[Akitando] #104 - RANT: Empreendendo com Software do JEITO ERRADO!

2021 September 28, 11:20 h

DESCRIÇÃO

Depois de 2+ décadas atendendo centenas de projetos, quero resumir alguns dos casos toscos que eu já vi no caso de pequenos empreendedores amadores não-técnicos e muitas das coisas que eles pensam errado e fazem errado com projetos de software.

Assista pra não cometer os mesmos erros!

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Conteúdo:

SCRIPT

Olá pessoal, Fabio Akita

Andei um pouco sumido nas últimas semanas porque a última série me cansou um pouco, acho que exagerei e detalhei demais um tema só e isso me deixou bem entediado. Então vou retornar um pouco mais light antes de pegar mais temas técnicos. Hoje quero mudar de marcha e falar um pouco sobre projetos.

Por décadas eu trabalhei em projetos de software e até hoje vejo que muita gente ainda pensa errado, especialmente os amadores, mas até gente que diz ter experiência comete alguns desses erros. Estando do lado da empresa que realiza os projetos, quero explicar que tipo de coisas que aparecem na minha porta e que eu quero chutar a mesa quando escuto. Obviamente não dá pra cobrir tudo, mas vou dar alguns exemplos pra que vocês não cometam os mesmos erros no futuro.

Uma coisa que você vai ouvir sempre é "depende". Quanto custa? Depende. Quanto tempo leva? Depende. O que eu vou precisar fazer? Depende. E depende porque como já disse no video sobre The Mythical Man-Month, não existe Bala de Prata. Não existem soluções one-size-fits-all, ou seja um tamanho que cabe em qualquer problema. Todo projeto é sempre caso a caso. Hoje quero focar mais no pequeno empreendedor, microempresa, a startup de primeira viagem, o fundador individual não-técnico que nunca participou de projetos de software antes.

(...)

Como disclaimer vale dizer eu não estou generalizando dizendo que todo mundo que empreende, começa um projeto do zero faz tudo errado como vou falar agora. Já consigo ver gente nos comentários falando “ah, mas eu não sou assim” ou “ah, mas eu conheço gente que não é assim” e bla bla bla. Foda-se. Óbvio que existem exceções, senão não existiriam casos de sucesso. Mas é um fato que ao longo de quase 30 anos, tendo passado por literalmente centenas de projetos, estatisticamente a grande maioria se encaixa muito no que vou explicar hoje. Se a carapuça servir, não culpem o mensageiro, só isso.

Parte do que vou falar hoje já falei no video dos mitos de startups, mas vou repetir pra reforçar. E a primeira coisa que todo empreendedor de primeira viagem acha, é que teve alguma idéia inédita que vai revolucionar alguma área ou até o mundo - se for mais um megalomaníaco iludido. Deixa eu colocar da maneira mais suave possível: sua idéia não é original e muito menos revolucionária. Entenda: é muito, mas muito raro alguém surgir com uma idéia verdadeiramente inédita e revolucionária. Não importa o que sua mãe diga pra você, sua idéia é medíocre, na melhor das hipóteses.

Se você gosta de alguma área e gastou 10 anos fazendo pesquisa, estudando, criando protótipos, testando de verdade no mercado, voltando pra mesa de projetos e redesenhando, melhorando e investindo e depois desses 10 anos, talvez, talvez, você tenha conseguido chegar numa ideia razoavelmente original. Isso é possível. A pergunta é: você gastou esse tempo e esforço?

A coisa mais tosca que me deixa pasmo toda vez que eu ouço é um recém formado, faz de conta, de medicina, chegando pra mim e falando "Akita, vou revolucionar o mercado de hospitais". A primeira pergunta que eu tenho que fazer é "filho, quantos anos e em quantos hospitais você já trabalhou?" E a resposta sempre é: nenhum, ou muito pouco tempo. E como você acha que vai revolucionar um mercado onde você sequer trabalhou ainda? Simples: não vai. Esquece. “Ah, mas teve o caso daquele outro cara que chegou e revolucionou do nada ... “ - cara, um caso, você tá se baseando na exceção da exceção?

Pra compensar isso, o caso seguinte é quando o tal empreendedor conheceu alguém que já trabalhou os tais 10 anos ou mais na tal área e eles acham que juntos vão mudar o mercado. Ok, justo, é um pouco melhor. Não muito, mas já vi dar certo algumas vezes. Poucas vezes. O problema é que agora querem criar um software pra implementar essa ideia. Quantos anos eles tem de experiência trabalhando em projetos de software? Zero. Chances de dar certo? Perto de zero também.

Eu não consigo entender fundadores não técnicos querendo criar uma empresa de software sem ter outro co-fundador que tenha anos de experiência nessa área. É quem ocuparia o cargo de CTO ou Vice presidente de engenharia ou diretor de tecnologia ou qualquer coisa assim. Alguém que já participou diretamente na codificação de diversos sistemas, de diversos tamanhos, e já esbarrou em todo tipo de problemas, tá calejado.

Entenda, se você quer ser uma tech startup significa que o Core Business, o negócio central, dessa empresa é tecnologia. Alguém de cargo de confiança precisa ser responsável por isso. Isso não é opcional. Não se terceiriza o core business inteiro da sua empresa. E eu digo isso sendo um terceirizador. Eu não quero a responsabilidade de decidir por você, porque eu não sou e nem vou ser seu sócio. Nenhum terceirizado jamais vai ter o mesmo nível de preocupação porque a gente não é stakeholder. Entenda esse conceito: não importa o quanto o vendedor te prometeu que vai ser o melhor relacionamento do mundo. Palavras são só palavras.

Também cansei de ver empreendedores não-técnicos falando que começaram a fazer algum curso online de programação, achando que isso vai fazer alguma diferença. Sério? Você acha que pra fazer sistemas eficientes, robustos, seguros, de fácil manutenção é só gastar algumas míseras semanas assistindo video no YouTube? Não perca seu tempo, não é sua praia, não vai fazer absolutamente nenhuma diferença. Foque nas suas responsabilidades. Ou você já é um engenheiro de carreira com anos de experiência nas costas ou você tem um sócio nesse perfil que confia totalmente. Não inventa moda.

Cansei de ver gente que contratou freelancer pra cuidar de tudo. A senha da Amazon fica com esse freelancer, a conta da organização do GitHub fica com esse freelancer, todos os acessos e permissões mais importantes, que podem desligar sua empresa, estão na mão de alguém que sequer é um funcionário da sua própria empresa. É que nem você ter 1 milhão de reais na sua conta de banco e nem você tem a senha dessa conta, está na mão de um estranho qualquer. Você faria isso?

O que acontece se no final o cara que parecia gente boa se mostra de má índole? Em bom português, você se ferrou. Você foi juvenil, agora vem as consequências. O mínimo do mínimo é que você como dono da empresa ou co-fundador técnico tenha os meios de desligar alguém da empresa e ele não ter acesso às coisas que mantém seu negócio de pé. Se não sabe como fazer isso, nem comece. Nunca dê as chaves da sua casa pra um estranho.

Isso é especialmente mais importante agora que existe a LGPD que é a Lei Geral de Proteção aos Dados. Se um terceiro faz bobagem com seu banco de dados e compromete dados pessoais dos seus usuários é sua empresa e você que são responsáveis. Se você precisa compartilhar parte desses dados com um terceiro, tem que ler a lei pra saber em quais condições e o que é necessário fazer pra não ficar juridicamente exposto. Não adianta dizer "ah, eu não sabia". Ignorância das leis não te torna inocente.

Muitos projetos que as pessoas vem pedir são coisas que já existem. Um ecommerce, uma plataforma de ensino, um meio de pagamento ou algo assim. Vamos entender: seu negócio principal é produzir algum produto pra vender? Então seu core business, pelo menos no começo, não é tecnologia, é manufatura e vendas. Não tente construir seu próprio ecommerce, não é sua praia. Faça uma pesquisa, hoje em dia temos dezenas de plataformas pré-prontas que vão fazer praticamente tudo que você precisa de forma melhor do que se você tentar fazer do zero.

Não reinvente a roda, se precisa vender, abra uma conta num Shopify da vida. Lá na frente, quando seus processos de manufatura estiverem azeitados, quando já tiver bom volume de vendas e, principalmente, boa margem de lucros, daí sim, talvez você queira mais controle da tecnologia e vai ter dinheiro pra pesquisar e investir. E acredite, não vai ser barato, então não coloque o carro na frente dos bois.

Digamos que você chegou nesse ponto, ou talvez conseguiu ludibriar algum investidor disposto a colocar dinheiro no seu negócio. De novo, se você não tem um co-fundador técnico com muita experiência - e ênfase aqui em muita experiência, porque um co-fundador técnico recém formado não vai te ajudar em muita coisa. Daí você comete o próximo erro clássico: começa a desenhar como acha que seu sistema perfeito deveria ser.

Normalmente contrata algum designer, sei lá porque, pra sair desenhando telas de mockup. Acho impressionante quando vejo esses trabalhos porque vira um calhamaço de telas e a primeira tonelada de papel é sempre telas de formulários pra se registrar, login, esqueci minha senha e outras bobagens assim. Sério? Todo mundo sabe como um formulário de registro funciona, não precisa detalhar isso.

Mas coisas que deveriam ter sido especificadas e até feito mockup incluem as funcionalidades chatas que ninguém gosta de fazer justamente porque nem sabem que existem e como deveriam funcionar: as partes administrativas, relatórios, integração com backoffice e todos os controles que precisa pro sistema realmente funcionar. Pergunta se alguém que faz mockups lembra de desenhar essas coisas? Raramente! Dão mais atenção pra uma tela de login do que um admin.

Entenda: você, marinheiro de primeira viagem, sempre vai conseguir desenhar o que “acha” que precisa e não o que “realmente” precisa. No papel pode tudo mas sua imaginação não vai conseguir visualizar coisas que você nunca viu, as coisas por trás das telas bonitas. Se for um ecommerce, no final vira um copy e paste das telas de uma Magazine Luiza ou Mercado Livre. Mas se você nunca trabalhou numa plataforma dessas, não tem idéia de como eles funcionam por trás. O tanto de sistema que existe que um usuário jamais vai ver. Logística é um grande exemplo. Você realmente acha que com seus trocados e nenhuma experiência vai fazer uma fração disso? Não vai, então pára de chegar pedindo "ahh, dá pra fazer essa funcionalidade igual do MercadoLivre?" - claro que dá, se você pagar a mesma coisa que eles investiram, a gente pode tentar fazer.

Acho interessante que a primeira concepção que alguém sem experiência chega sempre é achar que é possível desenhar tudo em papel e de uma só vez chegar num software que funciona, custando "barato" ainda. Não é assim que software funciona. Design emerge do software e não o contrário. Software nunca tá pronto na versão 1.0. É sempre um trabalho em andamento. Se você acha que terminou a última linha de código e nunca mais vai mexer, provavelmente é um software que ninguém usa.

E na sequência dessa concepção errada, vem outra concepção errada. A próxima pergunta é "olha só, fiz aqui o desenho, me dá um prazo e quanto vai custar." Podemos ficar dias aqui discutindo porque esse pedido não faz sentido. Construir um negócio baseado em software não é que nem construir uma casa, que quando o último tijolo for colocado, acabou. Nunca vai ter o último tijolo.

A primeira coisa que vou dizer é: a maior parte do que tá desenhado aqui você não vai precisar. Pode jogar tudo fora, perda de tempo. A segunda coisa é: esquece, posso dar uma ordem de grandeza de quanto vai custar pra chegar numa versão minimamente funcional. Mas o software nunca vai terminar. No mínimo, no mínimo, você sempre vai precisar fazer atualizações de segurança, nos frameworks, bibliotecas e outros componentes da infraestrutura. Senão em pouquíssimo tempo seu sistema vai ser atacado e invadido embaixo do seu nariz. Não pode largar código rodando sem ninguém mais vendo.

Entenda, você só vai entender o que realmente precisa implementar quando uma versão mínima for pro ar, pessoas reais realmente começarem a usar, e daí as reais necessidades vão começar a emergir e elas vão quase sempre ser diferentes do que você imaginou. É a natureza de se lidar com tecnologia. Só quando é um software muito pequeno, pra poucos usuários, e que é um copy e paste de outro software que já existe. Por exemplo, você só quer colocar no ar mais um Wordpress da vida e mudar o logotipo na primeira página. Ok, isso pode ser simples, barato e vai pro ar logo. Muito mais que isso é incerto.

Num exemplo tosco só pra ilustrar aqui. Um pequeno ecommerce, você pode facilmente baixar um Magento da vida que é um ecommerce de código aberto, pagar alguém pra instalar num servidorzinho qualquer e tá pronto. Dificilmente vai ser simples assim, mas enfim. Um freelancer amador vai instalar tudo num VPS, tipo numa DigitalOcean ou Linode da vida, servidor web, banco de dados, tudo numa máquina virtual só. Vai suportar algumas dezenas de usuários e se você só precisa disso, ok, tá pronto. Por algum tempo vai funcionar.

Mas normalmente não é só isso. Provavelmente você quer integrar com meios de pagamento, por exemplo. Alguns já tem plugins pré-prontos pra um Magento da vida, outros não. Implementar pode ser fácil ou difícil. Se sua empresa tem algum mínimo de organização, certamente tem um ou mais sistemas de backoffice, um ERP, que administra aspectos da sua empresa como manufatura, estoque, contabilidade, RH, CRM e mais. Você provavelmente quer integrar com ele, pra poder gerar nota fiscal, controlar faturamento, contas a pagar e a receber, disponibilidade de produtos.

Isso é mais difícil ter plugins prontos, alguém vai precisar integrar, e se for um amador como é a maioria dos casos, vai fazer uma zona. Certeza. Em breve você vai ter problemas de performance. O banco de dados rapidamente vai se tornar um gargalo. Então você instala mais plugins como de cache pra tentar ajudar. Não tava previsto, porque quem nunca fez projetos grandes, não vai saber que precisa disso. Lá se vão mais dias de bateção de cabeça.

Por acaso você tem sorte, e seu marketing foi competente pra trazer muitos usuários. De repente nenhuma venda acontece. Começa a vir um monte de tickets de suporte porque ninguém consegue comprar nada. Lembra aquela integração com seu ERP? Pois é, foi feita de tal maneira que se ela não responder a tempo, seu checkout falha. Clássico. Nenhum ERP foi feito pra aguentar escala de web e se você programa um passo pra ser sequencial e dependente do outro, dançou. Todo amador cai nisso.

Agora tem que rearquitetar pra resposta do ERP ser assíncrona do checkout e só bloquear a próxima etapa, que é a entrega, por exemplo. Tornar um código síncrono em assíncrono significa ter que colocar uma fila, e se tiver uma fila é mais um componente que precisa ser monitorado e gerenciado porque se cair e perder o que tava lá, muitas vendas vão ficar bloqueadas ou corrompidas de novo. Uma solução sempre vai criando novos problemas. Não existe uma solução definitiva que resolve todos os problemas e você nunca mais vai precisar olhar.

Esse cenário é bem mais comum do que parece. Já vi acontecer várias vezes. Mas o oposto é igualmente ruim, que é quando alguém que já passou por essas coisas uma ou duas vezes, agora quer tentar prever tudo que pode dar errado e implementar de uma vez no projeto que tá fase super inicial, onde o negócio não foi provado, não tem um usuário pagante ainda. Agora o sistema fica tão complexo de fazer, demora tanto tempo, e por consequência custa tão caro, que o negócio não aguenta esperar tanto e fecha as portas. Nem tanto oito, nem tanto oitenta. E é aí que experiência faz diferença.

Em vez de planejar um projeto que vai levar 2 anos pra ficar pronto o melhor é planejar uma versão mínima, que dá fazer em 2 ou 3 meses pra testar a ideia e o mercado. Se tudo der errado, você perdeu 3 meses em vez de 2 anos. Toda vez que acha que pode economizar 100% já prevendo e fazendo tudo de uma vez, é quando você vai se dar mau, garantidamente. Porque você está partindo da premissa errada que dá pra prever tudo e que você vai aguentar esperar implementar tudo. Melhor arriscar pouco e perder pouco. Não existe risco zero, existe gerenciar riscos. E colocar todos os ovos num lugar só é o oposto disso.

Por isso não venha com mentalidade de "ah, depois de 1 ano, meu sistema vai estar pronto e nunca mais vou precisar me preocupar". Você sempre vai precisar se preocupar. Dar manutenção, atualização. Melhorar seu sistema com o feedback dos seus usuários tem que virar parte da rotina da sua empresa e você deve se preparar pra isso. Precisa de sistema de suporte, precisa de equipe treinada pra atender as pessoas. O mercado é super competitivo, quem fica parado e não ouve seus usuários, sempre vai ficando pra trás.

Outro erro super comum. Mesmo caso, o cara me chega com um calhamaço de especificações e pede "pra fazer meu sistema perfeito, preciso da equipe perfeita, me vê aí uns 5 ou 6 desenvolvedores sênior, pra viagem". Povo pensa que é pastelaria. Nenhum projeto precisa ter só seniors, além de ser um desperdício, você vai desmotivar pelo menos metade deles, que em pouco tempo vão vazar. Isso porque todo projeto tem tarefas desafiadoras e tem muitas tarefas mundanas. Ficar trocando textos, substituir imagens, corrigir pequenos bugs, atender suporte. Pede pra um senior fazer isso, ele vai mandar você ir lá praquele lugar, especialmente num mercado aquecido e competitivo como de agora.

É que nem você querer construir sua casa dos sonhos, aí na sua infinita sabedoria pensa "cara, não vou contratar nenhum pedreiro, vou contratar uma dúzia de mestres de obra. Se os pedreiros fazem minha casa em 6 meses, certamente os mestres de obra sozinhos vão fazer em 3 meses e ainda com muito mais qualidade". Entenderam o ridículo? Todo projeto tem tarefas pra seniors e pra juniors. A tarefa mundana que o senior já fez quinhentas vezes e não quer fazer de novo? É exatamente o tipo de tarefa que um junior precisa pra ganhar experiência.

Coloque seniors orientando juniors e não só sua produtividade vai ser melhor do que num time só de seniors, vão ser todos mais motivados e você ainda aproveita pra garantir que sua equipe naturalmente consiga se auto-repor. O junior de hoje é o senior de amanhã. E quando chegar amanhã ele vai saber da importância de orientar novos juniors, porque foi assim que ele cresceu também. É um ciclo positivo. Toda empresa de tecnologia precisa de juniors, estagiários. Não é sustentável achar que sempre você vai achar seniors com disposição pra ficar fazendo tarefas mundanas de manutenção. É isso que eu pratico na minha empresa faz anos.

"Ah, esse mercado tá foda, não consigo contratar." Lógico, você tá procurando só seniors pra ficar mudando botão de lugar na sua tela. Não é o mercado que tá foda, é você que não sabe contratar e não sabe formar pessoas. Formação de novas pessoas é fundamental pra qualquer negócio, seja grandes corporações ou pequenas startups. Pessoas entram e saem, ninguém fica pra sempre, mas se você forma pessoas, seu processo já está adaptado a mudanças.

Não sei se vocês notaram, mas em todos os exemplos que falei até agora o tema comum é que todo mundo sempre pensa em economizar. E tá correto, não se deve esbanjar dinheiro a toa. Mesmo quando tem sobrando. Porém, em todos os casos, estamos falando de casos de "economia porca". Toda economia porca sempre vai sair caro lá na frente. É que nem comprar um Mercedes e querer economizar não fazendo seguro. O que acham que vai acontecer? Murphy é o cara que mais trabalha.

Um exemplo disso é quando o tal empreendedor decide que gerenciar projetos, gerenciar pessoas, processos de tecnologia e tudo mais não é pra ele. Então terceiriza 100% de toda a tecnologia pra outra empresa. Pronto, agora ele só dá ordem, paga fatura no fim do mês, e deixa outra pessoa com a dor de cabeça de gerenciar tudo. Faz uma pesquisa porca, acha uma agênciazinha de esquina que tem um sisteminha pré-pronto e lá vai ele confiar o negócio pra um estranho.

Hoje em dia é comum no mundo de Software as a Service, ou SaaS, mudar muita coisa de capex pra opex. Em poucas palavras mudar de gastos internos pra gastos externos, ou de propriedade própria pra aluguel de serviços. Por exemplo, seria impossível toda empresa ter seu próprio servidor de emails que seja rápido, seguro e tudo mais. Por isso ninguém faz isso, todo mundo faz uma assinatura do Gmail, Outlook e outros e pronto. O mesmo vale pra vários outros serviços como video conferência, email marketing, até CRM e contabilidade. Todo mundo conhece as marcas mais famosas e mais confiáveis. Mailchimp, Salesforce, Zoom e muito mais.

O problema é contratar uma empresinha desconhecida de fundo de quintal, onde você paga pra eles desenvolverem customizações ou novas funcionalidades, mas por contrato você não é dono do que tá pagando pra construir. Propriedade intelectual é sério. Software é propriedade intelectual. Mas no começo você não se incomoda, afinal sai mais em conta pra você trabalhar assim. Se alguma coisa parece boa demais, é porque é: é menos caro porque você não tinha a propriedade. E se no futuro o relacionamento azedar, você fica sem nada. E acredite, sempre azeda. É assim que as coisas funcionam. Aprenda a ler contratos.

Mas aí você não quer nem pagar caro e nem ficar na mão de um terceiro assim. Aconteceu um caso que o cara veio pedir uma demanda pra minha empresa, passamos o preço e ele reclamou que achou muito caro e que se a gente não baixasse ia terceirizar pra uma empresa indiana. Por alguma razão acho que ele achava que tava me oferecendo alguma grande honra de trabalhar pra ele.

Resumindo minha resposta eu disse algo como "não tem nenhum problema, o código é seu, você terceiriza pra quem você quiser. Mas eu não abaixo meu preço, e já aviso que você vai pagar a metade com os indianos e daqui 6 meses vai voltar pra mim pedindo pra consertar, e nessa hora meu preço vai ser o dobro." Seis meses depois, ele voltou. Não existe almoço de graça, você recebe proporcional ao que paga, se foi barato, é porque o resultado vai ser porco. Simples assim. Eu recebo tanto email de empresa desconhecida indiana me oferecendo serviços que eles já tão ganhando do príncipe nigeriano.

Tô cansado de virem procurar a gente falando "olha só, conhece esse site X? Quanto vocês cobram pra fazer igual? Eu falei com um indiano e ele me falou que por mil dólares ele faz, se vocês fizerem por menos fecho com vocês". Não estou nem inventando, foi um caso recente. Você abre o tal site, é uma plataforma de fintech, mais ou menos. Só tem um hotsite bonitinho. Eu nem duvido que por mil dólares ele faça a 1a página, que é exatamente o que a maioria das pessoas pensa.

Entenda, só a primeira página. Esquece as coisas invisíveis por baixo: integração com outras plataformas, banco de dados, administrativo, etc. Muita gente acha que um site é só as primeiras páginas que ele vê, sendo que o grosso do trabalho é tudo aquilo que um usuário comum nunca vai ver. Como eu falei antes do designer que só faz mockup da página de login, porque é só isso que ele conhece. E muita gente acredita que é só isso mesmo. Mil dólares pfff. Um protótipo de software começa na ordem de grandeza de 10 vezes isso. Uma tech startup de verdade começa na ordem de 100 vezes isso. Pra mais. Mil dólares ...

Falando em gente que inventa abobrinha, coloco nessa categoria os famosos NDAs que me mandam pra assinar. Coisa de departamento jurídico amador ou empreendedor de primeira viagem querendo impressionar do jeito errado. NDA pra quem não sabe é non-disclosure agreement, basicamente um contrato de confidencialidade querendo dizer "eu acho que minha ideia é super foda, mas ninguém pode ficar sabendo, e se você roubar minha ideia ou contar pra alguém, cobro uma multa". Acho NDA uma coisa ridícula, especialmente pra empresa iniciante.

Como eu disse lá no começo, sua ideia não é original, pára de ficar se super-valorizando. Em segundo lugar, se sua ideia realmente é algo fora do comum que eu nunca vi, e se eu for de má índole e quiser roubar, a multa de um NDA é só um preço de compra barato. Só isso. Qual é a multa? 1 milhão de reais? 5 milhões? Noooosa. Se a ideia for tão boa assim deve valer 50 milhões, 100 milhões? Comprar por um 1 milhão é barato, pago a vista, em cash se quiser. Tosco.

E esses departamentos juridicos amadores são os que fazem contratos toscos, copy e paste de alguma coisa que viu no Google, com cláusulas do tipo "pra trabalhar com a gente, você se compromete, caso a gente termine, de não trabalhar com mais nenhuma empresa do setor". Aí você vê que o cara é do setor de fintech. Ele acha que eu nunca mais vou trabalhar com nenhum outro fintech. Tá de brincadeira? Quer comprar minha empresa, você paga por ela. De graça, vai sonhando. É impressionante a quantidade de juridico tosco assim que eu vejo.

Jurídico tosco me lembra de licitações. Como eu já expliquei, software não tem como especificar e construir exatamente. Eu ainda estou pra ver uma licitação que especifica alguma coisa direito. Pra quem não sabe licitação é um leilão. A empresa faz o desenho de um projeto de software e convida algumas empresas pra avaliar e apresentar propostas de tempo, custo, suporte e tudo mais. Daí eles escolhem o mais barato, normalmente, ou a empresa de algum conhecido. Então é tudo menos justo. Como eu disse: barato sai caro e eu não participo de licitações porque acho o modelo inteiro tosco pra começo de conversa. Só lamento pra quem precisa trabalhar nesse modelo.

Isso me lembra de casos que a gente já recebeu de licitação que pede pra gente mandar um prazo pra entregar o projeto, sendo que um dos itens de trabalho que vai ser realizado é literalmente "definir o escopo". Entenderam? Pra participar da licitação eles querem que a gente já se comprometa num prazo final sendo que o escopo nem sequer está definido e vai ser parte do projeto, depois que ganhar a licitação, definir esse escopo. É uma piada de tão mau gosto que fico imaginando que tipo de gênio da lâmpada escreve essas coisas e pior ainda, que tipo de animal aprova isso.

Eu disse que ia me focar no pequeno empreeededor mas licitação já começa a entrar na área de empresas maiores então acho que é minha deixa pra finalizar. Se não ficou claro, no dia zero, quando você tá pensando em criar um software pra sua empresa e você é o dono e/ou o investidor principal, nem pense em começar se não tem um sócio técnico experiente pra gerenciar tudo. Contrate alguns programadores internamente primeiro, funcionários devidamente contratados em tempo integral, e não freelancers.

Só depois terceirize uma parte pra acelerar a produtividade, mas faça os terceiros trabalharem junto com seus funcionários de confiança, nunca em modelo de black box onde você manda especificação e fica meses esperando eles entregarem alguma coisa depois. Se preocupe com aspectos de infraestrutura e segurança, LGPD tá aí. E se preocupe em formar pessoas. Você precisa sim de bons seniors, que sejam de confiança, que vão ajudar a orientar e treinar os juniors e estagiários. Esse é o básico do básico.

E veja, falei um monte até aqui e nem entrei no assunto sobre melhores linguagens de programação, frameworks ou coisas assim. Porque não importa. A melhor linguagem e ferramentas são aquelas que seus melhores funcionários preferem. Não é essa escolha que vai fazer diferença se todo o resto que falei antes não estiver correto primeiro. Você como administrador e empreendedor não-técnico não tem que meter o bedelho nisso, pra isso serve um CTO ou um Tech Lead. E lembre-se do mais importante: economia porca não compensa.

Tem muito mais que posso falar sobre isso, mas acho que por hoje é o suficiente. Se ficaram com dúvidas mandem nos comentários abaixo, se curtiram o video deixem um joinha, assinem o canal e não deixem de compartilhar o video com seus amigos. A gente se vê, até mais.

tags: akitando empreendedorismo startup terceirização projetos

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