecimento sem nenhuma ação, na função de dano do Nobel William Nordhaus: cerca de 3 a 4% do PIB global em 2100. O Lomborg aplica isso aos cenários de renda do IPCC e traduz: em vez de termos 4,5 vezes a renda de hoje, teremos 4,34 vezes. Um problema administrável.
  • A Nova Zelândia calculou que seu net-zero custa entre 5% e 17% do PIB de 2050, contra a meta anterior de cortar 50% das emissões. O Lomborg converte a fatia de emissões do país, pela conta dele, num adiamento de três semanas do aquecimento global.
  • Tuvalu, o país-símbolo do “vai sumir no mar”, cresceu 2,9% em área em quatro décadas com o mar subindo ao dobro da média global. E a manchete de “187 milhões de deslocados até 2100” vem de um estudo para até 2 metros de elevação do mar sem adaptação; o mesmo estudo, com diques e adaptação realista, calcula entre 41 mil e 305 mil deslocados.
  • Um estudo na Lancet que analisou 74 milhões de mortes em 13 países atribuiu 7,3% delas ao frio e 0,4% ao calor: no clima atual, o frio mata umas 17 vezes mais.

A conta que ninguém deixa fazer

Agora a comparação que importa. O “Best Things First” do Copenhagen Consensus calculou: US$ 35 bilhões por ano em doze soluções baratas (tratar tuberculose, redes contra malária, nutrição infantil, vacinas) salvariam ~4 milhões de vidas por ano. Tratar tuberculose custa US$ 6,2 bilhões por ano e salva ~600 mil vidas por ano nesta década, retorno de ~US$ 46 por dólar. A malária sozinha matou 610 mil pessoas em 2024, 95% na África, a maioria crianças abaixo de 5 anos. Uma rede tratada entregue custa cerca de seis dólares; salvar uma vida com elas custa na faixa de US$ 5.500.

Gráfico comparando os 2,3 trilhões de dólares anuais da transição energética e o 1 a 2 trilhões do Acordo de Paris com os 35 bilhões do Copenhagen Consensus e os 6 bilhões para tratar tuberculose

A ajuda climática internacional sozinha, um quarto de toda a ajuda ao desenvolvimento, daria para financiar tuberculose, malária, contracepção e nutrição no mundo inteiro e ainda sobrar troco. É essa a escolha real na mesa. Ninguém deixa você fazer essa conta em voz alta sem ser chamado de monstro.

A palestra dele no TED de 2005, “Global priorities bigger than climate change”, é exatamente esse exercício de custo-benefício, feito em palco, vinte anos atrás. Vale os 16 minutos:

E já que os comentários vão mirar o mensageiro, deixa eu adiantar a ficha corrida. Do Lomborg você vai ouvir que um comitê dinamarquês de “desonestidade científica” declarou o primeiro livro dele objetivamente desonesto em 2003. É verdade. E o Ministério da Ciência da Dinamarca derrubou a decisão no fim do mesmo ano, por vícios no processo. Você também vai ouvir do dossiê hostil de onze páginas da Scientific American. Tudo registrado. E nada disso toca os números, que saem do IPCC, da OMS, da FAO e do EM-DAT.

Trinta anos de cúpulas, e o placar é zero

Antes da China, vale olhar o histórico completo do processo que produziu essas políticas. Três décadas de tratados, cada um anunciado como histórico, cada um com o mesmo resultado:

Os tratados

O circo das COPs

E tem o circo em si, que não é só nosso. A COP28 em Dubai teve 83.884 participantes presenciais, incluindo 2.456 lobistas de combustível fóssil, o que talvez explique os textos finais. Glasgow teve 118 jatos particulares; o COP27, umas 315 viagens de jato executivo. E a cereja da nossa edição: a Avenida Liberdade, 13 km de via atravessando a Área de Proteção Ambiental de Belém, com 68 hectares de vegetação suprimidos (o projeto era do estado e anterior à COP, mas o corte em área protegida é fato).

O placar de 32 anos de tratados: +68 ppm de CO2 na atmosfera, zero desaceleração. A curva de emissões não sabe que os tratados existem.

O paciente zero da histeria: Al Gore

Antes da máquina de tratados, a propaganda teve um pai fundador. Al Gore perdeu a eleição de 2000 e se reinventou com “An Inconvenient Truth” (2006): Oscar, Nobel da Paz de 2007 dividido com o IPCC, e o template de toda a histeria que veio depois. Praticamente toda previsão apocalíptica que você ouve até hoje estreou naquele filme.

Quem dissecou o filme claim por claim foi o Roy Spencer: meteorologista PhD, ex-cientista sênior de clima da NASA, cocriador com John Christy do dataset de temperatura por satélite da UAH, a referência independente de temperatura global. A posição dele é a de um “lukewarmer”: CO2 esquenta um pouco, a teoria é sólida até aí; a catástrofe é o exagero. Em 2017 ele publicou “An Inconvenient Deception” (Kindle na Amazon), que eu li para este artigo. O catálogo de profecias furadas do Gore, com os dados do Spencer:

Capa do livro “An Inconvenient Deception”, de Roy Spencer

O catálogo de profecias furadas

  • “Dez anos para o ponto sem retorno” (2006). Passaram dez, passaram quase vinte. A tendência medida pelo satélite do próprio Spencer: ~0,16°C por década, até junho de 2026.
  • O gelo de verão do Ártico “pode sumir já em 2014”: a frase é do discurso dele em Copenhague, dezembro de 2009, citando um modelador que depois renegou o número. Não sumiu.
  • As neves do Kilimanjaro até 2016: seguem lá.
  • Furacões mais fortes e mais frequentes depois do Katrina: o que veio foi uma seca de quase 12 anos sem nenhum furacão grande tocando os EUA, do Wilma em outubro de 2005 ao Harvey em agosto de 2017, a maior desde 1850. Pesquisadores da NASA calcularam que um intervalo desses acontece uma vez a cada 270 anos. E a contagem global de ciclones não tem tendência de alta desde os anos 1970.
  • “Até 20 pés de elevação do nível do mar”: o ritmo global medido hoje é ~3,4 mm por ano, cerca de 1,4 polegada por década. O maregrafo de Battery Park, em Manhattan, mede 1,16 polegada por década desde 1856, e parte disso é o terreno afundando. Nesse ritmo, 20 pés levam mais de um milênio.
  • Os ursos polares se afogando: a cena animada do filme nasceu de um artigo curto na Polar Biology sobre quatro ursos encontrados mortos depois de uma tempestade em 2004. A população global estimada fica entre 22 e 31 mil, provavelmente maior que nos anos 1970, quando nem estimativa confiável existia e a ameaça real era a caça sem regra, resolvida pelo tratado de 1973. Vinte anos depois, “os ursos estão morrendo” ainda circula como fato.
  • A seca da Síria, “a pior em 900 anos”, que teria causado a guerra civil: os dados de chuva do oeste do país, Aleppo, Damasco, Homs, ficaram acima da média; a seca forte de 2007/08 se concentrou no nordeste. O que quebrou o campo foi o governo triplicar o preço do diesel em 2007-2008, que inviabilizou bombear água de poço.
  • A enchente do memorial do 11 de Setembro pelo furacão Sandy, apresentada na sequência como “eu avisei”: no filme original ele falava de subida gradual do mar, nunca de maré de tempestade. Spencer chama de decepção explícita.
  • O experimento de mesa com o Bill Nye, aquecendo CO2 em potes de vidro no vídeo “Climate 101” do Climate Reality Project (2011): a análise do Anthony Watts mostrou que o experimento não funciona e o resultado foi falsificado em pós-produção. Segundo o Spencer, o vídeo continuava no site do Gore anos depois.
  • As lavouras: os 42 modelos climáticos usados pela ONU previam aquecimento de verão no Corn Belt americano; os dados da NOAA não mostram aquecimento significativo ali desde 1960.

O elenco das profecias segue firme. Os ursos, também:

Urso polar gordo e tranquilo descansando na costa do mar de Beaufort, Alasca. Foto: USFWS, domínio público

O personagem

E o personagem: Spencer documenta que Gore enriqueceu com investimentos “verdes” (ele é cofundador da Generation Investment Management), mantém mansões e uma pegada de carbono de tamanho industrial. E nem o establishment engoliu o filme inteiro: em 2007, a Justiça britânica achou nove erros em “An Inconvenient Truth” e chamou a parte do nível do mar de “distinctly alarmist”. A palavra do Spencer para a técnica do Gore é “wordsmithing”: escrever de um jeito que induz o público a concluir o que ele nunca afirmou em termos.

O público, aliás, já tinha desligado: nas primeiras semanas da sequência de 2017, a sessão que o Spencer assistiu num cinema de 750 lugares tinha três pessoas, e uma saiu no meio.

Se esse assunto te pegou, os dois livros de cabeceira são o do Spencer, acima, e o “False Alarm” do Lomborg, que eu usei na seção anterior. Um disseca a propaganda; o outro disseca a conta.

A ficha corrida do Spencer também já vem pronta nos comentários: ele é um dos céticos favoritos dos republicanos no Congresso, o dataset UAH teve correções famosas nos anos 90 e 2000 (publicadas e incorporadas há décadas), e um paper dele de 2011 na Remote Sensing foi tão combatido que o editor do periódico renunciou, dizendo que o artigo tinha passado por engano. Tudo real. E nada disso muda o maregrafo de Battery Park ou o calendário das profecias expiradas. Critique os números, se puder. O mensageiro é só o mensageiro.

A aritmética da insignificância

Vamos ao seu carro elétrico e ao seu canudo de papel. A China respondeu por 32% do CO2 fóssil global em 2024, mais que EUA, UE e Índia somados. A China iniciou a construção de 94,5 GW de novas usinas a carvão só em 2024, recorde em dez anos, e queima mais da metade de todo o carvão do planeta todo ano desde 2011.

Agora as suas ações individuais, com os números:

O seu canudo de papel não aparece nessa conta. Nem o seu EV. A conta é dominada por quem constrói usina a carvão de 94 GW por ano.

Esses gestos são liturgia, e aqui mora o dano real deles. O canudo de papel dá aquela sensação de “pelo menos eu estou ajudando”, e essa sensação anestesia. A pessoa faz o microsacrifício, se sente parte da salvação do mundo, e fecha o olho para os problemas grandes de verdade, tipo as crianças morrendo de malária na África que eu mostrei duas seções atrás. Objetivamente, o gesto move nada. Subjetivamente, ele compra a consciência. É pior que inútil.

E o pensamento completo do Lomborg é ainda mais brutal: se o mundo rico zerasse todas as suas emissões e ficasse no zero pelo resto do século, o aumento de temperatura em 2100 cairia 0,7°F, menos de meio grau Celsius, na conta dele com o modelo MAGICC. O sacrifício total do Ocidente é um arredondamento.

O mundo não cabe na sua cabeça

Parte da histeria existe porque a maioria das pessoas não tem noção de escala física do planeta. Vamos consertar isso rapidinho, em linguagem de ser humano.

O Sol. A Terra intercepta continuamente ~173.000 terawatts de energia solar. A civilização inteira consome ~20 TW. A razão é de mais de 8.000 para 1, e a Terra captura só uma parte em 2,2 bilhões do que o Sol emite. Uma única ejeção de massa coronal grande carrega bilhões de toneladas de plasma com energia na casa de 10^25 joules, algo como cinquenta milhões de bombas Tsar. Em 1859, o Evento Carrington botou fogo em telégrafo e desenhou aurora no céu de Cuba. Nenhum painel de controle humano participou.

A Lua. As marés são a Lua deformando o oceano: um bojo de água do lado dela, outro do lado oposto. O efeito lunar sobre a maré é de ~54 cm; o do Sol, ~25 cm. Na Baía de Fundy, a maré oscila 16 metros, e a cada enchente entram ~160 bilhões de toneladas de água, mais que todos os rios do mundo somados no mesmo período. Enquanto isso, a Lua se afasta 3,8 cm por ano e o dia terrestre fica mais longo uns 2 milissegundos por século. Há uns 620 milhões de anos, o dia tinha quase 22 horas.

El Niño. Normalmente os ventos alísios empurram a água quente do Pacífico para oeste. A cada 2 a 7 anos eles enfraquecem, a água quente desliza para leste, e a temperatura média global sobe 0,1 a 0,2°C por um ano ou dois, sozinha, sem carro, sem indústria. La Niña faz o oposto. Quando você vê uma manchete de “ano mais quente da história”, checa se tinha El Niño: quase sempre tinha.

Nova York e Lisboa. Nova York fica a 40,7°N. Lisboa, a 38,7°N; Madri, a 40,4°N. Mesma latitude. Nova York enterra em neve todo inverno; Lisboa e Madri têm inverno ameno em comparação. A explicação: os ventos de oeste jogam ar moderado pelo Atlântico em cima da Europa, enquanto a costa leste americana recebe ar gelado continental do Ártico, com o Atlântico transportando ~1,2 petawatt de calor para o norte via a corrente meridional da qual a Corrente do Golfo faz parte. A Islândia, a 64°N, tem médias de inverno comparáveis às de Nova York. Latitude manda bem menos que corrente e vento.

O Saara aduba a Amazônia. Todo ano, ~182 milhões de toneladas de poeira saem da África cruzando o Atlântico; ~28 milhões de toneladas caem na bacia amazônica, carregando ~22 mil toneladas de fósforo, quase exatamente o que a chuva lixivia do solo da floresta a cada ano. O maior deserto do mundo alimenta a maior floresta do mundo, e isso acontece há milhões de anos antes de você nascer.

Mapa mundi anotado mostrando a poeira do Saara cruzando o Atlântico até a Amazônia, a linha da latitude de Nova York e Lisboa, a Corrente do Golfo, a região do El Niño no Pacífico e a Baía de Fundy

E se você ampliar a escala de tempo, fica ainda mais absurdo:

O Saara já foi verde. Entre ~11 mil e ~5 mil anos atrás, o Saara era savana com lagos, hipopótamos e crocodilos, e a Caverna dos Nadadores, no Egito, guarda arte rupestre de gente nadando no que hoje é deserto. O motor foi o ciclo orbital de precessão, e a virada para deserto levou de décadas a poucos séculos, dependendo da região. E ela volta: o próximo máximo orbital de verão chega em uns 10 mil anos.

A Terra já foi uma bola de neve. Duas vezes entre ~717 e ~635 milhões de anos atrás, as glaciações Sturtiana e Marinoana levaram gelo até os trópicos: há depósitos glaciais em latitudes tropicais para provar. A Terra saiu disso sozinha: o gelo global desligou o processo que tira CO2 do ar, os vulcões empilharam CO2 por milhões de anos até centenas de vezes o nível atual, e o efeito estufa venceu o gelo.

O Mediterrâneo já secou. Entre 5,97 e 5,33 milhões de anos atrás, o mar Mediterrâneo quase evaporou e deixou camadas de sal com mais de um quilômetro de espessura no leito. Quando o Atlântico rompeu em Gibraltar, a inundação encheu o mar de volta com 90% do volume em meses a dois anos, numa vazão estimada em mil vezes a do Amazonas.

Tubarões no Kansas. No Cretáceo, com o nível do mar 100 a 200 metros acima de hoje, um mar raso partiu a América do Norte em duas, do Golfo do México ao Ártico. Mosassauros e tubarões nadavam onde hoje é o Kansas.

As plantas quase passaram fome. No último máximo glacial, o CO2 caiu a ~180 ppm, perigosamente perto da faixa de ~150 ppm em que plantas C3 começam a falhar. Árvores da era glacial preservadas no piche de La Brea mostram fome fisiológica de carbono. As plantas evoluíram num mundo com muito mais CO2, e hoje o planeta reverdece: o estudo de Zhu et al. 2016, divulgado pela NASA, mediu reverdecimento em 25 a 50% das áreas vegetadas entre 1982 e 2009, com ~70% atribuído à fertilização por CO2.

O CO2 virou sinônimo de gás perigoso, que precisa ser combatido a qualquer custo. Para as plantas, ele é comida. Quando o CO2 aumenta, a vida verde tende a aumentar junto. Se CO2 fosse veneno, não existia planta.

Floresta tropical na Antártida. Em 2020, a Nature publicou a descoberta de raízes intactas de uma floresta temperada que cresceu a 82°S, a uns 900 km do Polo Sul, há ~90 milhões de anos, com temperatura média anual de 12 a 13°C. Clima de Nova Zelândia, na Antártida.

O clima sempre mudou

“Mudança climática” é um oximoro. Mudar é o que o clima faz, desde sempre, sem pedir licença.

Na maior parte da história da Terra não existiu gelo permanente nos polos. A condição normal do planeta é estufa, sem gelo polar. No Cambriano, o CO2 era 10 a 20 vezes o nível pré-industrial. No auge do Cretáceo, a média global era uns 10°C acima de hoje, ou mais. A Antártida só ganhou gelo permanente há 34 milhões de anos.

E as grandes mortes, que a histeria adora invocar, aconteceram cinco vezes antes de qualquer indústria:

  • ~444 milhões de anos (Ordoviciana): ~85% das espécies, glaciação.
  • ~372 milhões (Devoniana): ~75%, anóxia oceânica.
  • ~252 milhões (Permiana, “a Grande Morte”): ~96% da vida marinha, vulcanismo.
  • ~201 milhões (Triássica): ~80%, vulcanismo.
  • ~66 milhões (K-Pg): ~76%, o asteroide dos dinossauros. Essa é só a mais famosa.

Na escala mais recente: a era glacial atual começou há 2,58 milhões de anos, com ciclos de gelo a cada ~100 mil anos no último milhão deles. Há 20 mil anos, centenas de metros de gelo cobriam onde hoje é Manhattan, e o nível do mar estava 120 metros abaixo. Há 11,5 mil anos, no fim do Younger Dryas, a Groenlândia aqueceu ~10°C em cerca de uma década. Depois vieram o Período Quente Medieval, a Pequena Era do Gelo com o Tâmisa congelando até 1814, e o “ano sem verão” de 1816, cortesia da erupção do Tambora. Tudo isso sem uma única usina a carvão.

Linha do tempo da história climática da Terra mostrando as cinco grandes extinções, o PETM, o congelamento da Antártida, as eras glaciais, o Younger Dryas, o Período Quente Medieval e a Pequena Era do Gelo

Para ficar claro o que eu estou dizendo: nada disso prova que o aquecimento atual não existe, e a velocidade atual da subida de CO2 é sim mais rápida que os precedentes naturais. O Lomborg mesmo diz isso. O que essa escala destrói é a palavra “fim do mundo”. Um planeta que já esteve 10°C mais quente e com o mar 120 metros mais baixo não está nos seus estertores. A discussão séria é sobre custo-benefício de cada política, que é exatamente a discussão que a histeria proíbe.

A histeria morreu de causa natural: dinheiro

Medo não salva o planeta, não ajuda o ambiente e não melhora a vida de ninguém. Medo vende narrativa, financia consultoria, elegge político e enche fundação de dinheiro. O custo dessa era está aí: trilhões torrados em gestos que não movem o termômetro, enquanto 4,9 milhões de crianças morreram em 2024 antes dos 5 anos de doenças que o mundo desenvolvido esqueceu que existem.

E aí veio a IA e encerrou o assunto por acidente. Repara como ninguém mais fala de COP em manchete. A conversa agora é GW de datacenter, contrato nuclear de 20 anos, turbina a gás. Os mesmos CEOs que assinavam carta pelo clima disputam usina. Os mesmos governos que impunham canudo de papel aprovam subsídio para reator. A pauta climática saiu de cena sem ser refutada, despejada por uma pauta maior.

Se o fim do mundo estivesse mesmo na agenda deles, você não estaria vendo Three Mile Island sendo religada para treinar chatbot. Está vendo. Era teatro, e o teatro fechou quando apareceu um espetáculo mais lucrativo na sala ao lado.

Medo não salva o planeta. Medo vende. E quem comprou o medo agora compra megawatt.