Códigos de Conduta são a Raiz de Todo Mal: Recuperando sua Liberdade

14 de setembro de 2026 · 💬 Participe da Discussão
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Todo projeto open source grande hoje vem com um CODE_OF_CONDUCT.md no repositório. Vendeu-se a ideia de que isso existia para “proteger minorias” e “criar espaços seguros”. Na prática, o que eu vi acontecer na última década foi outra coisa: um instrumento para cancelar, perseguir e banir qualquer um que pensasse diferente de quem estava no controle. E quem puxava essas caçadas, via de regra, não era quem sustentava o código dos projetos.

Essa é a minha tese, e eu sei que ela é impopular. Levei dez anos de paciência pra poder escrever esse texto. Fiquei calado vendo esse teatro se repetir ano após ano, esperando o momento certo de documentar tudo o que testemunhei de perto, e hoje eu posso, com prazer, ver minhas próprias previsões se confirmando uma por uma.

E antes que algum espertinho tente essa: eu sei que boicote, doxxing e caça às bruxas existem sem CODE_OF_CONDUCT.md nenhum, sempre existiram. O título mira no que esse arquivo virou: o instrumento que pegou uma tática de turba de internet e carimbou ela como política oficial do projeto, com comitê, processo e verniz de legitimidade institucional. Um arquivo markdown de 500 linhas não assusta ninguém sozinho; o que ele virou, sim.

Dinheiro fácil foi o combustível. Código de conduta foi a arma que essa gente construiu pra oficializar o que antes era só grito de rua.

Uma pergunta é de onde veio a energia; outra é o instrumento que ela adotou pra virar poder permanente dentro do projeto. Guarda essa distinção, porque ela sustenta o texto inteiro. Mas antes de chegar na filosofia, deixa eu contar a parte econômica, porque sem entender o dinheiro você não entende o resto.

A bolha que financiou tudo isso

De mais ou menos 2012 até 2022, a indústria de tech viveu a maior bolha de contratação da história. Juros a zero, capital infinito, e as big techs crescendo como se não houvesse amanhã. Chegamos ao ponto surreal de empresas contratarem engenheiros sem ter trabalho para eles. Keith Rabois, da turma do PayPal, acusou Google e Meta publicamente de contratar milhares de pessoas para fazer “trabalho falso”, por vaidade, e para que não fossem trabalhar nos concorrentes. Uma ex-funcionária da Meta, demitida na primeira leva de 2022, resumiu melhor: “eles estavam estocando a gente como cartas de Pokémon”. A cultura do “rest and vest”, colecionar salário e stock options fazendo quase nada, já era documentada em 2017.

Foi essa bolha que financiou a onda de “programação é a profissão do futuro”. Bootcamps saíram de 2.178 formados em 2013 para quase 25 mil em 2020 só nos EUA e Canadá, crescimento de mais de mil por cento. O Bloomberg resolveu aprender a programar como promessa de ano novo em 2012. O Obama escreveu uma linha de código na TV em 2014.

Eu contei essa história com mais detalhes num vídeo de fevereiro de 2020, quando a bolha ainda estava inflando (transcrição aqui):

Influencer de tech virou profissão. Todo mundo ia ser programador.

Aí a bolha estourou. 2022: quase 165 mil demitidos. 2023: mais de 262 mil, segundo o Layoffs.fyi. Meta cortou 11 mil em novembro de 2022 com o Zuckerberg admitindo “I got this wrong”, e mais 10 mil no “ano da eficiência” de 2023. Amazon cortou 27 mil. Google, 12 mil, com o Pichai admitindo que “contratamos para uma realidade econômica diferente da que enfrentamos hoje”. Stripe foi a mais honesta: “we overhired”.

Eu registrei esse estouro no calor do momento, num vídeo de novembro de 2022 (transcrição aqui):

E como o timing é uma piada pronta, em 30 de novembro de 2022, bem no meio do banho de sangue, saiu o ChatGPT. Cem milhões de usuários em dois meses, o aplicativo de crescimento mais rápido já visto até então, segundo estimativa do UBS. As manchetes viraram uma palestra da ACM chamada “Large Language Models and the End of Programming”, Jensen Huang dizendo que criança nenhuma precisa mais aprender a programar, o Devin se anunciando como o primeiro engenheiro de IA, o Dario Amodei prometendo que IA escreveria 90% do código em três a seis meses. Spoiler: não escreveu.

Por que essa história importa? Porque foi exatamente durante essa década de dinheiro fácil que o open source foi colonizado. Quando sobra dinheiro e falta trabalho real, sobra tempo e gente para fazer política dentro dos projetos. E foi o que aconteceu.

A década da caça às bruxas

O artefato central dessa história é o Contributor Covenant, criado em 2014 por Coraline Ada Ehmke e adotado por milhares de projetos, incluindo praticamente todo gigante do setor: CNCF, Apple, Google, Microsoft, Linux. A própria autora, no dia em que o Linux adotou o código dela, tuitou com todas as letras: “Some people are saying that the Contributor Covenant is a political document, and they’re right”. Quando o autor do documento admite que ele é político, a discussão sobre “espaço seguro” acabou antes de começar.

A lista de vítimas dessa era é longa, então vamos aos principais.

Antes, vale registrar o alcance dessa turma. A Coraline trabalhou no GitHub entre 2016 e 2017, até ser demitida (a versão dela está no texto “Antisocial Coding: My Year at GitHub”). E o GitHub era o alvo perfeito: era onde morava praticamente todo o open source do mundo. Foi nessa era que os fundadores originais saíram de cena. Tom Preston-Werner renunciou em 2014 no escândalo de assédio da Julie Ann Horvath, mesmo com a investigação interna concluindo que não houve nada ilegal, só “erros de julgamento”. O Chris Wanstrath já tinha anunciado que sairia do cargo de CEO em 2017 e, depois da venda para a Microsoft em 2018, ainda ficou alguns anos como technical fellow até sair de vez. Hoje nenhum fundador original trabalha lá.

O legado dela sobreviveu à demissão. O Contributor Covenant virou um dos templates que o GitHub facilita adotar quando você cria o CODE_OF_CONDUCT.md de um repositório. E em 2020 veio a joia da coroa: no meio dos protestos do George Floyd, o GitHub anunciou que ia aposentar o nome master, e desde 1º de outubro de 2020 todo repositório novo nasce main.

A discussão era estúpida desde o começo. O Git nunca teve branch slave. O Petr Baudis, que batizou o nome nos scripts originais, explicou no X que master ali era de “master copy”, como a gravação master de um disco (o próprio Baudis disse depois que hoje prefere main; a etimologia continua a mesma). Nem esse detalhe segurou a mudança: até a Software Freedom Conservancy endossou publicamente a troca, e quem tinha automação assumindo master teve que correr atrás. Ninguém ficou mais protegido por causa dessa mudança, mas ela está lá, no fluxo de trabalho de todo programador, todos os dias.

Brendan Eich, 2014. O cara inventou JavaScript, cofundou a Mozilla, era CTO desde 2005. Virou CEO e durou onze dias no cargo. O crime: uma doação de mil dólares em 2008 para a Proposition 8 da Califórnia. Funcionários tuitaram pedindo a cabeça dele, o OkCupid bloqueou usuários de Firefox com uma mensagem de protesto, e ele caiu. Andrew Sullivan, gay e um dos primeiros defensores de peso do casamento entre pessoas do mesmo sexo, escreveu na época “The Hounding of a Heretic”: quando carreiras dependem de teste de pureza ideológica, a caça às bruxas já venceu. E repara: aqui não tinha código de conduta nenhum envolvido, foi pressão pura de boicote. O método já existia antes do documento; o documento só oficializou.

Larry Garfield, 2017. Doze anos de contribuição no Drupal. Quando vazaram que ele participava de uma subcultura BDSM, num site privado, fora do projeto, o comitê de conduta do Drupal investigou e concluiu: sem violação do código de conduta. O Dries Buytaert passou por cima do próprio comitê e expulsou ele assim mesmo, porque a “associação com o sistema de crenças dele” era incompatível com os objetivos do projeto. O TechCrunch resumiu do mesmo jeito: punido por algo dito fora do projeto. Oitenta e cinco desenvolvedores assinaram carta aberta ameaçando sair. Não adiantou. E repara no detalhe que enterra a tese do “espaço seguro”: o processo do código de conduta funcionou e inocentou o cara. Quando a turba apertou, o papel não segurou nada; quem decidiu foi a pessoa no topo, como sempre foi.

Node.js, 2017. O TSC de treze pessoas votou a expulsão do Rod Vagg por, entre outras coisas, ter twitado um artigo questionando os efeitos colaterais de código de conduta. Ler crítica a código de conduta quase virou violação de código de conduta: a votação foi 6 a 4 contra a expulsão, por pouco. A máquina perdeu essa rodada, mas o recado já tinha saído: quatro dos que queriam o cabeça do Vagg pediram para sair do comitê no mesmo dia, e o projeto ganhou um fork chamado Ayo.js horas depois. Perder a votação não impediu o estrago.

Linus Torvalds, 2018. Em setembro, segundo os relatos da época, a New Yorker tinha mandado perguntas sobre o comportamento abusivo dele nos emails. No mesmo fim de semana, Linus pediu desculpas e anunciou que ia tirar um tempo para “entender as emoções das pessoas” e o kernel trocou o Code of Conflict pelo Contributor Covenant. O Linus é grosseiro nos emails desde sempre, todo mundo sabe, e ele voltou um mês depois. Mas o recado foi dado: se nem o cara que criou o kernel estava a salvo, ninguém estava.

Richard Stallman, 2019. O criador da GPL, fundador da FSF, a encarnação do software livre. Vazaram um thread de lista de email do MIT em que ele discutia semântica jurídica sobre o caso Minsky/Epstein. A Vice estampou que ele tinha “defendido Epstein” e chamado as vítimas de “entirely willing”, uma leitura que o próprio thread de emails não sustenta: ele questionava a terminologia jurídica da acusação contra o Minsky. A campanha “Remove Richard Stallman” explodiu, e em dias ele renunciou do MIT e da presidência da FSF. Quando ele voltou ao conselho da FSF em 2021, saiu uma carta aberta com mais de 3 mil assinaturas e dezenas de organizações exigindo a cabeça dele e de todo o conselho. A Red Hat cortou o financiamento da FSF. A carta de apoio juntou quase 7 mil assinaturas e, detalhe delicioso, o Debian votou uma resolução sobre o caso e a opção vencedora foi não se manifestar. Até para fingir neutralidade precisou de votação.

E tem o caso mais recente e talvez o mais didático: Tim Peters, 2024. Lenda do Python, três décadas de contribuição, suspenso por três meses pelo comitê de conduta da PSF por acusações vagas de criar “atmosfera de FUD”, numa briga sobre os estatutos da fundação e sobre os métodos do próprio comitê. A comunidade reagiu feio, mas não teve volta: ele cumpriu os três meses e só voltou quando a suspensão expirou, em novembro. O padrão se manteve: discordar da moderação virou ofensa punível.

DHH, 2021. Deixei esse para o final porque é o caso que muda a história. E note: aqui nem open source era, era a empresa dele. O mesmo mecanismo, agora dentro do escritório. Em abril de 2021, no auge da era BLM, um comitê interno de DEI dentro da Basecamp, a empresa do criador do Ruby on Rails com o Jason Fried, desenterrou uma lista antiga de “nomes engraçados de clientes” que circulava na empresa. A discussão escalou até um funcionário citar a “pirâmide do ódio” e argumentar que aquela lista era o fundamento de violência racial e até genocídio. A resposta dos fundadores foi fechar o assunto, dissolver o comitê e proibir discussão política e social nos canais internos. A internet explodiu. Na reunião geral seguinte, foram duas horas e meia de gente chorando e gritando no Zoom. O Ryan Singer, dezoito anos de casa, disse ali que não aceitava o rótulo de “cultura de supremacia branca” aplicado à empresa. Foi suspenso meia hora depois da reunião e se demitiu no fim de semana. Ao final, um terço da empresa, vinte dos 57 funcionários, saiu com pacote de demissão voluntária.

E é aqui que esse caso se separa de todos os outros: ele não dobrou. Sem ritual público de humilhação, sem pedido de desculpas, sem volta atrás. Preferiu perder um terço da empresa a entregar o controle dela. A Basecamp sobreviveu, virou 37signals de novo, e o DHH aprendeu ali, na carne, com que tipo de gente estava lidando. Guarda esse nome, porque ele volta.

Alguém vai apontar que a regra dele também é um documento escrito proibindo um assunto. É, e a diferença é exatamente o ponto: a regra do DHH bane um tópico inteiro, igual pra todo mundo, não importa o lado. Código de conduta bane pessoa e opinião, seletivamente, dependendo de quem está no poder naquele mês.

Uma trava o assunto na porta. A outra abre um tribunal lá dentro.

Repara no padrão. Em nenhum desses casos o problema era código. Em nenhum deles alguém commitou bug, roubou código, sabotou release. As ofensas foram opiniões, doações políticas, vida privada, semântica em lista de email. O critério técnico foi substituído pelo critério político, e o código de conduta foi o instrumento jurídico dessa substituição. São casos famosos, não estatística. Mas quando a lista inclui os criadores do JavaScript, da GPL e do Linux, a amostra não precisa ser grande para passar o recado.

E os resultados?

Dez anos de era do código de conduta deveriam ter deixado um rastro de números bons. Se a justificativa era proteger minorias e tornar o open source mais diverso e menos tóxico, cadê a melhora? Fui procurar a pesquisa séria sobre o assunto. O que existe conta uma história interessante.

Sobre adoção: Tourani, Adams e Serebrenik mediram em 2017 que cerca de 35% dos 150 projetos mais populares do GitHub tinham código de conduta. E que enforcement era raro: os criadores desses códigos, numa amostra de quatro entrevistados, falavam em casos de um dígito ao longo de anos. Um estudo de 2021 da CSCW olhou 52 mil repositórios: 12,6% tinham CoC, e só 10% das conversas mencionando o código eram uso real dele em moderação. A maioria das adoções aconteceu sem discussão pública visível no repositório. O mesmo paper diz, com todas as letras, que não existe evidência empírica de que código de conduta atraia novos contribuidores.

Sobre atrair gente, aliás, Qiu et al. mediram o que realmente faz alguém entrar num projeto: README bom, número de estrelas, atividade recente, template de issue. Código de conduta nem entrou como variável no modelo deles, e olha que eles testaram maintainer responder rápido, que também não deu significativo. Quem mediu especificamente onde o CoC fica no ranking de fatores foi um estudo separado, o Fronchetti, Wiese, Pinto e Steinmacher, também de 2019: CoC ficou entre os fatores pior colocados pra atrair contribuidor novo. Ninguém escolhe projeto pelo código de conduta.

Sobre diversidade, que era a promessa original, tem estudo específico e a resposta é não. O Robson, no ESEC/FSE de 2018, olhou os 500 projetos mais populares do GitHub: projetos que adotaram CoC viram a participação de mulheres crescer praticamente no mesmo ritmo dos que não adotaram (por volta de 1,44% de aumento contra 1,43%, segundo o levantamento posterior que cita o estudo). Sem diferença estatística que sustente a promessa. O Enache, em dissertação de mestrado de 2017 pra TU Eindhoven, sobre 149 comunidades open source, chegou na mesma conclusão: nenhum resultado significativo de que CoC mude a participação de mulheres.

E tem uma pesquisa nova, de peso, publicada agora em 2026 no ICSE, a conferência mais importante da área: o Sun et al. rodou um experimento causal de verdade, comparando 4.684 pares de repositórios que adotaram CoC contra pares equivalentes que não adotaram. O resultado tem duas pontas. Adotar CoC atrai sim mais contribuidor novo, e esse efeito cresce com o tempo. Só que adotar CoC também aumenta o número de contribuidores antigos que se desengajam, efeito concentrado justamente nos primeiros um a três meses depois da adoção. Ou seja: o próprio estudo mais recente e mais rigoroso que existe mostra, com número, o padrão que esse texto documentou caso por caso o tempo todo. Adotar o documento não constrói comunidade nova, ele expulsa gente que já estava lá.

O levantamento do GitHub de 2017 já marcava 95% homens e 3% mulheres no open source. O melhor dado de longo prazo que existe, do Rossi e Zacchiroli no ICSE 2022, analisou 2,2 bilhões de commits do arquivo do Software Heritage. Gênero detectável para 64% dos autores e, nesse grupo, mulheres são 13,5% dos autores e assinam 8,1% dos commits. A participação delas vinha crescendo devagar e de forma contínua havia doze anos, e caiu na pandemia. O paper não fala de código de conduta, então a leitura que segue é minha, não do estudo: uma curva que sobe do mesmo jeito a década inteira, sem nenhum degrau visível quando o Contributor Covenant se espalhou, é o oposto de evidência de que o documento fez diferença.

Sobre toxicidade, o estudo da ICSE 2022 acha, em nota de rodapé e por extrapolação, algo perto de 1,3 comentários tóxicos por mil no GitHub. Ninguém tem uma série histórica comparando antes e depois da era CoC. Simplesmente não existe baseline pra dizer se piorou ou melhorou.

O único experimento randomizado que sustentaria a tese das regras é do Matias, publicado na PNAS em 2019: lembretes de regras exibidos ativamente numa amostra sorteada de threads no r/science aumentaram em 70% a participação de novatos. Só que o experimento é no Reddit, com a regra pregada bem na cara de quem entrava naquela thread específica. Um arquivo estático esquecido no repositório, que ninguém lê depois do dia da adoção, não chega nem perto disso. A própria pesquisa que mostra uma regra funcionando é a prova de que o problema nunca foi ter ou não ter o arquivo. É ninguém aplicar, ninguém mostrar, ninguém fazer valer.

Resumindo: uma década inteira de códigos de conduta, e a promessa original continua exatamente isso, uma promessa. O que ficou documentado foi adoção sem discussão, enforcement raro e, no máximo, um monte de processo político.

Como proteção, quase nunca é invocado. Como arma política, só precisa ser invocado uma vez, contra a pessoa certa.

A contra-reação veio de onde ninguém esperava

O dinheiro fácil acabou em 2022 e, com ele, a paciência da indústria para esse teatro. E a liderança da reação foi o cara que já tinha se recusado a dobrar em 2021: o DHH, ex-fanboy de Mac da velha guarda.

O DHH vem escrevendo contra essa onda faz tempo: “The waning days of DEI’s dominance” em 2022, “DEI is done” em 2024. Em 2022 a Ruby Central tirou ele do keynote da RailsConf, a conferência do framework que ele mesmo criou, dizendo que queria “dividir o palco de abertura com outros contribuidores”. No ano seguinte nasceu a Rails World, a conferência oficial da Rails Foundation, e o DHH virou keynote dela. Em 2024 lançou o Omakub e, em junho de 2025, o Omarchy: Arch Linux com Hyprland e um monte de scripts opinativos em cima, que passava de 40 mil stars no GitHub em setembro de 2026 e virou o ambiente padrão da 37signals pra quem mexe com infra e Ruby.

Aí a máquina de cancelar ligou de novo. Em setembro de 2025 ele publicou “As I remember London”, e a reação foi o script de sempre: petição para tirá-lo, acusações, tentativa de boicote. A resposta dele foi “We’ve all had enough of this nonsense”: “a cada poucos anos, o mesmo grupelho triste de descontentes do Ruby tenta me cancelar do Rails”.

Um mês depois, em outubro de 2025, foi a vez da Framework, fabricante de laptops: um thread com mais de 1.500 respostas no fórum da própria empresa, aberto por um desenvolvedor Debian chamando a comunidade do Hyprland, que a Framework patrocinava, de “tóxica e odiosa”, e ameaçando boicote porque a empresa também promovia o Omarchy nas redes. A resposta do CEO da Framework é a frase que faltava nessa década inteira:

“Criamos deliberadamente uma barraca grande, porque queremos que o open source vença. Não fazemos parceria com base nas crenças de indivíduos ou organizações.” (“big tent”, no original.)

E a máquina não bateu só nele. A Ruby Central, a mesma que tinha desconvidado o DHH do keynote em 2022, deu palco para ele na RailsConf 2025. A retaliação veio em dinheiro: segundo a apuração do desenvolvedor Joel Drapper, a Sidekiq retirou o patrocínio de 250 mil dólares por ano por causa disso. Semanas depois, em setembro de 2025, a Ruby Central removeu do GitHub todos os maintainers de longa data do RubyGems e do Bundler, alegando segurança da cadeia de suprimentos. A Ellen Dash, que mantinha o projeto havia dez anos, pediu conta chamando o movimento de “hostile takeover”, e a investigação do Drapper aponta pressão da Shopify, que tinha virado praticamente a única fonte de dinheiro da organização. A própria Ruby Central acabou publicando um relatório do incidente em abril de 2026, prometendo “fortalecer a governança”. Esse é o padrão completo: quando a máquina não derruba o alvo, incendeia a casa em volta dele.

Um desenvolvedor do GNOME publicou um texto atacando o Omarchy no blog oficial de blogs do GNOME. E o resultado de toda essa fúria? Nada. Em agosto de 2026 nasceu a Omacom Foundation, com oito milhões de dólares no lançamento: um milhão de cada um de Tobi Lütke (Shopify), Patrick Collison (Stripe), Michael Dell, Jack Dorsey, Matthew Prince (Cloudflare), Brendan Iribe, Jason Fried e o próprio DHH. A fundação virou patrocinadora exclusiva do Hyprland, com o Vaxry trabalhando em tempo integral. Quando a 1Password entrou como patrocinadora, a tentativa de cancelamento foi imediata e a resposta interna do CEO também: “nossa doação não é endosso de opiniões pessoais”. E segue o jogo.

E eu botei o meu dinheiro onde está a minha boca: fiz a minha doação para a fundação exatamente por causa do chororo da patrulha. Nada irrita mais essa turma do que ver o cancelamento falhar em tempo real.

Recibo da minha doação de 2.048 dólares para a Omacom Foundation, assinado pelo DHH como Founder & President

Esse é o ponto: a máquina ainda existe, mas perdeu o poder. Em 2014 derrubou um CEO em onze dias. Em 2026 não consegue arranhar um patrocínio de distro de nicho. Os documentos continuam lá, no template do GitHub; o que acabou foi o poder de fogo de quem os empunhava. O que mudou foi o dinheiro, e sim, a contra-reação também é dinheiro: oito milhões de dólares de oito homens ricos.

E antes que alguém aponte que dinheiro não prova mérito: depende. Milionário criado por conchavo de governo, fraude ou favor não tem mérito nenhum. Mas a maioria dos milionários se fez produzindo, e é o caso dos oito patronos da Omacom. Dinheiro ganho produzindo é a medida do mérito de quem o fez, como eu já escrevi aqui em 2011, sobre o discurso do dinheiro do Francisco D’Anconia em “A Revolta de Atlas”.

Julgue pelo resultado que a doação comprou, não pela intenção declarada de quem assina o cheque.

Os 49,5 bilhões de dólares corporativos de 2020 não produziram um grama a mais de diversidade mensurável, os números aí em cima provam isso. Oito milhões de dólares de patrono individual produziram um maintainer em tempo integral escrevendo código de verdade. A bolha que financiava exércitos de gente sem trabalho real estourou, e quem sobrou foi quem estava lá pelo código.

A parte filosófica

Vamos à desculpa oficial: códigos de conduta existem para “proteger minorias”. Na superfície, quem seria contra proteger minorias? Eu não sou. O problema é que a frase é vaga por design.

O que é uma minoria? Eu já traduzi aqui no blog o capítulo “Direitos do Homem” de “The Virtue of Selfishness”, da Ayn Rand. A frase que me interessa aqui está em outro capítulo do mesmo livro, “Racism”, e continua imbatível:

A menor minoria da Terra é o indivíduo. Quem nega direitos individuais não pode dizer que defende minorias.

E é exatamente isso que esses códigos fazem na prática: em nome de uma minoria abstrata e coletiva, persegue-se o indivíduo concreto. Doxxing (expor os dados pessoais da pessoa), campanha de assédio, pressão no empregador, banimento. Quando o modus operandi para “proteger minorias” é bullying coordenado contra uma pessoa até ela dobrar os joelhos, você está oprimindo a menor minoria que existe.

Esse assunto, aliás, é velho para mim. Em dezembro de 2018 eu publiquei no meu canal o vídeo “Manifesto Anti-Parasita: Seja um Criador”. Na época eu não podia ser explícito, a polícia do pensamento ainda estava forte demais. Mas quem assistiu com atenção entendeu o recado. Era o meu breadcrumb para essa história que eu só estou podendo contar direito agora.

E tem o segundo problema, mais fundamental: open source é sobre software. A GPL, que essa turma tanto despreza, resolve a proteção que um projeto de software não pode perder: a do código. Garante que o código continue livre, ponto. Ela não pergunta quem escreveu, em quem votou, o que tuitou, o que doou. O compilador não checa pureza ideológica. O open source sempre foi a comunidade mais inclusiva que já existiu justamente por isso: o único passaporte era o diff. O código de conduta tornou o open source menos inclusivo, porque adicionou um critério novo à entrada: política. E política é um critério estúpido para software.

“Ah, mas sem código de conduta, como lidamos com assédio real?” Com a mesma ferramenta de sempre: bom senso de maintainer e, quando necessário, a lei. Se alguém ataca outra pessoa diretamente, uma agressão sexual num evento, por exemplo, banir é senso comum e nunca precisou de documento nenhum. Assédio, ameaça e difamação já são crimes em praticamente todo país, e crime se resolve no caminho da lei. O que eu não engulo é outra coisa: sair stalkeando a vida online de alguém para desenterrar uma opinião aleatória, sem relação com crime nenhum, e exigir banimento por causa de palavras sem consequência criminal. Esses comitês sempre foram ótimos em punir opinião e péssimos em punir crime, então o documento nunca foi sobre isso.

E não sou eu sozinho dizendo isso. Eric S. Raymond, o cara que escreveu “The Cathedral and the Bazaar”, o texto de 1997 que validou pra Netscape a decisão de abrir o código do Mozilla e que praticamente escreveu as regras do jogo do open source, cofundador da OSI, editor do Jargon File, autor do fetchmail, foi ao X em setembro de 2025 declarar a era dos códigos de conduta um fracasso completo. Nas palavras dele: dez anos de “drama e idiotice”, uma “insanidade social infecciosa” que produz política, intriga e trabalho útil negativo. A recomendação é a mais direta possível: não adote; se já adotou, delete. E se alguma burocracia te obrigar a ter um, a substituição sugerida tem uma frase só:

“Se você é mais chato de trabalhar do que as suas contribuições justificam, você é ejetado.”

É o que eu disse dois parágrafos acima: bom senso de maintainer.

E o detalhe que fecha o círculo: o próprio ESR tinha sido removido de duas listas de email da OSI em 2020 por posts que “violaram o código de conduta” da organização que ele ajudou a fundar.

O cara que escreveu as regras do jogo, ejetado pelo documento. Essa imagem resume a era inteira.

Como chegamos até aqui

Vale dar um passo atrás e contar de onde veio tudo isso, porque o open source foi só um dos fronts. O tiro de largada, na minha leitura, foi o GamerGate, em 2014. Em agosto daquele ano saiu o “Zoe Post”, o desabafo do ex-namorado da desenvolvedora Zoe Quinn. Doze dias depois, e cerca de 48 horas depois de a hashtag #GamerGate pegar força, cerca de uma dúzia de sites de games publicou variações do mesmo artigo: “gamers are over”, os jogadores estão mortos, acabou.

Pouco depois vazou o GameJournoPros, um grupo fechado onde jornalistas de games coordenavam cobertura. O público percebeu na hora que a imprensa de games tinha virado clube ideológico, e reagiu com a própria versão do boicote organizado: a campanha “Operation Disrespectful Nod” inundou a Intel de reclamação até a empresa tirar os anúncios da Gamasutra (a imprensa da época chamou de “campanha anti-feminista”; pra mim é só pressão organizada de consumidor, o mesmo instrumento que a Sidekiq usou contra a Ruby Central lá na frente).

E aqui vale fixar o princípio, porque ele vale pros dois lados o resto do texto inteiro: pressão organizada de consumidor é jogo limpo, não importa de que lado vem. O problema nunca foi pressão. É doxxing, ameaça de emprego e comitê fingindo neutralidade pra impor o resultado que já queria antes de abrir o processo.

Durante anos, de 2021 a junho de 2025, o artigo da Wikipedia sobre o assunto viveu batizado “Gamergate (harassment campaign)”, tratando qualquer crítica ao jornalismo como pretexto de assédio. O título foi trocado de volta pra simplesmente “Gamergate” depois que a fase mais histérica passou, o que devia ser lido como uma confissão, não como se o caso estivesse encerrado: renomearam de volta quando ficou caro demais defender o rótulo político, exatamente o mesmo padrão de recuo silencioso que aparece em toda essa história. Enquanto durou, durou justamente na década em que essa turba tinha poder de fogo pra fazer valer.

A briga editorial foi tão feia que o comitê de arbitragem da Wikipedia puniu mais de uma dúzia de editores, dos dois lados. E olha que eu nem preciso acusar a Wikipedia sozinho: o Larry Sanger, cofundador da Wikipedia, escreveu em 2020 o texto “Wikipedia Is Badly Biased” declarando que a neutralidade do projeto morreu, e em setembro de 2025 publicou as “Nine Theses on Wikipedia”, pedindo reformas como o fim das listas negras de fontes e o fim do bloqueio eterno de editores. Quando o fundador diz que a casa foi tomada, acredite no fundador.

Eu e o Larry Sanger, cofundador da Wikipedia, num evento em outubro de 2018. Uma honra ter podido conhecê-lo pessoalmente.

A versão do lado dos gamers dessa história está no livro “SJWs Always Lie”, do Vox Day, de 2015. Já sei o que vem: “Vox Day” e “Milo Yiannopoulos” (espero ter escrito certo) são nomes que fazem gente gritar só de ouvir, e o GameJournoPros, aliás, também foi destrinchado originalmente por esse Milo. Não me interessa a reputação de quem conta a história, me interessa se a história é verdadeira. Fonte partidária de dentro da briga, aviso dado, mas o fato central bate com o que a própria Wikipedia e a imprensa da época documentam sem ligação nenhuma com esses dois nomes: a lista GameJournoPros existiu de verdade, um grupo fechado de umas 150 pessoas do jornalismo de games trocando ideia sobre como cobrir o caso.

O capítulo “Counterattack” conta o GamerGate de dentro, e a tese do livro resume a década: essa gente sempre mente, sempre dobra a aposta, sempre projeta nos outros exatamente o que ela mesma faz.

Do GamerGate em diante, foi dominó. A Anita Sarkeesian transformou o Kickstarter dela de meta de 6 mil dólares em 158 mil, virou autoridade global, foi falar na ONU em 2015 sobre “violência cibernética”, e o jornalismo de games nunca mais se recuperou. O Feminist Frequency dela fechou as portas em 2023, mas a lógica que ela inaugurou migrou para dentro dos estúdios: nasceu a indústria da consultoria de “narrativa inclusiva”, com a Sweet Baby Inc na dianteira.

A CEO da Sweet Baby, Kim Belair, foi gravada numa palestra da GDC de 2019, gravação pública que circula fora do site que primeiro a levantou, aconselhando quem quer aprovação interna pra consultoria de “representação” a “ir tomar um café com o time de marketing e aterrorizar eles” com a possibilidade do que aconteceria se não desse a eles o que queriam. Em 2024, um brasileiro criou no Steam uma página de curadoria (o recurso da própria Valve onde qualquer conta pode publicar recomendações de jogos e ganhar seguidores) batizada de “Sweet Baby Inc Detected”. Um funcionário da empresa tentou individualmente derrubar o perfil por conta própria, e a Valve também agiu por moderação própria; mesmo assim, o resultado foi o grupo explodindo para mais de 350 mil seguidores.

E vieram os flops. O Suicide Squad: Kill the Justice League, com consultoria confirmada da Sweet Baby, custou 200 milhões de dólares de prejuízo à Warner. O Unknown 9, do estúdio onde a dupla fundadora da Sweet Baby trabalhava, demitiu em massa um mês depois do lançamento.

Aí veio 2020. Com o BLM, a mesma cartilha virou política de Estado: as 50 maiores empresas americanas prometeram 49,5 bilhões de dólares em ações de “justiça racial”, vagas de DEI cresceram 123% em meses, Biden assinou no primeiro dia de mandato a ordem executiva de “equidade” para todo o governo federal, e a União Europeia saiu com seu plano anti-racismo 2020-2025. Era o auge: a patrulha tinha chegado à presidência dos EUA e à liderança da UE.

O recuo veio tão rápido quanto a subida. A Suprema Corte americana derrubou o affirmative action em junho de 2023, as empresas demitiram milhares de profissionais de DEI, Walmart, Meta, McDonald’s e Amazon abandonaram os programas, e em janeiro de 2025 o Trump revogou as ordens de equidade no primeiro dia.

Contei tudo isso só para situar: o que aconteceu no open source não foi um fenômeno isolado. Foi o mesmo roteiro, com os mesmos métodos, em todas as indústrias de cultura e tecnologia ao mesmo tempo. A diferença é que no open source a resistência demorou mais para organizar. Mas organizou.

O meu Cortlandt

Foi essa pressão que me tirou da organização da RubyConf Brasil. Eu fundei o evento em 2008, ainda como Rails Summit, e na última edição que eu organizei, em 2016, levamos 1.500 pessoas. Quando anunciei a minha saída, escrevi que não tinha drama nenhum envolvido. Não era a verdade inteira: a patrulha já tinha chegado nas conferências de tecnologia, e eu me recusei a transformar o evento que eu criei em mais um palco dela.

Vou dar um exemplo pequeno do que significa ser obrigado a forçar diversidade. Como os dados que eu mostrei acima indicam, mulheres são de 3% a pouco mais de 13% dos contribuidores de open source, dependendo de como se mede: survey autodeclarado ou detecção por nome nos commits. Os analytics do meu canal mostram a mesma faixa, 3 a 5% no máximo, e essa proporção não mudou em dez anos. Todo ano eu abria um Call for Papers público: qualquer pessoa podia submeter uma palestra. E o meu processo de seleção sempre foi cego: eu lia cada submissão sem saber quem tinha enviado, de propósito, para a escolha ser pelo mérito do tema e nunca pela pessoa.

Analytics do meu canal no YouTube, últimos 28 dias: 97% homens, 3% mulheres

Nos anos da patrulha, a cobrança nunca foi direta comigo. Era aquela pressão externa e difusa de que todo evento tinha que ser “mais diverso”. E na prática isso só podia significar uma coisa: uma fase nova no processo. Depois da seleção cega, revelar quem tinha submetido o quê, para conferir se o lineup estava “diverso o suficiente”. Só que isso é uma impossibilidade matemática. As submissões seguiam os mesmos 3 a 5%. Mesmo aprovando todas as mulheres que submetiam, a cota imaginária não fechava. O jeito era sair convidando pessoas diretamente, escolhendo pelo perfil, e não pelo tema.

E o resultado prático desse esquema, onde quer que ele seja aplicado, é cortar gente que entrou por mérito para abrir vaga para gente escolhida por uma política externa irrelevante. Isso derruba a qualidade do evento em vez de subir. E repara: isso não é um argumento contra mulher nenhuma. É o contrário. No momento em que a cota entra no processo, a dúvida deixa de ser sobre uma palestrante específica e passa a pairar sobre todo mundo que pisa no palco. Não importa quem esteja falando: se alguém na plateia discordar do conteúdo, sempre vai sobrar a pergunta “será que o Akita escolheu esse por cota?”. A partir daí, todo palestrante carrega uma suspeita que não merece e o mérito de cada um fica desvalorizado por tabela. Prejudica a minoria que a política dizia proteger, prejudica os outros palestrantes, prejudica o público. É lose-lose em todas as pontas.

E tem uma parte dessa história que ninguém vê de fora. Algumas das pessoas convidadas desse jeito recusaram na hora, “porque o evento não era diverso o suficiente”. A recusa deixava o evento menos diverso ainda, óbvio. E depois iam para as redes sociais falar mal do evento, como se eu nunca tivesse convidado ninguém. Esse era o nível do lixo que eu tinha que engolir todo ano.

E que fique bem claro: não existe nada que eu queira mais do que ver mais mulheres na tecnologia. O que eu não consigo me convencer é de que forçar cota, do jeito que eu descrevi acima, ajuda nisso. Tudo que eu vi na prática aponta o contrário: prejudica mais do que ajuda. E se eu não acredito que é benéfico, eu prefiro não fazer.

Quer um exemplo recente de mulher que eu admiro na indústria? Asha Sharma, que assumiu como CEO do Xbox em fevereiro. Desde então é resultado atrás de resultado: cortou o Copilot dos consoles e reestruturou a divisão para focar no que importa, vendeu estúdios e cortou custo sem cancelar nenhum jogo anunciado, e essa semana trouxeram a Kojima Productions para o Xbox publicar o próximo jogo do Hideo Kojima, depois da PlayStation cancelar o projeto em meados de 2026. Repara no discurso em volta dela: zero menção a “gênero”, zero pauta.

Só número: cortar custo desnecessário, apostar nas bets certas, melhorar o valor para o cliente. Isso é mérito. Não precisa de DEI para isso.

Até que eu decidi que chega. Quem leu “The Fountainhead” sabe o que eu fiz: como o Howard Roark, o arquiteto que explode o próprio prédio quando adulteram o projeto dele, eu dinamitei o meu Cortlandt. Mais precisamente: o evento como ele existia enquanto era meu. A marca sobreviveu alguns anos na mão de outros, sem a mesma alma, até desaparecer. E eu já tinha sinalizado essa filosofia aqui no blog ainda em 2011. Um indivíduo não faz nada pelos outros: faz por si mesmo. Se o que você constrói beneficia outras pessoas como efeito colateral, melhor, mas esse nunca foi o motivo. Quando os parasitas querem tomar o que você construiu, você mesmo explode tudo. Porque pode. Quem construiu uma vez, constrói de novo do zero.

Foi o que eu fiz. Troquei a conferência pelo meu canal do YouTube, que não dependia de patrocinador, de comitê, de ninguém além de mim. E o canal cresceu muito além do que a conferência jamais seria. Depois eu sentei e esperei a bolha estourar, porque eu sabia que ela ia estourar: escrevi isso aqui no blog e repeti nos vídeos anos antes de acontecer. Estourou. Paciência sempre vence.

Conclusão

Dez anos de código de conduta e o placar é esse: zero evidência de que aumentou diversidade, nem baseline de toxicidade pra comparar antes e depois, e o estudo causal mais recente e mais rigoroso que existe mostra o documento afastando contribuidor antigo mais do que constrói comunidade nova. A promessa era proteger minorias. A entrega foi uma coleção de cabeças: o criador do JavaScript, o criador da GPL, o criador do Linux, todos passando pelo ritual público de humilhação. Nenhum por causa de código. Todos por causa de opinião.

E repara como essa era terminou.

A máquina não perdeu o debate, perdeu o financiamento.

Foi só o dinheiro fácil acabar que os exércitos de gente sem trabalho real evaporaram, e quem sobrou foi quem estava lá pelo código. Enquanto isso, os builders seguiram construindo: o Brendan Eich foi expulso da Mozilla em 2014 e no ano seguinte fundou a Brave, hoje com mais de 100 milhões de usuários ativos por mês e valuation perto de 1 bilhão de dólares. O DHH perdeu o keynote e criou uma conferência maior, perdeu um terço da empresa e ajudou a levantar uma fundação de oito milhões. Eu saí da minha conferência e cresci muito mais no canal. Instituição, parasita toma. Capacidade de construir, não. Quem construiu uma vez, constrói de novo do zero.

Open source recruta voluntários que querem contribuir código. Qualquer discussão que não envolve código é distração na melhor hipótese e sabotagem na pior. E a resposta para “o que colocar no lugar do código de conduta” cabe numa frase só, que o ESR já escreveu: se você é mais chato de trabalhar do que as suas contribuições justificam, você é ejetado. Sempre foi assim que funcionou. O único passaporte é o diff.

O resto é politicagem. E politicagem, para usar o termo técnico preciso, é bullshit.

E fica a recomendação prática final. Se o seu projeto open source tem um CODE_OF_CONDUCT.md, delete o arquivo. Se o seu branch principal virou main na onda de 2020, renomeie de volta para master. Em parte de birra, admito. Mas principalmente para exercitar a liberdade recém-recuperada de fazer isso sem ser cancelado por causa disso. Liberdade que não se exercita atrofia. Sem nota de esclarecimento, sem votação de comitê, sem pedir licença para ninguém. Só porque agora você pode de novo.