[Akitando #78] - Entendendo Teclados Mecânicos | Minha coleção - Parte 1

2020 May 05, 18:00 h

DESCRICÃO

Finalmente consegui compilar a primeira metade do vídeo sobre minha coleção de teclados mecânicos. Neste episódio você vai entender as principais características de teclados mecânicos, algumas das principais marcas e modelos e, claro, as combinações que mais me agradam.

Também vamos comparar com alguns notebooks e o que diferencia os mecânicos dos "normais" e pra isso também vou contar sobre a controvérsia dos switches butterfly da Apple.

Como o video é longo, segue um bookmark das principais seções do video pra ficar mais fácil voltar depois:

02:06 - velocidade de digitação e um resumo inicial 05:54 - switches butterfly da Apple 08:33 - Surface Book 2 e Thinkpad Extreme 12:27 - o mau exemplo: Bright 16:26 - Das Keyboard 1 20:07 - Corsair K65 Vengeance 24:34 - Cooler Master SK630 29:38 - Razer Blackwidow Chroma V2 33:12 - Logitech G PRO 36:04 - Matias Mini Quiet Pro 37:53 - Tamanhos de Teclados 42:09 - RealForce 87U

Links:

SCRIPT

Olá pessoal, Fabio Akita

Finalmente resolvi falar um pouco sobre minha coleção de teclados mecânicos. Depois de mais de um mês em quarentena sem ver uma pessoa já já vou estar conversando com meus teclados isso sim. No total são uns 16 teclados mas vou cobrir metade hoje e dividir alguns itens especiais pra falar só no próximo episódio. E pra ficar fácil encontrar qual, também vou deixar um bookmark com o tempo de cada um nas descrições abaixo. Parece que o interesse por teclados mecânicos cresceu bastante recentemente. Eu venho colecionando bons teclados faz uns 5 anos já. Então vamos lá que tem bastante coisa só pra hoje.

(...)

Antes de mais nada, eu não pretendo explicar tudo que existe sobre cada teclado. Vou focar só no que é importante pra mim. Existem canais inteiros dedicados só pra falar de teclados, incluindo DIY pra quem quer construir um teclado customizado. Três exemplos de canais que eu assisto são o Random FrankP, o Hardware Canucks e o Tae Keyboards. Em cada video eles vão em muitos detalhes sobre cada teclado, os keycaps, switches, testes de som, desmontagem pra ver o chassi, chipset e muito mais. Se você tem curiosidade sobre um teclado em particular, veja se eles já não falaram a respeito.

Vamos tirar algumas coisas do caminho primeiro. Muita gente ainda pensa que teclados mecânicos é só coisa pra gamers. E isso não está totalmente errado. Muitas das melhores tecnologias de teclado de fato estão nos modelos pra gamers profissionais, em marcas como Razer. Mas não se engane, só porque tem RGB não quer dizer que é pra gamer. Aliás, tem muito xing ling por aí que enfia LED em teclado porcaria achando que vai atrair gamers. Só se forem os amadores mesmo. De qualquer forma, muitas das tecnologias de verdade pra gamers como switches confiáveis e rápidos, anti-ghosting, baixo input lag e tudo mais já existem em teclados sóbrios que não são só pra gamers e sim pra touch typists, ou seja, povo que sabe digitar rápido com todos os dedos.

Falando em velocidade, existem diversos sites e ferramentas disponíveis pra quem quiser treinar digitar corretamente. Muita gente acaba usando o 10fastfingers, e como passatempo é divertido. Mas a configuração padrão dele é extremamente fácil, com palavras simples de 3 ou 4 letras. Então não é difícil eu ficar entre 95 a 105 palavras por minuto, algo em torno de 400 toques por minuto. Mas isso é velocidade de competição, onde eu preciso estar focado em copiar muito rápido sem pensar se o que estou digitando faz qualquer sentido. Ninguém consegue manter esse ritmo num trabalho de programação ou dissertação durante horas sem parar. Isso é velocidade de pico e não média. A média de trabalho seria muito abaixo, mais pra 40 palavras por minuto ou menos, porque o certo é você parar pra pensar no que tá escrevendo. Tirando trabalho de digitador mesmo, ninguém fica apostando corrida.

Mas claro, se num site como 10fastfingers você está abaixo das 70 palavras por minuto eu realmente recomendo que treine muito mais. Apesar de gostar de me considerar um touch typist mesmo eu estou ciente que tenho defeitos em alguns dedos, em particular meu dedo anelar da mão direita eu uso muito mal. Os verdadeiros touch typists vão acima de 150 palavras por minuto. Já em código só dá pra ir rápido assim se você estiver digitando algo que já repetiu dezenas de vezes antes, e nesse caso eu tomaria cuidado: porque você tá repetindo tantas vezes o mesmo código em tantos lugares e ainda não extraiu em uma biblioteca ou algo assim?

Na prática, se eu realmente me concentrar, em silêncio, com palavras simples, fico na faixa das 90 e poucas palavras. A maioria dos teclados que eu vou mostrar consegue me manter na faixa entre 80 e 90 sem atrapalhar. E aqui já vou resumir: o teclado faz um pouco de diferença se e somente se, você já for um digitador rápido. Se você tiver estatura média e mãos pequenas como as minhas, prefira switches lineares, especialmente os semelhantes aos Cherry MX Speed Silver que eu vou explicar mais na frente. Eles exigem na faixa de 45 gramas de força. Agora, se você for maior, com mãos grandes tipo jogador de basquete, aí talvez faça mais sentido switches com mais resistência como os Cherry MX Blue ou Black que exigem uns 60 gramas de força. Teclados de notebook são mais rasos mas também são mais pesados, exigindo uns 70 gramas de força. Em notebooks eu tendo a ir mais devagar e fico abaixo das 80 palavras por minuto, por exemplo.

Uma pergunta que muita gente vai fazer é se deveria treinar layouts diferentes do tradicional qwerty como Dvorak ou Colemak. Eu não vou entrar nesse assunto nestes videos mas meus dois centavos é que vale a pena experimentar se você tem tempo ou interesse nessas coisas. Mas pra maioria da população não, é perda de tempo. Não vai drasticamente aumentar sua velocidade e nem diminuir dores magicamente. Melhorar sua postura vai fazer muito mais diferença. Não quer dizer que sejam ruins, só que não tem nenhum milagre neles. E isso vai limitar suas opções também porque só vai poder usar alguns tipos de teclados e toda vez que for usar maquina de outra pessoa vai ter que incomodar instalando layouts diferentes. É muito pouco prático por isso não me interessa.

Outra pergunta que já sei que todo mundo vai fazer é sobre custos, eu realmente não tenho muitos teclados baratos. E cuidado com os baratos demais, que como eu vou mostrar já já, é comprar gato por lebre. Os parâmetros que eu diria é procurar marcas que ofereçam switches Cherry, Gateron ou Kaihua que são mais fáceis de encontrar, de preferência o tipo linear como Cherry Red ou Speed Silver. Também prefira os que ofereçam keycaps PBT doubleshot. E fique com tamanhos que vão do TKL até no máximo 65% se não quiser sofrer muito. Vou explicar tudo isso em mais detalhes neste video, mas esses são os parâmetros. O meu recomendado de custo benefício mesmo vai ficar pra Parte 2, então aguardem pra ver.

Como eu estava dizendo, teclados mecânicos viraram moda ultimamente, o assunto virou notícia nos últimos anos não só por causa do aumento da comunidade de gamers profissionais, mas também por causa do fracasso homérico da Apple com os famigerados switches butterfly que sempre quebram e foram alvo de muita crítica até finalmente eles resolverem voltar pros antigos switches scissor que era o padrão até 2015.

Pra quem não acompanhou, por muitos anos os notebooks e magic keyboards da Apple usavam o design de switches que ficou conhecido como scissors porque as peças são conectadas no meio e sobem e descem parecendo uma pequena tesoura, conseguindo manter uma tecla fina e estável por cima. Era um design simples, feito com peças comoditizadas, testadas ao longo de anos e muito confiáveis. Raramente você ouvia falar de alguém reclamando disso.

Mas por volta do fim de 2015 a 2016 a Apple resolveu mudar esse design pro que ficou conhecido com switches butterfly ou borboleta porque as peças se movem parecendo as asas de uma borboleta. O objetivo era diminuir o que chamamos de key travel que é a distância entre a tecla em seu estado de repouso até ele encostar no final. O que chamamos de actuation ou acionamento do circuito da tecla em si costuma acontecer no meio do caminho antes de bater no final. Em notebooks é um espaço bem pequeno, na casa de 1 milímetro.

Teoricamente, com key travel menor você consegue trabalhar o frame, ou o casco do notebook pra ficar mais fino, coisa que sempre foi uma prioridade no design industrial da Apple. Porém, esse design tem pelo menos dois grandes problemas: diferente dos switches scissors, os butterfly usam peças mais frágeis e por causa do key travel super curto, o espaço embaixo da tecla quando sobe funciona como uma pequena sucção, atraindo sujeira pra baixo dela. Qualquer grão de poeira no lugar errado é suficiente pra travar a tecla. E isso foi tão comum que todo novo modelo de macbook lançado já vinha com reportagens das teclas estarem travando.

Umas 2 ou 3 revisões diferentes foram feitas, inclusive adicionando uma membrana fina de silicone ou algo assim ao redor do switch, mas mesmo assim as teclas continuavam com alto grau de defeitos. Depois de uns 4 anos tentando e toda vez fracassando, finalmente no fim do ano passado eles decidiram reverter pros switches scissor originais e até agora não vimos mais relatos desastrosos como os de antes. Mas apesar das más notícias no mundo Apple nesses últimos anos, também precisamos reconhecer que foi por causa dela que desde o ano 2000 as demais marcas tiveram que evoluir e oferecer teclados melhores.

Hoje em dia, dentre as principais marcas de notebooks, meus dois preferidos são os da linha Surface da Microsoft, em particular o teclado do Surface Book 2 que eu uso faz uns 3 anos e o lendário teclado dos Thinkpad, como desse Thinkpad Extreme que eu tenho faz quase um ano. O que mais varia em notebooks é o layout das teclas, em particular as da direita que tem as setas e navegação como page up ou home. Em termos das teclas em si, nenhum é excepcionalmente bom porque o próprio tamanho dos notebooks não permite teclas muito maiores. Em notebooks baratos demais o teclado é o menor dos problemas, mas dentre aqueles que começam na faixa dos mil dólares é mais questão de gosto mesmo.

Vamos ver como é o teclado do Surface Book 2 por alguns segundos pra vocês verem. São os que mais se assemelham aos da Apple na minha opinião.

(teclado Surface Book 2 - demonstração)

Agora vamos ver como é o do Thinkpad. Ele tem o lendário mamilo vermelho mas eu realmente nunca precisei dele em nenhum modelo que já testei. Considero bem inútil porque os touchpads hoje são bons o suficiente. Aliás, em termos de touchpad nada supera os da Apple, mas os notebooks premium tem touchpads competentes já. Mas vamos voltar pro Thinkpad.

(teclado Thinkpad - demonstração)

O que eu gosto dos dois primeiro é o chassi. Um dos grandes problemas de notebooks baratos é que eles usam chassis de plástico pouco resistentes e quando você aplica só um pouco de pressão no meio eles flexionam. Eles não são rígidos. Eu vou mostrar isso já já com outro teclado. No caso do Surface Book, ele tem mais key travel que os macbooks com switches butterfly e mesmo assim já estão no que eu considero o limite, de 1.2 milímetro de key travel e são um pouco mais resistentes que a maioria, requerendo uns 70 gramas de actuation force. Ou seja, você precisa aplicar 70 gramas de força pra tecla descer 1.2 milímetros e fechar o contato do circuito pra registrar a tecla.

No caso do Thinkpad Extreme, ele tem um key travel maior de generosos 1.7 milímetro. Meio milímetro pode não parecer muito mas faz bastante diferença pra um notebook de menos de 2 centímetros de espessura. Porém eu acho as teclas um pouco mais cansativas pra digitações longas porque precisa de 78 gramas de actuation force. Por isso eu disse antes que minha velocidade de pico fica na casa das 80 palavras por minuto e é bem mais difícil pra mim alcançar os 100.

No caso dos famigerados switches butterfly da Apple, eles eram tão rasos que estamos falando de um key travel de 0.7 milímetro, ou seja, menos de um milímetro. E pelas specs oficiais ele precisa de 70 centiNewtons de força ou aproximadamente 71 gramas de força. Portanto em termos de força é parecido com o Surface mas como o key travel é 1 milímetro menor, eu sempre senti como se estivesse batendo meus dedos na mesa. É muito cansativo pra longas sessões de digitação.

Vale lembrar que praticamente todos os principais notebooks usam switches scissor, não só a Apple como os modelos que eu mostrei acima. As patentes são dos anos 80 e eu não sei se os fabricantes precisam pagar royalties hoje em dia, e se sim isso também explica porque a Apple tentou um design diferente pra fugir de ter que pagar licença. Mas pelo visto switches scissor estão na ativa dos anos 80 até hoje porque passaram pelo teste de confiabilidade do tempo. Outra coisa que muitos não sabem é que esse switch usa um rubber dome ou domo de borracha no meio, que é o que dá a resistência do switch e que levanta a tecla pra posição original depois, ou seja, não é um mecanismo mecânico com molas. É a própria resistência do domo de borracha que levanta a tecla de volta.

Eu cito isso porque muita gente acredita que as diferenças em switches de teclado são basicamente os que tem rubber dome e os que não tem. Mas é um pouco mais complicado que isso como eu vou mostrar mais pra frente. Vamos pular de notebooks pra desktops e começar com um tecladinho bem vagabundo, hiper barato da faixa de 50 reais que eu comprei anos atrás só pra ligar temporariamente num raspberry pi que eu tava testando na época que eu só usava Macs e não usava teclados externos. Essa belezinha aqui de marca genérica chamada Bright.

(intro Bright)

É muito mais fácil falar de teclados bons começando por um bem fuleira que mostra tudo que tem de errado nos teclados baratos demais. Pra começar, o chassi inteiro e o frame são totalmente de plástico e dos mais vagabundos, olha como eu consigo torcer ele inteiro e como se eu aplicar só um pouco de força no meio ele afunda inteiro. Agora olhem também como ele tem zero estabilização nas teclas maiores como a barra de espaço. Quando se digita, você tem a sensação de estar afundando o dedo num pedaço de borracha escolar, e é praticamente isso que tem embaixo das teclas. É tudo meio molenga e ele faz você errar bastante enquanto digita. Mesmo assim eu resolvi fazer o teste de velocidade nele, mas foi super irritante.

(digitacao bright)

As teclas em si são provavelmente de ABS ou pior, PVC. Parece aqueles kits de brinquedo de plástico que tem tudo grudado numa grade e você vai recortando as peças e fica aquelas pontas de plástico. Tudo é meio folgado, todas as teclas balançam um pouco. Além disso veja meio inclinado que as letras e símbolos parecem algum tipo de adesivo, e teclas baratas assim normalmente tem as letras impressas por cima mesmo, que com o tempo apagam.

Lembram que eu falei que no caso do switch butterfly da Apple tinha key travel de menos de um milímetro e parecia que eu tava batendo os dedos numa mesa dura? Isso porque o chassi da Apple é de alta qualidade, rígido e de alumínio. No caso dos baratos de plástico que nem esse aqui, parece que eu tô escorregando os dedos por cima de plástico liso em cima algo molenga. Não tem firmeza nenhuma. Às vezes parece que você teclou e a tecla não registrou, ou você escorrega pro lado. A grande maioria dos teclados da faixa abaixo de 100 reais vai ser alguma coisa lastimável assim. Pra achar um razoável nessa faixa tem que pesquisar bastante, eu mesmo não conheço nenhum.

No mundo desktop, o normal nas últimas décadas são os teclados de membrana porque são os mais baratos de fabricar. Basicamente imagine uma placa grande embaixo, com uma matriz onde os cruzamentos seriam as teclas. Nesses cruzamentos tem traços, que estão abertos, ou seja, não fecham o circuito. Em cima dessa placa coloca-se uma manta de silicone ou borracha, que é a tal membrana. Essa membrana é impressa com o layout de onde fica cada tecla e nessas posições tem os rubber dome, ou domo de borracha, com um material condutor que quando você pressiona o domo pra baixo, ele encosta na placa e fecha o circuito daquela tecla. Finalmente, você fecha o teclado com uma frame ou corpo de plástico e encaixa as teclas nos buracos. Pronto, esse é o tipo de teclado mais barato e mais difundido.

Esse tipo de teclado é super porcaria. O que mantém as teclas pra cima é a resistência desse material borrachudo. Claro, a qualidade dos materiais vai variar de fabricante pra fabricante. No caso dos notebooks, a maioria não usa mais membranas, daí os domos de borracha são individuais em cada tecla, mas o conceito é parecido. Mas você vê que a maioria dos notebooks de 1000 dólares pra cima tem chassis mais rígidos, teclas mais estáveis, estabilização adequadas em teclas maiores como barra ou return e, principalmente, a qualidade do domo de borracha que não faz parecer que você tá apertando uma borracha escolar porcaria.

Na faixa acima dos 50 dólares eu acredito que a maioria das marcas mais conhecidas como a Logitech fazem teclados suficientemente bons. Não vão ser mecânicos como os que vou mostrar, nada excepcional, mas melhores que a porcaria que eu acabei de mostrar. A tal porcaria aliás é mais pro segmento de quem quer ligar um teclado numa smart TV pra achar um filme no Netflix mais fácil ou coisas bem curtas assim, não pra digitações longas. Dai qualquer coisa vai ser melhor que ficar usando as setinhas do controle remoto pra digitar num teclado virtual na TV.

Agora que falamos do mais porcaria, vamos pros modelos mecânicos que vocês querem ver. Este aqui foi um dos meus primeiros teclados mecânicos da última década. Importei faz uns 5 anos e este teclado é da faixa de uns 150 dólares. E como podem ver, este eu usei até que bastante. A marca na lateral já quase desapareceu e a impressão de várias teclas quase apagou. Esta versão 1.0 nem vende mais, o mais próximo seria o modelo 4C mas ele vem com teclas PBT e o meu provavelmente são teclas ABS ainda. Já já vou falar sobre PBT mas normalmente você sabe que as teclas são o mais barato ABS porque com o tempo ele vai ficando com essa aparência glossy brilhante de gordura ou sei lá.

Este Das Keyboard é alemão e parece uma construção alemã mesmo. Ele é sóbrio, super sólido, o chassi é de metal e tem zero flexionamento. Dá aquela impressão que se você bater com um martelo periga de trincar o martelo. Se você ver um teclado acima dos 100 dólares com chassi de plástico, fique longe. Aliás, eu não recomendo nenhum teclado dessa faixa de preço que tenha keycaps ABS. Mas como esse teclado é de uns 5 anos atrás, quando essa moda de mecânicos nem tinha começado, vou dar um crédito. Agora vamos ouvir um pouco essa belezinha.

(demonstração - daskeyboard - digitando)

Falando em alemão, claro, você ouviu bem: estes são os famosos switches Cherry MX Blue. Os mais barulhentos de todos, sendo tactile e clicky. A empresa Cherry existe desde os anos 50 mas foi na última década que ela se tornou internacionalmente famosa por causa dos seus switches. Vamos ver o raio X de um switch Cherry Blue. Ele requer 60 centinewtons que é quase 61 gramas de força pra descer os primeiros 2.2 milímetros pra fechar o circuito de um total de 4 milímetros de key travel. Ou seja, na teoria você não precisa descer os 4 milímetros. Eu não sou, mas sei que existem digitadores velozes que digitam super leve, só relando de leve nas teclas o suficiente pra descer os 2.2 milímetros sem marretar até o fim.

Na prática, eu diria que em switches Blue é bem difícil digitar leve assim porque 60 gramas é uma força considerável, pelo menos pros meus dedos, e o bump que dá esse clicky dificulta só relar na tecla de leve. Olhem com calma de novo, eu bem devagar, indo os primeiros 2 milímetros até o clicky e depois os 2 milímetros finais até o fim, notem como tem a primeira resistência até atingir os 60 gramas.

(das keyboard - 1 tecla devagar)

De qualquer forma o Blue é considerado um dos switches mais satisfatórios justamente por causa desse barulho. Eu pessoalmente já enjoei do barulho, que tem esse pitch mais agudo. Os switches Brown são tactile, com um leve bump mas sem esse click, e por isso o barulho é pouco mais grave e um pouco menos irritante. Vai de gosto, mas eu recomendo testar o Brown em vez de ir direto pra Blue se o barulho preocupa. Se você trabalha sozinho, em home office, e não tem mais ninguém do seu lado, tanto faz, mas é 100% de certeza que todo mundo vai se irritar com os Blue.

Dos switches que são tactile, os Blue são os que tem o som mais característico agudo. Daí você tem o Brown. Não só o som é diferente mas ele requer menos força, de 55 centinewtons em vez dos 60 do Blue pra chegar no acionamento ou actuation aos 2 milímetros em vez de 2.2 do Blue, embora ambos tenham os mesmos 4 milímetros totais de key travel pra bater as teclas até o final. Pra quem gosta de barulho mas também quer cansar menos em sessões longas de digitação, eu diria que o Brown é mais confortável. E é uma questão de gosto mas eu prefiro o som um pouco mais grave dos Brown do que o agudo dos Blue.

Saindo da categoria tactile você tem os lineares. E aí são vários modelos. O mais comum são os Cherry MX RED. Um exemplo razoável em custo benefício talvez seja como este meu Corsair K65 Vengeance. Esse é da faixa de 100 dólares e tem mais baratos como o K55 de 50 dólares mas também é um teclado de membrana e não mecânico. O meu K65 usa switches Cherry RED que são lineares. A diferença com o Blue é que ele não tem um ponto de acionamento com um bump, ele desce linearmente dos 2 milímetros do acionamento até o total de 4 milímetros. Vamos ouvir primeiro:

(digitação - Corsair K65)

Agora vamos ouvir bem devagar pra vocês verem que o switch em si não faz clicky. Só quando eu bato com força vocês ouvem.

(devagar - Corsair)

Este Corsair não é nada de excepcional mas é bem competente. O chassi dele é razoavelmente rígido, ou seja, você não consegue torcer ele e mesmo tentando apertar no meio, ele não afunda. Mas o que entrega pra mim que ele é da categoria um pouco mais barata são os keycaps. Notem que eles parecem de ABS, com os símbolos impressos por cima e que com o tempo vão ficar com aquela aparência de engordurado e com letras apagadas. Mas uma das vantagens de se usar switches Cherry MX é que eles meio que se tornaram um padrão, então você consegue encontrar kits de keycaps e escolher não só cores mas materiais melhores como PBT. E, por acaso, eu tenho aqui justamente um kit da própria Corsair com keycaps PBT doubleshot.

Agora é uma boa hora pra explicar a diferença. Pra começar eu fico falando keycaps mas tecla seria mais ou menos a mesma coisa. Enfim, keycaps ABS vocês já viram em todos os teclados que mostrei até agora. Tem mais porcaria que ABS, existem teclados super baratos que usam PVC, e eu ficaria longe desses. De qualquer forma ABS e PBT são acrônimos pro tipo químico diferente de plástico. ABS quer dizer em português Estireno de acrilonitrila-butadieno e PBT quer dizer Tereftalato de polibutileno. Na prática, são tipos diferentes de plástico, só que PBT é um de melhor qualidade, mais caro, mas tem o que engenheiros chamam de estabilidade dimensional, o que quer dizer que deforma menos sob pressão do que ABS ou PVC. E como basicamente você vai querer marretar essas teclas todos os dias, você gostaria de um material de maior qualidade.

Mais do que isso, muitos kits de keycaps PBT são também double shot, ou seja, eles são feitos com duas camadas de PBT e você pode ver olhando por baixo. Isso normalmente quer dizer que a camada de cima é vazada onde tem a letra e a camada branca de baixo preenche esse vazado. Ou seja, a letra nunca vai sumir porque não é uma impressão de tinta por cima e sim a segunda camada de PBT por baixo. E normalmente esse PBT debaixo é semi-transparente, daí muitos fabricantes colocam LED no switch e com isso você tem backlight que ilumina a letra.

Por causa desse processo você entende que maior qualidade significa usar switches melhores como os da Cherry, com keycaps doubleshot, com chassi de metal, e vão custar naturalmente mais caro. Mais do que isso, ABS e PVC tem um barulho diferente de PBT. ABS tem um som mais de “plástico barato” mesmo e PBT é um som mais cheio e mais robusto, um pouco mais grave também, parte por ser mais denso e mais pesado. Compare os dois lado a lado, o mesmo teclado da Corsair com os keycaps ABS originais ..... e agora trocando pras teclas PBT doubleshot.

(som - corsair trocando teclas)

Eu acho que teclas PBT tem som mais assertivo, a estabilidade das teclas um pouco mais pesadas é melhor, eles costumam ter uma textura diferenciada que não dá sensação dos dedos escorregarem, e no geral a sensação é bem mais satisfatória, só que agora ele deixou de ser um teclado de 100 dólares e pulou pra categoria de 150 dólares. Então de fato você recebe o que paga.

De qualquer forma, não quer dizer que as teclas ABS sejam totalmente ruins. Muitos notebooks caros usam teclas de ABS. Além disso você sempre pode começar com um teclado com um bom chassi e bons switches e depois pagar 50 dólares ou menos e pedir um kit de keycaps PBT doubleshot como nesse exemplo que mostrei agora. Assim você inicia investindo 100 dólares e depois consegue dar um upgrade.

Nessa mesma faixa dos 100 dólares da Corsair costuma estar outra marca que por alguma razão eu tendo a colocar na mesma categoria, que é a Cooler Master. E por causa da história dos switches bugados butterfly surgiram modelos de diversas marcas tentando trazer um pouco do perfil mais low profile de teclados como os antigos magic keyboards. Se você já usou um teclado da Apple da era de 2015 pra trás, vai lembrar que os de desktop eram muito parecidos com os dos macbooks. Low profile quer dizer frame menos espesso, teclas achatadas tipo chiclete, com pouco key travel, na faixa de 1 milímetro ou menos.

Daí eu vi a Cooler Master lançando o modelo SK630 que usa switches Cherry MX low profile que é um switch um pouco diferente dos demais porque tem o menor key travel de todos, com apenas 1.2 milímetro. E por cima disso a Cooler Master construiu keycaps flat, retos e finos com espessura da ordem de meio centímetro. Então esse SK630 parece uma versão mecânica dos antigos magic keyboard da Apple. Se você gosta desse estilo de keycaps finos e retos talvez esta seja uma boa alternativa. Esses switches parecem Red mais finos que precisam de 45 centiNewtons de força. Os keycaps em si parecem ser PBT doubleshot e acho que vale comparar o barulho dele com o Corsair com os novos keycaps PBT lado a lado também.

(comparação cooler master - corsair pbt)

Diferente do Corsair o material do frame é um pouco pior. Ele tem um pouco de torção e inclusive não é perfeitamente horizontal, dá impressão que tem uma leve curvatura. Se você procura o um teclado mecânico mais fino, com uma cara mais de Mac, esse é um candidato. E diferente do Corsair, este tem até RGB. Pelo mesmo preço eu diria que é algo a se considerar. No começo eu não gostei muito das teclas retas, mas é rápido de se acostumar e dá pra digitar rápido nela também. Mas tem um grande porém, se o objetivo for um teclado verdadeiramente low profile, esta primeira tentativa da Cooler Master talvez não seja a melhor. Eu não tenho, mas a Keychron tem o modelo K1 que é tecnicamente mais low profile do que este então vale a pena conferir no site deles.

Note que até aqui eu só estou comparando os materiais e qualidade de construção. Numa discussão de teclados, existem mais características como as que eu mencionei no começo do video, incluindo customização de macros, baixo input lag, anti-ghosting ou n-key rollover e mais. Isso faz mais diferença pra gamers profissionais que treinam pra serem competitivos em campeonatos. Um jogador profissional de Starcraft consegue fazer de 500 a 800 comandos por minuto; obviamente pra ele faz diferença um input lag milissegundos menor e que as teclas registrem corretamente sem ghosting, ou seja, você pode apertar várias teclas ao mesmo tempo e todas elas vão ser registradas corretamente.

Agora a realidade, pra mim, ou pra maioria de vocês que digitam textos normais como e-mails ou código de programação, dificilmente vão notar um teclado que não tenha todas as funcionalidades de gamers. Teclado gamer não é só RGB como eu já disse. De jeito nenhum, se o input lag for alto ou se tiver ghosting, ele não presta pra gamers. Mas pra digitação normal, você não vai notar tanto assim.

Mas uma funcionalidade que pra mim faz diferença apesar de não ser gamer é a qualidade do switch. Pra um gamer é importante o switch ser mais leve e com ponto de acionamento mais curto, portanto um key travel menor, pra que você possa registrar mais comandos, mais rápido e a tecla ter uma distância menor pra voltar pra posição de reset. E por isso dizem que switches lineares como os Cherry MX Red são mais voltados pra gamers. Por outro lado, pelas mesmas razões eu considero os lineares melhores pra mim que costumo digitar razoavelmente rápido. Eu disse que gamers profissionais fazem de 500 a 800 comandos por minuto? Digitadores velozes conseguem chegar em 400 toques por minuto ou mais, então estão perto da mesma faixa.

Recapitulando, eu disse que switches Blue tem força de acionamento de 60 centinewtons e 2.2 milímetros de pre-travel do total de 4 milímetros até bater no final. Já os Cherry MX RED requerem 25% menos força, ou seja, 45 centinewtons e tem pre-travel de 2 milímetros. Por si só, switches lineares são mais silenciosos que os Blue ou Brown. O switch em si não faz nenhum barulho, só a tecla batendo no chassi que faz. Além deles existem as variantes Silent Red e Speed Silver, ambos requerem os mesmos 45 centinewtons de um Red mas o pre-travel de um Speed Silver cai quase pela metade, pra 1.2 milímetro com key travel total de 3.4 milímetros em vez dos 4 do Blue. Na prática eu não conseguiria distinguir um Red de um Silent Red, mas um Speed Silver já dá pra sentir diferença.

Esse key travel curto começa a entrar no território de um notebook Thinkpad, mas precisando só de cerca de metade da força. Mas não existem só switches da Cherry. Diversos fabricantes começaram a desenvolver seus próprios switches pra se diferenciar e realmente otimizar o caso de uso de gamers. Um bom exemplo é a Razer, marca que é comumente associada com gamers. Os teclados de fato são bons. Não vou dizer o mesmo dos fones de ouvido mas eu acho que gamers não precisam de nenhuma Senheiser, B&O ou Bose pra jogar Fortnite, eles só precisam de microfones pra dar uma xingada em alto e bom som. Mouses eu prefiro os da Logitech como o G502.

Por acaso, eu tenho dois modelos de Blackwidow da Razer. Um com switches Green que são semelhantes aos Cherry Blue e os Yellow que são lineares similares aos Cherry Red. Pois é, a Razer não quis deixar super óbvio com as cores. Vamos colocar ambos lado a lado pra vocês verem a diferença de novo de um switch tactile e outro linear do mesmo fabricante, no mesmo modelo de teclado.

(comparativo - razer green e yellow)

Vocês vão notar que ambos os teclados tem praticamente as mesmas especificações técnicas. Os chassis são de metal, os keycaps são PBT doubleshot, eles tem backlighting RGB customizáveis, e a única coisa diferente são os switches mesmo. Diferente da Corsair ou mesmo meu antigo Das Keyboard é que você imediatamente sente que tá digitando em uma construção super sólida. Nada nele balança, é tudo firme.

De novo, depende muito do seu gosto pelo som clicky do Razer Green ou menos barulho no caso do Razer Yellow. Quando eu uso o Green dá pra ouvir constantemente o distinto clicky agudo semelhante ao do Cherry MX Blue. Porém quando se usa o Yellow linear, você sente mais o barulho do keycap mais denso de PBT contra um chassi rígido quando a tecla chega até o fim. Em termos de switches, pode parecer heresia mas eu diria que prefiro a configuração da Razer mais que os Cherry originais.

O Green da Razer, comparado ao Blue da Cherry, requer menos força de acionamento, em vez dos 60 centinewtons ele precisa só de 50, então é um pouco mais leve até do que o Cherry Brown. E em vez de ter que descer 2.2 milímetros pra acionar, o Green precisa só de 1.9 milímetros. Exatamente porque a Razer foca em gamers, ele refinou o estilo tactile clicky de um Cherry Blue pra precisar de menos força. Já o Yellow da Razer é parecido com o Speed Silver da Cherry precisando dos mesmos 45 centinewtons de força de acionamento e tendo um pre-travel curto de 1.2 milímetro que é quase metade do Cherry Blue. Ou seja, são switches que de fato são mais voltados pra competição, focando em conseguir registrar mais comandos por minutos exigindo menos força e menos key-travel do que os Cherry.

Repetindo, eu não sou gamer competitivo, mas eu acho que os switches lineares com key travel menor que 2 milímetros são melhores pra digitadores rápidos e nesse caso o Razer Yellow é muito mais próximo do Cherry MX Speed Silver do que do Red. Digitar no Corsair com switches Cherry Red é bem rápido pra mim, mas o Blackwidow com switches Yellow da Razer são uma boa competição. Ambos são bons e rápidos mas a construção mais robusta da Razer pra mim é mais satisfatória.

Falando de switches diferentes, um concorrente que eu diria que é pau a pau com essa solidez do Razer Blackwidow é o Logitech G Pro. Pra começar, ele é um pouco mais barato que o Blackwidow Chroma V2 que custa hoje uns 140 euros e o G Pro custa 130 euros. E essa diferença de 10 euros é perceptível. Na ponta dos dedos me dá a impressão dos keycaps da Razer serem mais sólidos, mas isso talvez seja porque no G Pro quando você bate a tecla até o fim o som é levemente mais abafado e no Blackwidow você tem um som um pouco mais metálico no fim. Na prática o G Pro é mais silencioso do que o Blackwidow. Se colocarmos lado a lado você deve sentir a diferença:

(compare blackwidow vs g pro)

A Logitech tem alguns conjuntos de switches diferentes. A mais próxima da Cherry é a série GX que tem GX Blue, Brown e Red que mais ou menos se aproximam do Cherry Blue, Brown e Red respectivamente. Diferente da Razer a Logitech preferiu seguir as mesmas cores. Mas o que eu tenho aqui é o Romer-G Linear. Comparado aos GX ele requer menos força de acionamento de 45 gramas e um pre-travel de só 1.5 milímetros. Portanto ele também é quase comparável a um Cherry Speed Silver ou Razer Yellow.

Pra usar no escritório eu tenho preferido o G Pro justamente por ser um pouco mais silencioso no geral que o Corsair K65 ou o Razer Blackwidow. A construção do chassi e dos keycaps parecem mais balanceados pra abafar barulho. Ele não chega a ser totalmente silencioso, mas em comparação ele é bem mais suave e o que menos incomoda pessoas ao redor. O Cooler Master que mostrei antes também é silencioso mais ou menos no mesmo nível do G Pro.

Mesmo se você escolher um switch linear que, por si só praticamente não faz barulho no acionamento da tecla, ainda assim a ação de bater a tecla até o fim faz barulho. Daí depende muito do material dos keycaps e da construção do chassi. Ser de metal ajuda na rigidez mas também pode aumentar o barulho. Se você escolhe um switch tactile clicky como o Cherry Blue, isso só adiciona som extra. Em qualquer dos casos, você pode escolher diminuir o som do switch e dessa batida da tecla usando um O-Ring. São super baratos e basicamente são pequenos anéis de borracha que você coloca embaixo do keycap, então ele ao mesmo tempo serve de amortecedor pra diminuir o som da batida e também diminui o key travel, fazendo com que ele seja mais curto. Se estiver usando o Cherry Blue ainda vai ter um clicky mas ele vai ser menos irritante e o som no geral vai ser menor. Então é outra opção que talvez você queira experimentar.

Enfim, depois que eu migrei pra switches lineares um colega me falou de uma marca que eu nunca tinha ouvido falar, a Matias e o teclado Matias Quiet Pro que, segundo seu website clama, é o teclado mais silencioso do mundo. O design dos switches é mais inspirado nos switches Alps do que na Cherry e, de fato, é um teclado silencioso, ouçam comparado com o G Pro:

(matias comparado com G Pro)

O switch deles tem 60 gramas de força de acionamento e key travel total de 3.5 milímetros, o que coloca ele em território dos Cherry Brown. De fato, se eu for simplesmente pelo mais silencioso esse é de longe um dos mais quietos, mesmo se comparado com o G Pro que eu acabei de dizer que é bem silencioso.

Porém a 130 dólares não dá pra recomendar. Pra começar o corpo do teclado é de plástico e não um que me inspira muita confiança. Diferente da Cooler Master que pelo menos tenta ser mais fino, esse ainda é gordão. Não é algo que você consegue torcer fácil nem afundar, mas ao digitar você sente que tá digitando em cima de algo que parece mais oco e menos rígido. Os keycaps também são de ABS, com as letras impressas em cima, ou seja, é questão de tempo até ele ficar glossy e as letras apagarem. Fora isso, não tem backlight. Eu não faço questão de RGB mas uma luz branca faz falta especialmente porque eu gosto de digitar a noite com pouca luz. E esse teclado é um 75% o que significa que tem muitas teclas importantes com funções duplicadas, por exemplo, o Home é o Page Up com a tecla de function, o End é o Page Down com a tecla function.

Aliás, é uma boa hora pra falar de tamanhos de teclado. O tamanho grande ou full-size é aquele mais parecido com o layout original de um IBM antigo, com a coluna do meio com teclas de navegação como home, end, page up e down e a terceira coluna da direita com o teclado numérico, que eu imagino que nenhum contador consiga viver sem. Eu comecei como programador num teclado full-size dos anos 90 mas eu nunca fui particularmente rápido no numérico e com o passar dos anos eu nunca precisei gastar muitas horas preenchendo planilhas ou algo assim, então pra mim não faz falta.

Mais do que isso, quando eu uso um teclado centralizando só a parte das letras com o meio da tela, significa que meu braço vai ter que esticar muito pra direita pra usar o mouse, e isso cansa mais o braço. Eu prefiro ter o mouse mais próximo. Por isso também teclados de gamers tendem a ser pelo menos tenkey-less, sem numérico, pra ter mais espaço pra fazer movimentos longos de mouse. Em particular pra gamers de FPS, quanto mais espaço tiver na direita pro mouse melhor, por isso existem até teclados que são só a metade da esquerda que é onde normalmente você mapeia navegação, strafe e outros comandos e você raramente usa as teclas do lado direito. Assim você duplica o espaço pra movimentar o mouse.

Se eu quiser ir ao extremo existem os layouts 60% ou até mesmo 40% que, como os nomes dizem são 60% ou 40% do tamanho de um full-size. O 60% não tem a segunda coluna de teclas de navegação, então coisas como seta, page up e tudo mais precisa apertar uma combinação de function e alguma outra tecla. Pior, não existe a linha de teclas de função em cima das teclas de número, as teclas F1 a F12, então muitas vezes a tecla Esc que fica no começo dessa linha tem que descer e ficar do lado da tecla 1, e com isso a tecla que normalmente fica lá que é til e backtick não existe e você precisa usar uma combinação de teclas.

Pra digitar português onde você acaba precisando do til, isso é extremamente cansativo. Navegar usando combinação de teclas também é cansativo. Eu realmente não recomendo. Na dúvida eu ficaria num tamanho abaixo do full-size que é o chamado TKL ou tenkey-less, ou seja, é um teclado full-size sem a parte numérica da direita. Todos os teclados que mostrei até agora, incluindo o Blackwidow, G Pro, Corsair foram Tenkeyless.

Porém este Matias Quiet Pro que estou mostrando é um tamanho abaixo disso, de 75%, ou seja, ele retém a linha de teclas de função que tem o Esc no lugar certo, mas retém só metade das teclas de navegação, onde algumas precisam ser combinações de teclas, mas no mínimo tem as setas. Se você digita num editor de programação como Sublime, VS Code ou Vim, consegue remapear facilmente pra outras teclas como “h j k l” e não chega a ser totalmente ruim, mas se como eu precisa navegar por telas de Word ou Google Docs, ou mesmo no caso de editar vídeos, realmente é desconfortável sem ter setas ou um home e end. Por isso só recomendo layouts abaixo de 75% se você realmente passar 90% do seu tempo só em código ou games.

Existe até layouts absurdos como 40% que se livra da linha de teclas de número em cima do qwerty. Mas pra mim isso já é mais exibicionismo e tem zero praticidade no dia a dia. De novo, se o que você mais faz é games, talvez não faça diferença. Como uma curiosidade, um segundo teclado pra brincar ou algo assim, pode ser legal. Se o objetivo for um teclado que seja fácil de transportar na mochila, pra trabalhar de verdade, então no máximo um 65% wireless é mais que suficiente. E sim, eu sei, alguns poucos entusiastas se forçam a gostar desses layouts minúsculos, mas eu acho que pra maioria das pessoas não compensa o esforço pra ganhar alguns poucos centímetros na mochila.

O Matias Quiet Pro é um teclado realmente silencioso como diz a propaganda mas cujos materiais não condizem com o preço. Se ele custasse menos de 100 dólares talvez, mas a 130 eu prefiro já ir pro Blackwidow ou G Pro que tem materiais e acabamentos muito superiores por uma diferença pequena de preço.

O último switch diferente que eu queria mostrar hoje é uma peça que você precisa importar da Ásia, e são os switches Topre. O original é da marca RealForce e o modelo que vocês estão vendo é o RealForce 87 U fabricado no Japão. Só por causa disso eu não posso recomendar esse modelo porque dependendo do frete o preço final pode chegar a absurdos 500 dólares, nos Estados Unidos. Você consegue achar outros fabricantes como a Leopold da Coréia do Sul ou a Ducky de Taiwan que dentre outros switches também oferece modelos com Topre. Aliás, a grande maioria dos teclados que estou mostrando hoje e no próximo video são importados, então varia frete e impostos. Marcas mais famosas como Corsair, Razer e Logitech você tem mais chance de encontrar por aqui. Vai variar caso a caso então só pesquisando mesmo. Fucem Mercado Livre e Aliexpress antes.

Eu comprei o meu pela Amazon e em 2018 já custou salgados 270 dólares mais o frete pra cá e por sorte não caiu em tributação quando chegou, se não me engano. E vai custar caro mesmo, porque vem do Japão. Se comparado ao Matias ele é beeem melhor construído. Mas a qualidade de construção da Razer ou Logitech ainda é superior. O layout é tenkeyless o que torna ele bem mais confortável pra usar no dia a dia. Uma coisa que me incomoda nele é que além de não ter backlight o design é letras escuras em cima de keycaps pretos, então se for comprar recomendo a versão clara.

O correto de fato é digitar sem olhar e normalmente eu faço isso mesmo. Comparado ao Matias que é um 75% isso me incomoda menos aqui porque eu não preciso ficar lembrando quais combinação de teclas que é home ou end, mas por esse preço eu ia gostar de ter um backlight. De qualquer forma a motivação toda pra se comprar um RealForce são os switches.

Tecnicamente os switches Topre não são mecânicos. Na realidade eles são rubber dome. Lembra o que eu expliquei no começo sobre domos de borracha? A diferença é que debaixo do domo existe uma mola também, o que oferece uma resistência e retorno melhor. Diferente de um rubber dome ou mesmo membrana, o Topre você não precisa bater até o fim pra registrar. Mas diferente dos Cherry o ponto de acionamento é bem mais alto, mais no começo da batida em vez de ser no meio. Então dá sensação que você faz uma força inicial maior com um acionamento no alto e depois disso a resistência do domo é mais leve do que nos mecânicos e você vai até o fim rápido. O meu requer 55 gramas de força mas como o acionamento é bem mais no começo, me dá impressão de estar digitando num switch mais pesado que o Cherry Blue ou Black.

Eu falei no começo sobre o teclado do Thinkpad que é um scissor switch normal mas com um key travel maior de 78 gramas de força de acionamento. Tanto o Thinkpad quando este RealForce são os que mais cansam meus dedos em sessões longas. É importante notar que eu estou mais acostumado com switches lineares de 45 gramas, por isso a diferença é muito gritante e é mais uma questão de adaptação. Também depende da sua mão. Mãos maiores que as minhas vão ter bem menos problema com switches mais pesados como esses.

Em termos de barulho, os switches em si são silenciosos. Ele tem o bump de um switch tactile como o Brown e assim como ele não tem o clicky de um Blue. De novo, o barulho maior é da tecla batendo até o fim no chassi e não do switch em si. O som geral é levemente mais emborrachado, mais contido e suave, lembrando mais o Matias. Mas diferente dos de membrana normais, ele é assertivo o suficiente pra ser satisfatório e não parece que você tá apertando uma borracha escolar em cima de plástico barato.

Falando em plástico, os keycaps são bem duros encaixado nos switches e eu não consegui tirar nem com a pinça, também preferi não forçar porque não sei se o mecanismo quebra se forçar, mas pela aparência, pela textura que não escorrega e aparente rigidez, me parece que são keycaps de PBT. Então, se você por acaso estiver pela Ásia, procure por teclados com switches Topre, no mínimo vale testar porque a sensação é muito diferente dos mecânicos normais.

E por hoje chegamos ao fim. Ainda tem mais teclados, vou guardar os mais interessantes pra Parte 2. Resumindo, em termos de switches você tem os Cherry MX, Blue e Brown se quiser uma tecla com um bump na hora de apertar e um clicky no caso do Blue ou os lineares como Red ou Speed Silver se quiser algo mais leve e mais rápido. Switches Gateron ou Kaihua são bons clones compatíveis e vou mostrar exemplos no próximo episódio.

Marcas mais mainstream como Razer Blackwidow ou Logitech G Pro são ótimas opções na faixa dos cento e pouco dólares se quiser algo com uma construção mais sólida e switches resistentes e confiáveis como os da Cherry, mas mais voltados pra velocidade e gamers, que eu pessoalmente prefiro. Modelos igual ou acima do K65 da Corsair podem ser uma opção um pouco mais barata e igualmente satisfatórios mas um pouco mais barulhentos pelos materiais usados.

Como sempre, não façam perguntas simples que um Google pode responder. Eu achei todos esses teclados sem ler um único fórum, foi aos poucos, pesquisando sobre cada switch, sobre cada marca, um a um ao longo de 5 anos. E lembrando que dos quase 30 anos de carreira só nesses últimos 5 eu comecei a comprar esse tipo de teclados. Quer dizer que nos primeiros 10 a 15 anos eu usei teclados de membrana mais porcaria que tinha porque era o que dava pra comprar. E nem por isso eu programei pior ou mais devagar. Assim como um carro de corrida, primeiro você precisa aprender a ser piloto pra tirar o máximo que o máquina pode entregar. Antes disso qualquer coisa serve. De qualquer forma não deixem de mandar um joinha se curtiram o video, assinem o canal e cliquem no sininho pra não perder a parte 2. Compartilhem o video pra ajudar o canal. A gente se vê na parte 2, até mais!

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