[Akitando] #63 - Não Terceirize suas Decisões! | A Lição MAIS Importante da sua Vida

2019 October 09, 11:00 h

Description

Faz anos que eu recebo o mesmo tipo de pergunta toda vez, mais agora por causa do canal.

“Akita, o que você recomenda que eu faça na minha carreira?”

“Akita, o que eu deveria aprender primeiro?”

“Akita, tenho família pra criar, como eu mudo de profissão sem arriscar eles?”

E por aí vai.

Hoje eu vou meio que não responder e responder ao mesmo tempo. Mas eu quero ir além e explorar como você mesmo deveria pensar sobre essas perguntas pra chegar na melhor resposta pro seu caso.

E ao mesmo tempo quero tentar explicar como você deveria pensar pra não ser enganado por charlatães que te oferecem respostas atraentes e fáceis.

== PARA OS VIDEÓGRAFOS

Se você assistiu meu video anterior onde eu explico sobre as configurações do meu equipamento e cenário, lembram que o áudio estava ruim, porque eu testei gravar ligando o microfone direto na câmera.

Não tem jeito, um gravador bom separado tem qualidade melhor. Então eu liguei o Rode Wireless Go no gravador Tascan pra poder ter microfone de lapela sem fio.

E na configuração da minha Canon Rebel T7i eu subi o shutter speed de 30 pra 60 como recomendaram, mantive o aperture em f/1.4 e subi o ISO de 100 pra 200 e acho que ficou melhor.

O que acharam?

SCRIPT

Olá pessoal, Fabio Akita

Finalmente estou de volta, este mês passei 2 semanas fora, primeiro em Miami, depois nos meus escritórios do Rio Grande do Sul semana passada inteira. E daqui 2 semanas vou viajar de novo. Essas últimas semanas estão corridas, em novembro devo voltar ao normal, e ainda tá na minha lista pra fazer episódios mais técnicos, mas por agora resolvi fazer um Rant de novo. Não chega a ser Rated R, mas acho que tá perto.

O tema deste episódio é sobre tomada de decisões, em particular sobre dois tipos de perguntas que me fazem o tempo todo. Que decisões eu devo tomar pra minha carreira. E que decisões eu devo tomar pros meus projetos ou empresa. A resposta mais simples que eu posso dar é: pare de terceirizar suas decisões. Não terceirize decisões importantes da sua vida pra ninguém. E sobre as partes técnicas, o resumo é: a menos que você seja engenheiro de uma tech startup com mais de dezenas de desenvolvedores e com valuation de milhões de dólares, para de prestar atenção na maioria das palestras e artigos de engenheiros de Facebook, Google, Nubank, Netflix, Amazon e similares.

Essas duas questões estão interligadas e quanto mais cedo você aprender a lidar com isso melhor vai ser pra você. Eu quero tentar explicar porque você acha tão difícil tomar decisões, porque você acha tão difícil saber o que estudar, e porque você toma muitas decisões erradas que não precisaria tomar. E porque sua ânsia em não querer perder tempo nem dinheiro é justamente o que vai te trazer mais prejuízo.

Desde que eu comecei a blogar, palestrar e principalmente agora que abri o canal, eu tenho recebido um número preocupante dos mesmos tipos de pergunta. Faz mais de uma década que ouço as mesmas indagações. E imagino que diversos outros palestrantes e “influencers” recebam perguntas similares. Um dos tipos de pergunta tem a ver com o que a pessoa, como iniciante, deveria aprender primeiro, mais especificamente, que plataforma eu deveria escolher, que linguagem é a melhor, que ferramentas eu deveria investir. Se assistiu os outros vídeos do meu canal e ainda não entendeu a resposta é simples: essa resposta não existe. Só isso. Eu prefiro perguntas mais objetivas, coisas como “Akita, se eu quiser usar Ruby pra fazer aplicativo desktop, rola?” Aí eu consigo responder objetivamente: “Não”.

Mas perguntas que claramente tem a expectativa de justificar uma escolha, ou pior, terceirizar a decisão da sua carreira pra mim ou qualquer outro, não faz nenhum sentido. Por que você quer terceirizar as decisões da sua vida pra outra pessoa? Não faça isso. Só porque você vê alguém como eu ou qualquer outra pessoa em cima de um palco, isso não nos torna oniscientes, eu não te conheço, não sei que caminho você trilhou até agora, que dificuldades você teve, eu não sei quais seus objetivos de vida, se é que você tem objetivos. Nem eu, nem ninguém, poderia te dizer o que fazer sem conhecimento da sua história e dos seus objetivos.

Eu falei isso em outros vídeos e palestras quando falo de faculdade e como tem conclusões idiotas do tipo “ah, não vou fazer faculdade porque olha lá o Bill Gates ou o Mark Zuckerberg, eles não terminaram a faculdade e se tornaram bilionários”. Que conclusão imbecil, sério, a menos que seja dito na brincadeira, mas se a pessoa realmente pensa dessa forma a próxima coisa óbvia a se dizer é: conta a história direito, primeiro você entra em Harvard, se você conseguir entrar em Harvard e ficar lá uns 2 ou 3 anos, aí sim, pode parar pra pensar em desistir. Agora sair do seu EAD de esquina achando que vai ser o Bill Gates é o cúmulo da alucinação.

Aliás, eu nunca leio biografias, eu não tenho paciência e nem curiosidade de saber sobre a vida dos outros. Eu assisto filmes de biótipos, sabendo que é ficção. Todo filme que começa com “baseado numa história real” é exatamente o que ele quer dizer: a base é real, mas a história toda é uma ficção, cuidadosamente desenhada pra estimular suas emoções por duas horas. Só isso. Todo mundo tem uma história de drama na vida. Algumas mais dramáticas que outras. Mas isso não as torna oniscientes e muito menos onipotentes pra de repente terem sabedoria universal e a resposta pros problemas de tudo e de todos. Sério, pára pra pensar por dois segundos.

Se você realmente leva a sério sua carreira e sua vida em geral fica a dica: pare de terceirizar as decisões da sua vida pra “influencers”. Imbecis como eu aqui cagando regra não vai te ajudar. Eu sempre conto histórias e faço análises colocando contexto. Meu objetivo não é te dar respostas, é tentar dar dicas de como você acha as próprias respostas. Por isso eu falo tanto em “Aprendendo a Aprender”. O processo é simples na real: você nunca vai ter a resposta correta pra tudo, desista de tentar achar. Então como faz? Você estuda, você usa sua experiência, você erra e aprende com seus erros, quando dá você observa os erros dos outros e tenta não errar igual. Mas mais importante: assuma que você vai errar, e assuma que você vai ter prejuízos e ponto final. O problema não é acertar sempre, é como você se recupera depois de um erro. E muito do que você considera “erro” hoje pode ser útil mais pra frente, você só não sabe disso ainda.

Via de regra, quanto mais jovem você for, mais devia usar seu tempo pra estudar. Agora a questão é: estudar o que? Não importa. Vocês viram meu vídeo dos meus primeiros 5 anos? Tecnicamente, nada do que eu estudei naquela época é prático hoje, mas tudo que eu estudei valeu a pena na época. Principalmente: o fato de eu estar praticando o ato de estudar. Estudar é uma arte, você aprimora a técnica e com o tempo se torna mais eficiente e mais rápido em estudar. O que você estuda é menos importante do que “como” você estuda.

Um exemplo pequeno: antigamente eu achava que precisava ler os livros técnicos do começo ao fim. Levava um puta tempo. Hoje em dia eu raramente leio livro técnico do começo ao fim. Eu leio os primeiros capítulos e, se eu preciso, eu volto nos capítulos do meio à medida que vou precisando, se precisar. Se eu nunca voltar, é porque o assunto não era útil pra mim, e eu pulo pra outro assunto. Eu digo isso hoje, que eu tenho 42 anos. Com 20 anos, você deveria mesmo ler do começo ao fim. Não tente queimar passos, é que nem você que acabou de aprender a andar na bicicleta com rodinhas achar que vai fazer bicicross pulando rampa. Não vai.

Se você está pra começar a faculdade, entenda que nos últimos 10 anos você aprendeu a estudar do jeito errado. Eu percebi isso só quando entrei na faculdade também. Por mais de 10 anos da sua vida você aprendeu a seguir um currículo. E você se condicionou a estudar o mínimo necessário e só pouco antes dos trabalhos ou provas. E as frequências das provas é sempre a mesma, provas bimestrais. E você sempre sabia o que estudar, porque já estava pré-definido. Todo mundo estuda o mesmo material, você nunca teve que escolher o que estudar.

Daí você entra na faculdade, e é mais ou menos a mesma coisa. Todo curso tem material pré-definido. Você tem as provas em datas pré-definidas. Talvez uma das poucas atividades que quebrem a rotina seja o Trabalho de Conclusão de Curso, o temido TCC. Que a maioria faz só na última hora mesmo que eu sei. Quem faz iniciação científica talvez tenha tido mais treinamento, mas no geral, você continua seguindo um currículo.

Parem pra pensar nisso: se você nunca repetiu de ano, você tem 21 ou 22 anos, recém formado da faculdade. E você passou uns 14 ou 15 anos da sua vida, ou seja, literalmente sua vida inteira seguindo uma receita pré-definida. É por isso que muita gente reclama quando entra no mercado de trabalho que a faculdade não preparou ele direito. Eu nem vou entrar no mérito da qualidade e da metodologia da educação moderna, e também não adianta chorar sobre o leite derramado. Só aceite que até o fim da faculdade, uma pessoa mediana só aprendeu a tirar 5 pra passar de ano e de repente não tem mais prova bimestral, não tem mais currículo, não tem mais professor “enchendo seu saco”. A partir de agora, todo dia é uma prova. Você só andou de bicicleta de rodinhas e do dia pra noite vai ter que aprender a fazer bicicross e saltar uma rampa por dia.

Eu não sei dizer exatamente quando, mas eu me dei conta disso no começo da faculdade. E tive a oportunidade de ir aprendendo a tirar as rodinhas da bicicleta aos poucos, caindo com mais tempo pra me recuperar, e foi um dos motivos de porque eu saí antes de terminar a faculdade, quando eu me vi já conseguindo me equilibrar na bicicleta sem rodinhas e tentando saltar a rampa antes.

No nosso mercado de tecnologia isso é difícil porque ele ainda não é maduro pra ser bem estruturado. Isso é ao mesmo tempo ruim e bom, bom porque significa que quem arrisca mais pode conseguir uma recompensa maior. Vamos deixar uma coisa muito clara: meu cérebro não é muito diferente do seu não. Não tem nada intrinsecamente codificado aqui que me faz automaticamente melhor que você. Eu aos 20 anos não sou diferente de você aí me assistindo, com seus 20. Na verdade eu diria que você aí com 20 muito provavelmente sabe mais e tem mais habilidades do que eu aos 20. Comece considerando o seguinte: você teve internet uma parte considerável da sua vida já, eu só fui ter acesso à internet, principalmente de noite, lá pros 17 ou 18 anos.

Eu nunca perguntei o que eu devia fazer pra ninguém. Claro, eu ouço, eu observo, eu faço perguntas objetivas, mas eu nunca tive uma gota de vontade de perguntar pros influencers da minha época o que eu deveria fazer. Aliás, eu nem lembro quem eram os influencers da minha época. Nunca perguntei pra ninguém se o que eu estou fazendo está “certo” ou não. E isso é outra razão de porque eu digo que ninguém deve me copiar. As pessoas são diferentes, eu sou do tipo que faz as coisas quieto e sem perguntar. Eu não faço enquete, não tenho paciência. Quando vêem eu já fiz.

Em termos de carreira eu nunca tive ídolos na minha área. Eu jamais segui e jamais seguiria ninguém cegamente. Todas as decisões importantes são minhas, certas ou erradas. Se eu tomar a decisão certa, 100% do mérito é meu. Se eu tomar a decisão errada, 100% do prejuízo é meu também. Quando um adulto fica inventando desculpa pelos prejuízos de suas más decisões e dizendo “ah, eu segui o que o fulano falou, mas ele errou e eu me fodi, esse cara é um bosta”. Não filho, o bosta é você. Ou então chorando coisas do tipo “ah, eu costumava admirar essa pessoa, mas o que ele falou hoje eu discordo, eu esperava mais dele”. De novo, o bosta é você, até agora você usou o que esse fulano fez ou falou e foi bom pra você, mas agora sua visão pequena de mundo entrou no caminho e de repente tudo que esse fulano representa pra você é nada. Isso diz mais sobre você do que sobre esse fulano.

Não existe e jamais vai existir pessoas perfeitas. Eu não faço nenhuma questão de concordar 100% com qualquer pessoa, de qualquer era. Eu aproveito os 20% que certas pessoas produziram e que são úteis pra mim, e ignoro os 80% que eu discordo. Não tenho vontade nenhuma de perder tempo fazendo linchamento público falando mal das partes que discordo só pra parecer ser o bonzão do Twitter. Na verdade é o oposto: eu sempre considero que todo mundo que se gaba fazendo linchamento público está se refletindo em quem está atacando. Esse tipo de pessoa eu só bloqueio. Eu tenho coisas mais úteis pra fazer com meu tempo do que tentar mudar a opinião xiita dos outros, prefiro gastar meu tempo jogando videogame. Aliás, outra dica aqui: se quem você segue gasta muito tempo falando mal dos outros e reclamando da vida publicamente, pare de seguir essa pessoa, você está perdendo tempo.

Eu digo isso porque eu vejo que a maioria das pessoas sente a tal pressão social de ter que fazer parte de algum grupo. Quando você se vê não se encaixando em algum grupo, você se sente o errado. No meu caso eu tive outra vantagem: eu sou descendente de japonês, e no meu caso, desde criança, eu nunca me encaixei em nenhum grupo e em muitos casos ainda as pessoas faziam questão de me deixar de fora dos grupos mesmo. O que eu ia fazer? Ficar me sentindo vítima da sociedade? Nah, eu simplesmente me acostumei a não fazer parte de nenhum grupo. Eu sou anti social, eu sempre me sinto melhor sozinho e de bônus não sinto ansiedade de estar indo contra algum grupo ou de não fazer parte de nenhum.

Uma coisa que eu repito que eu adoro na matemática é o seguinte. 2 mais 2 é 4, ponto final, do domínio dos inteiros pra imagem dos inteiros, é 4. Não importa se um milhão de pessoas derem like num tweet de um influencer dizendo que é 5. Foda-se, continua sendo 4 e ponto final. Quantidade de likes não torna uma coisa verdade. Se falou merda, continua sendo merda, não importa quantas milhares de pessoas concordem, pra mim é só milhares de pessoas repetindo merda. Zero pressão e não afeta minhas decisões.

Além dessa pressão social e tirando o fato que se você é jovem, nunca teve que decidir muita coisa. De fato, hoje em dia você tem acesso a informação demais, você tem escolhas demais, e isso deve ser bem estressante. É uma das razões de porque eu digo que o mundo hoje é melhor do que 20 anos atrás, ou 50 anos atrás. O mundo antigamente parecia mais “fácil” pros mais velhos porque não tinha muito o que escolher, não tinha nem informação suficiente. Considere que hoje você TEM opções pra escolher. Você só não sabe o que fazer com elas. Não é a toa que tem tanto psicólogo e tanto coaching hoje em dia.

Mas isso vai mesmo te deixar mais e mais frustrado, você acha que tá estagnado. Você não consegue enxergar o tal “futuro brilhante” do século XXI que te prometeram. Eu sei que estou sendo duro, mas preciso ser. Pare de terceirizar as decisões que você tem que tomar. Não faz sentido você me mandar 2 parágrafos de texto no direct message do Insta, do Twitter, do Face, do LinkedIn pra mim ou qualquer outro influencer e achar que vai ter uma resposta certa pra uma pergunta tão subjetiva. E o pior disso: algumas pessoas realmente acham que conseguem dar a resposta certa: suspeite dessa pessoa, ela provavelmente está tentando te vender alguma coisa.

Eu venho tentando responder com ponderação quando me mandam essas mensagens, mas vou dizer que não me sinto bem respondendo e cada vez mais venho postergando dar uma resposta. Porque as respostas nunca vão ser completas o suficiente. Mas mais importante: eu não tenho skin in the game. Se o que eu sugerir der errado, eu não vou sentir, você é que vai. Sempre se lembre desse conceito e jamais acredite em ninguém que te ofereça respostas fáceis pra esse tipo de pergunta, ele está querendo vender livros, cursos ou, deus me livre, coaching ….

Então como você deve fazer? Se você já tem 20 anos, não se preocupe. Você tem tempo de sobra pra errar. Erre rápido, assuma que errou, mude de direção, repita. Começou a ler um livro e está achando ele ruim? Pare de ler. Simples assim. O que a maioria das pessoas tem dificuldade em fazer é assumir custo perdido, e eu falei disso no meu video sobre prioridades. Você já leu vinte capítulos agora acha que precisa ler os próximos 50. Você não quer assumir o tempo que perdeu lendo esses vinte capítulos, então acha que precisa ler os próximos 50. Mas agora você perdeu o tempo de 70 capítulos, só isso. O mesmo vale pra cursos. O mesmo vale pra qualquer outra decisão.

Assuma que você nunca foi treinado pra tomar decisões. Assuma de uma vez que é impossível tomar decisões certas o tempo todo, prepare-se pra assumir algum prejuízo. E não tente achar que outra pessoa vai tomar uma decisão melhor que você, se isso acontecer eu diria que foi mais obra da sorte do que qualquer outra coisa. Especialmente se não foi uma conversa e sim uma resposta fácil. A única pessoa que pode de fato opinar com alguma propriedade é alguém que tem skin in the game: ou seja que vai cortar da própria pele se der errado. Se a pessoa pra quem você está perguntando não tem skin in the game, jogar cara ou coroa vai ter o mesmo resultado. Opinião é que nem bunda, todo mundo tem um.

Tudo é uma aposta. É impossível acertar todas. A melhor estratégia é ser anti-frágil ou seja, fazer apostas que se você perder, perde pouco, mas se ganhar pode ganhar muito. Não existe apostar sem risco de perder nada. Qualquer um que te prometa “ganhos garantidos” é um charlatão e você está entrando numa pirâmide. Vou repetir: não existe ganho “Garantido”. Eu diria até que tecnicamente o charlatão está dentro do seu direito. Quando ele escreve coisas do tipo “quer ser rico como eu” ou “ganho garantido” ele está explicitamente dizendo “ow, seu trouxa, me faça rico, me dê seu dinheiro”. Se as pessoas dão o dinheiro sem coerção, foi uma escolha. Simples assim.

Como eu disse no começo: a culpa de uma decisão errada é de quem toma a decisão errada. Pare de achar que existe almoço de graça, não existe. Pô mas as pessoas não deviam enganar as outras. Não deviam mesmo, é um incentivo econômico, enquanto você fica caindo, eles vão continuar. Se ninguém mais acreditar em conto de fada, eles deixam de existir. Olha só que mágico. Mas como isso nunca vai acontecer, em qualquer era da história sempre vai existir alguém que vai acordar de manhã pra procurar o trouxa da vez, só se certifique que não é você. Como se diria em poker, se você não sabe quem é o pato da mesa, o pato provavelmente é você.

Falando sobre tecnologia em particular, vou ser mais breve agora: pare de idolatrar palestras e artigos de grandes empresas. Vamos praticar o pensamento crítico: quando um engenheiro do Netflix vem, com toda boa intenção do mundo, explicar como eles resolveram o problema deles de suportar os mais de 100 milhões de assinantes, ele está dizendo exatamente isso: se você for o Netflix, tiver 100 milhões de assinantes, essa solução que ele está apresentando tem grandes chances de funcionar. Ponto.

Agora, a culpa é sua de decidir colocar a solução do Netflix no seu projeto que tem 2 desenvolvedores e zero clientes. Você pensa “se o netflix está usando e suporta tudo isso, pra mim vai ser melhor ainda”. Sério? Eu não consigo entender porque alguém pensaria dessa forma. Lembra da analogia da bicicleta? Você nem subiu na de rodinhas ainda, mas aí você assiste uma palestra, digamos, de um Lance Amstrong e ele fala que a bicicleta favorita dele é o Parlee Z-Zero que é uma mountain bike de mais de 8 mil dólares e você acha que se comprar essa bicicleta vai virar um recordista de endurance?

Eu espero que ninguém me assistindo agora pense assim, porém eu tenho certeza que muitos de vocês vêem palestras de engenheiros do Facebook, do Netflix, do Google, de empresa famosinha tipo Nubank, e toma decisões assim. Eu deveria escolher Clojure porque o Nubank usa. Eu deveria escolher React porque o Facebook usa, eu deveria escolher Go porque o Google usa. Da mesma forma que não tem nada de errado num Parlee Z-Zero, sério, é uma bicicleta excepcional, também não tem nada de errado num React ou Go ou Clojure ou qualquer outra tecnologia que eles falam. O errado é sua decisão.

Como eu disse no começo: se você é o CTO de uma tech startup que vale milhões, você nem precisa deste vídeo. Mas estou assumindo que a maioria me assistindo não está nessa posição. É a mesma coisa sobre os Squads do Spotify, se você está tentando copiar sem entender, você é um péssimo tomador de decisões. De novo, aqui está você tentando terceirizar sua decisão. Você é simplesmente preguiçoso, porque você não quer ter o trabalho de fazer a pesquisa, fazer provas de conceito e experimentos, testar as hipóteses pro seu contexto, errar e tentar de novo, e se contenta em dizer “se der errado, eu não ia fazer melhor, se a solução de um Spotify não funcionar, nada mais vai funcionar, paciência”. Puta que pariu, cadê a “ciência” em ciências da computação?

Contexto, contexto, contexto. Você tá no seu dia 1 ainda. O Netflix foi lançado em 97, provavelmente quase nenhum código que eles escreveram no dia 1 deles existe hoje. O Google foi fundado em 98, e de novo, quase nenhum código desse dia 1 existe hoje. O Facebook foi fundado em 2004, tão entendendo? Não se compare com eles hoje, se compare com eles no dia 1 deles. E no seu dia 1 você vai fazer merda, assume isso de uma vez. O código que você escrever hoje, se você for bem sucedido, vai ser uma merda pra crescer. Vai mesmo, mas se preocupe com isso quando você sobreviver e de fato estiver crescendo. No dia 1 sua preocupação não é se você tá usando kubernetes ou não. No dia 1 sua preocupação não é usar GraphQL. No dia 1 sua preocupação não é CQRS. No dia 1 sua preocupação é durar até o dia 2.

Pra não ficar mal entendido, obviamente eu não sou contra palestra de empresa grande não. Acho excelente eles compartilharem conhecimento. Eles estão explicando uma solução dentro do contexto deles, com recursos, infraestrutura e muita escala. Se um dia você chegar perto de uma fração do tamanho deles, deve valer a pena. O errado é seu processo de tomada de decisão, que nem começou a codar o produto ainda, e se baseia em “deixa eu ver se o Google usa” ou sei lá “se a Nasa usa” daí eu posso usar. Vai se fuder, Nasa? Você vai mandar foguete pra Marte?

Eu prefiro ser anti-frágil, eu prefiro saber as tecnologias populares pro curto prazo e fico aprendendo tecnologias que vejo potencial mas ninguém usa, ninguém fala muito a respeito, e não é tão fácil de saber. Assistiram minha história sobre Ruby on Rails? Em 2005 ninguém tava muito interessado, eu tive sorte e minha aposta deu certo. Hoje você usa produtos Rails todo dia como GitHub. Teve gente que entrou na onda de mobile quando devia: em 2010 e surfou. Tudo tem uma curva de adoção em S, começo devagar, adoção exponencial, e desaceleração. Daí vem a próxima curva. Nada dura pra sempre, e eu sempre aposto em 10 anos. Se eu tenho várias opções, mesmo que eu erre uma, se eu acertar as outras, meu prejuízo é pequeno. Anti-frágil não é prejuízo zero, é pouco prejuízo. Tente acertar 100% e você provavelmente vai entrar no caminho de perder tudo, é o cara que coloca todos os ovos numa única cesta apostando que achou a cesta mágica do IPO de unicórnio. Bullshit.

Lembram meu vídeo sobre Dimensão do Tempo? Se você tem 20 anos, eu falar em 10 anos é basicamente sua vida inteira. Você ainda não tem noção do que isso significa, pior, parece que é bastante tempo. Mas não é, 10 anos passa muito rápido. Quando você menos esperar já vai estar com 30 e se perguntando porque você ainda está frustrado e continua tão difícil decidir as coisas. E aqui vai minha resposta: não é porque o mundo está pior ou o “sistema não funciona”, é porque você não pára de terceirizar suas decisões.

Por último, parem de colocar expectativas irreais nas pessoas. Eu não sei tudo, façam a análise óbvia. Por exemplo, tem gente que me pergunta que curso eu recomendo. Eu não recomendo nenhum, primeiro porque eu não faço propaganda de graça. Segundo, eu já não faço mais cursos faz anos, portanto qualquer opinião que eu der vai ser baseado no que eu ouvi dos outros ou se eu conheço os donos ou quem faz o curso. Pode ser uma resposta razoável, mas não é o que você pensa. Qualquer um que te responda só pode dizer sobre o curso que ele fez, se gostou ou não, e só. Ou então se está ajudando o amigo que faz o curso. De novo, não é o que você quer saber. Então o que você faz? Pesquisa, vê os reviews, procura sobre a reputação, e tenta fazer. Se não gostar, desiste e faz outro, é a única forma objetiva de lidar com essas coisas. Agora, meu medo é eu responder “ah, ouvi dizer que esse curso parece bom”, daí a pessoa ouve e faz até o fim “porque o Akita recomendou”. Caraca, não né.

Repetindo o que eu faço: eu não tenho muito interesse na opinião dos outros não. Claro que eu ouço, de vez em quando, mas é só uma referência. Na verdade eu sou chato, eu sou do contra por padrão. Eu fui consultor por muitos anos, minha profissão era achar defeito nas coisas. Então qualquer um que me venha com uma opinião vai ter que se esforçar muito pra me convencer. Se conseguir me convencer, só ganhou minha atenção. Agora, da minha atenção pra ganhar meu interesse são outros quinhentos.

Eu não consigo entender porque tem gente que procura tanto opinião, por exemplo, de artistas sobre coisas que não tem a ver com arte. Da mesma forma que eu não imaginaria porque alguém iria querer ouvir minha opinião sobre coisas que não tem a ver com tecnologia e cultura geek. Se eu der qualquer opinião aqui sobre gastronomia, ou sei lá, política, duvidem muito de mim, eu não gastei anos estudando pra saber. Pra começar porque eu tenho zero interesse em política.

Eu evito ansiedade desnecessária assim: eu ativamente me esforço pra saber só o mínimo sobre coisas fora das minhas áreas de atuação. Eu me interesso em princípios e fatos, opiniões são opcionais. Se os princípios fazem sentido, e se os fatos batem, de novo, talvez tenha minha atenção. Eu não assisto TV faz anos, nem assino. Não leio portais de notícias e muito menos jornais. Shows de celebridades então, nem sei quem são os de hoje em dia. Eu tenho mais gente bloqueada e silenciada no meu Twitter do que gente que eu realmente sigo. Nada disso afeta meu lucro no fim do dia.

Se você se acostuma demais a terceirizar suas decisões, e se você se acostuma a reclamar demais em rede social, e toda vez alguém aparece pra concordar e validar sua opinião, o que é você? Uma pessoa sem controle da própria vida, buscando validação de um grupo semelhante, reclamando do seu celular importado, com internet banda larga, tomando café gourmet, do sofá de casa, com netflix ligado na sua frente, muitos inclusive morando fora do país, sobre como a vida é difícil e você é uma vítima da sociedade. Ah vá.

O resumo deste video já está logo na introdução, mas eu realmente queria gastar o tempo pra elaborar esse pensamento um pouco porque eu realmente acho que se entendido corretamente é uma das coisas mais importantes que vai fazer diferença pra você. Quanto mais cedo você entender isso de verdade, melhor. Assuma suas decisões. E se você aprendeu alguma coisa nos meus materiais e teve bons resultados, o mérito não é meu, o mérito é seu que escolheu e decidiu usar de alguma forma.

Enfim, foi um longo rant só pra dizer pra pararem de perguntar o que vocês devem fazer com suas vidas. Se vocês tem dúvidas objetivas, técnicas, mensuráveis, então não deixem de mandar nos comentários abaixo, se curtiram o vídeo deixem um joinha, assinem o canal e não deixem de clicar no sininho pra não perder os próximos episódios. Se conhecem alguém que tem esse mal de terceirizar as decisões pros outros, compartilhem esse video. A gente se vê, até mais!

05:45 - 5 anos 08:54 - faculdade 10:33 - manifesto 13:49 - mundo melhor 15:47 - prioridades 20:21 - squads 22:40 - rails 23:27 - tempo

Faz anos que eu recebo o mesmo tipo de pergunta toda vez, mais agora por causa do canal.

“Akita, o que você recomenda que eu faça na minha carreira?”

“Akita, o que eu deveria aprender primeiro?”

“Akita, tenho família pra criar, como eu mudo de profissão sem arriscar eles?”

E por aí vai.

Hoje eu vou meio que não responder e responder ao mesmo tempo. Mas eu quero ir além e explorar como você mesmo deveria pensar sobre essas perguntas pra chegar na melhor resposta pro seu caso.

E ao mesmo tempo quero tentar explicar como você deveria pensar pra não ser enganado por charlatães que te oferecem respostas atraentes e fáceis.

== PARA OS VIDEÓGRAFOS

Se você assistiu meu video anterior onde eu explico sobre as configurações do meu equipamento e cenário, lembram que o áudio estava ruim, porque eu testei gravar ligando o microfone direto na câmera.

Não tem jeito, um gravador bom separado tem qualidade melhor. Então eu liguei o Rode Wireless Go no gravador Tascan pra poder ter microfone de lapela sem fio.

E na configuração da minha Canon Rebel T7i eu subi o shutter speed de 30 pra 60 como recomendaram, mantive o aperture em f/1.4 e subi o ISO de 100 pra 200 e acho que ficou melhor.

O que acharam?

tags: carreira autodidata vida decisões

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