[Akitando] #50 - A Bolha de Startups vai Estourar? | Winter is Coming

2019 June 11, 17:00 h

Você está iniciando neste mercado de tecnologia ou está atuando nele faz menos de 10 anos.

Primeiro, quero introduzir um pouco minha filosofia do que é ser um "profissional" de desenvolvimento de software; tema que vou explorar mais nos próximos episódios.

Segundo (17:25), quero apresentar uma análise sob a ótica de quem está neste mercado desde os anos 90 e tentar explorar uma possibilidade que mais e mais está se solidificando: a de que estamos chegando ao fim de um período de bolha de tech startups.

Será que o Inverno está chegando para o mercado de tecnologia? E como você deveria se preparar se for esse o caso?

Disclaimer: tudo que estiver neste vídeo é uma opinião pessoal baseada na análise e experiência do autor. As previsões não tem nenhuma garantia e não devem ser usadas para operar em mercados de ações.

Links:

=== Script

Olá pessoal, Fabio Akita

Finalmente estou de volta! Passei um mês fora do canal, duas semanas foi viajando a trabalho e duas semanas de pausa mesmo.

Antes de começar, quero aproveitar pra convidar todo mundo pro evento que eu e minha empresa Codeminer, junto com a InfoQ Brasil, organizamos todo ano. A The Conf, que está com a grade completa e com ingressos à venda. Veja mais sobre o evento nesse vídeo linkado acima e nas descrições.

Se você ainda não assistiu a série anterior com conceitos básicos de computação, recomendo que cliquem no link acima pra acessar a playlist, também vou deixar nas descrições abaixo. O canal está acumulando vídeos sobre o que eu acho essencial que todo programador deveria saber.

Sendo bem honesto voltar pro canal tem sido bem difícil. Andei passando por um bloqueio criativo e ainda não estou muito seguro sobre quais temas quero falar nos próximos episódios, se vocês tiverem sugestões não deixem de mandar na seção de comentários abaixo pra me ajudar a decidir.

Enquanto isso, continuando um pouco na vibe dos episódios anteriores, queria falar um pouco sobre assuntos que deveriam preocupar quem está iniciando na carreira de programador. O episódio de hoje vai ser dividido em duas partes, primeiro uma parte mais filosófica, segundo uma parte mais prática. Se você já é programador experiente talvez queira ir direto pra segunda parte nesse tempo aqui embaixo. Se você tem pouco mais de 20 anos, talvez você não consiga enxergar o que está acontecendo.

(...)

Vamos começar do começo. Alguém que se forma chef provavelmente gosta de cozinhar, gosta de preparar boa comida, escolher bons ingredientes, e criar uma boa experiência pros seus clientes. Alguém que se forma músico, gosta de sons, melodias, arranjos e instrumentos, e criar uma boa experiência pra quem está escutando. Alguém que se forma um esportista gosta de se exercitar, puxar limites, pontuar e competir, e criar uma boa experiência pros seus fãs. Alguém que se forma programador gosta de programar, de combinar tipos diferentes de código, solucionar problemas com código, e resolver problemas reais pros seus clientes.

E é simplesmente isso. Para ser um bom programador o mais importante é gostar de programar, ser obcecado pela pura atividade de fazer código somente pelo código. Experimentar diferentes combinações, experimentar diferentes ferramentas, diferentes hardwares. Tudo que tem a ver com a arte de combinar códigos diferentes para se chegar na mesma solução de formas mais eficientes ou simplesmente esteticamente diferentes. Programar pelo ato de programar.

Claro, como em qualquer profissão de prática, existem diversos outros aspectos que podem chamar a atenção. Aspectos sociais, aspectos políticos, aspectos financeiros. Mas tudo isso é secundário. A função de um programador é a programação. Ou você aprecia a prática de programar ou nunca será um bom programador. Desde o fim dos anos 80 eu sempre gostei de experimentar código. Simplesmente digitar código mesmo que não tivesse nenhum fim a não ser eu ver ele sendo executado logo depois de ter digitado. Quando eu comecei a programar eu nunca programei com o objetivo de ser bem remunerado ou qualquer outro objetivo.

Escrever código é uma coisa muito simples. Qualquer idiota consegue copiar e colar algum código, modificar algumas poucas coisas e fazer rodar. É extremamente simples. Alguém que nunca programou, se não for muito burro, é capaz de seguir um tutorial na internet e escrever algum código. Isso não o torna um programador.

Cozinhar é uma coisa muito simples. Qualquer idiota consegue abrir um livro de receitas, separar ingredientes, jogar tudo numa panela, ligar o fogo e no final, se não for muito burro, vai ter alguma coisa minimamente comestível. É extremamente simples e milhões de pessoas fazem isso todos os dias de alguma forma. Alguns até cozinham todos os dias, o mesmo arroz com feijão e ovo frito. Obviamente não tem nada de errado nisso, mas isso não o torna um cozinheiro profissional, nem muito menos um chef.

Um Michelin 3 Estrelas é um reconhecimento para poucos. As 3 estrelas num restaurante indicam que a Michelin acha que se você viajar para um país somente para ir nesse restaurante, é uma experiência de valor e recomendada. É o reconhecimento de anos, décadas de treinamento deliberado, desde a fase de descascar batatas todos os dias, cozinhar dia e noite em dezenas de restaurantes como ajudante, tudo em benefício de refinar a própria arte, até o ponto de ser capaz de montar, administrar, e entregar uma experiência diferenciada no seu próprio restaurante. Não só com um menu fora do comum, mas a experiência completa, do momento que se cruza as portas na entrada até o pagamento na saída. Alguém que simplesmente sabe seguir receitas, não importa se cozinhou todos os dias nos últimos 10 anos, continua milhas de distância de ser um Chef Michelin 3 Estrelas.

No mundo da programação um Turing Award talvez seja o mais próximo de um Michelin 3 estrelas, e novamente é um reconhecimento para poucos. O que eu quero dizer é que do ponto onde se começa, seguindo uma receita sem saber muito bem porque está seguindo esses passos até uma premiação rara existe uma distância gigantesca que é para poucos.

A grande maioria dos cozinheiros do mundo nunca vai chegar nem perto de um Alain Ducasse ou Gordon Ramsay da mesma forma que a grande maioria dos programadores, eu incluso, nunca vamos chegar a um Djkstra ou Knuth ou Tim Berners-Lee e ganhar um Turing Award. Mas eu acho importante ter essa noção de que existe essa distância entre o começo e o fim.

Por alguma razão, eu sempre gostei de usar a carreira de um chef como metáfora à carreira de um programador. Ambas são o que eu chamo de profissão de prática. Existem profissões onde o teto é bem baixo, onde você aprende um procedimento e com pouquíssimo tempo de prática você já consegue trabalhar e não importa quanto mais praticar a partir desse ponto, seu resultado nunca vai ser muito melhor do que quando começou. Sem querer menosprezar, mas qualquer trabalho de repetição é assim: seja um caixa de supermercado, um operário numa linha de produção, ou um motorista de táxi.

Um programador se torna melhor quanto mais pratica; mais importante, quanto mais pratica deliberadamente como eu expliquei nos meus episódios sobre Talento: Matando Semi-deuses. Assim como um chef nunca vai sair do lugar se fizer o mesmo ovo frito todos os dias, também um programador nunca vai sair do lugar fazendo o código do mesmo jeito todos os dias. O mesmo vale pra qualquer profissão de prática: seja um esportista, um músico, um escritor, um pintor, um fotógrafo, um jornalista. É a enorme diferença em dedicação deliberada entre um jogador de futebol de várzea de fim de semana e de um jogador de seleção profissional.

Eu faço questão de explicar dessa maneira porque muitos não entendem isso quando está começando. Por exemplo, muita gente ainda associa que programar é algo que você só faz durante o horário de trabalho. Que você precisa ser remunerado para começar a digitar o código. E que esse código, depois que está pronto, é algo que precisa ser preservado. Muita gente é resistente a apagar o próprio código, muita gente é resistente a aceitar críticas sobre o próprio código. “Eu sou formado em computação” eles pensam “lógico que meu código é bom, como ousa questionar?”.

Uma coisa comum em toda profissão de prática é que tudo que você faz nos primeiros anos é basicamente porcaria. Aceite essa realidade. Não estou dizendo 100% mas uma parte considerável de tudo que você produzir nos primeiros anos, talvez na primeira década, vai ser medíocre. E se você não tomar cuidado, não estiver prestando atenção, não estiver consciente e deliberadamente treinando, tudo que você produzir vai ser lixo. Pense seu primeiro dia numa cozinha de restaurante, tendo que atender dezenas de pedidos e entregando tudo no tempo certo e na qualidade certa. É absurdamente difícil, a pressão é enorme, e você não pode errar. Com o tanto de reclamação e mimimi que eu ouço de programadores que trabalham em lugares com ar condicionado e café quente, batendo cartão das 9 às 5, eu diria que nenhum deles aguentaria trabalhar um dia na cozinha de um restaurante de verdade, mesmo se fosse só lavando pratos.

A primeira coisa que você precisa separar é o código que você faz no trabalho e o código que você faz fora do trabalho. E sim, precisa ter os dois. Seja no seu primeiro ano de carreira, seja no décimo ano. Ou você acha que no começo de carreira, um Gordon Ramsay só treinava no horário de trabalho? Durante o horário de serviço de um restaurante você já tem que saber exatamente o que tem que fazer, ou seria impossível entregar os pratos certos, na qualidade certa, no tempo certo. Durante o trabalho você precisa entregar o melhor resultado do seu treinamento prévio. Mas aí a questão é, quando você treina? E a resposta não é agradável pra quem entrou nessa área sem realmente gostar: é em todo tempo que tiver disponível, especialmente no começo da carreira.

Quando as pessoas falam que as faculdades não te preparam pro mercado de trabalho, especialmente as mais voltadas à ciência da computação, e muita gente prefere os cursos técnicos porque você sai com mais facilidade pra conseguir trabalhar, a percepção não está errada mas a o pensamento está errado. De fato, quando você se forma como bacharel em ciências da computação, se a única coisa que você fez foi aparecer nas aulas, estudar o suficiente pra tirar 5 nas matérias e passar na média, você não sabe fazer nada quando se forma. Se por outro lado você usou esse tempo pra estudar pra tirar 10, participou de todas as opcionais que pôde, fez grupos de prática com seus amigos e professores, e praticou o quanto pôde, ainda assim você ainda não vai estar pronto, mas vai saber uma coisa que seus colegas da média não sabem: como praticar.

O que ninguém nunca vai ter quando sai da faculdade se chama prática. Óbvio, pra ter prática, você precisa praticar. Se você treinou uma hora, todo dia, o ano todo, no máximo praticou umas 300 horas. Isso é extremamente pouco. Pra comparar, um mês de trabalho de 8 horas são apenas 170 horas.

Quantas horas você acha que precisaria praticar pra conseguir cozinhar pratos diferentes durante as 5 horas do serviço de almoço de um restaurante? Quantas horas você acha que precisaria praticar pra conseguir competir num jogo profissional de campeonato e não passar vergonha? Quantas horas você acha que precisaria praticar escrevendo pra conseguir ter nível suficiente pra publicar um livro que não fique pegando pó nas prateleiras? E por que você acha que com programação seria diferente?

Agora, profissões de prática tem uma armadilha. Eu chamo da armadilha dos 80/20 e eu já falei disso em outros episódios mas vou repetir hoje de novo. Digamos que você está começando a programar, você notou que essa bibliotecas open source do Facebook, o React.js, tem uma boa demanda. Você resolve fazer um curso ou mesmo estudar aulas online sozinho. Com umas 40 horas de aulas você já é capaz de realizar tarefas simples. Se você tiver a oportunidade de integrar uma equipe em alguma empresa e se não for muito burro, com alguns dias apanhando você já será capaz de entregar algumas tarefas de verdade.

Em algumas semanas você vai ganhar confiança nesse assunto, aprender mais alguns truques. Em dois a seis meses, se você não for muito incompetente, já vai ter adquirido uma boa fluência. SIm, é pra ser assim rápido mesmo. Na minha metáfora da cozinha, é como você comprar um livro de receitas, ou fazer um curso rápido de cozinha, se você não for do tipo que reprova num teste psicotécnico e souber seguir instruções básicas, até você vai conseguir montar, digamos, alguns tipos diferentes de sushi em poucos dias. É muito simples. Em algumas semanas você pode até estar preparando pros seus amigos e alguns deles podem até gostar.

Em profissões de prática, sabendo muito pouco, você se torna capaz de entregar alguma coisa. Você se sente empoderado. E isso é um sério problema. Aceite a realidade, que nesse estágio, você continua não sendo muito melhor que um hobista amador. Está longe, mas milhares de milhas de distância longe, de ser melhor que um profissional em nível junior. Claro que não existem tempos pré-definidos, algumas pessoas são mais dedicadas do que outras, mas no geral, ninguém deixa de ser júnior em menos de 1 ano. E não se sinta um sênior antes de 5 anos pra mais se, e somente se, você se expõe a muitos cenários diferentes de prática deliberada.

Muitos que não são da área podem ficar impressionados com o que você entrega e isso é óbvio, porque quem está elogiando não é ele mesmo um praticante, então tudo que um amador faz já parece impressionante. Mas um sênior de verdade sabe identificar facilmente e sem ambiguidade um outro sénior, assim como um jogador profissional nunca vai ser enganado em campo por um amador. Basta chutar a bola pra ele no meio da pressão do jogo e ver como ele se sai.

No começo de carreira, pare de ficar neurótico com questões de remuneração. Primeiro de tudo aceite outra noção: não existe média salarial. Eu quero falar disso em outro episódio, mas todo mundo tem mania de querer aplicar média em tudo. Média não se aplica em tudo. Média só se aplica em eventos independentes. Altura de uma população, notas numa prova. Salários não são eventos independentes. Diversas variáveis influenciam todos os salários por todo o mercado ao mesmo tempo. Salários se distribuem numa curva diferente da gaussiana. Apesar de não ser estatístico eu diria que elas se aproximam mais de distribuições Power Law, uma distribuição cuja característica é não ter média.

Você já viu distribuições assim, o 80/20 de Paretto que foi usado pra descrever como 80% das propriedades estão na mão de 20% das pessoas. Essa distribuição é o que define quase tudo no mundo real. Por exemplo, seguidores em redes sociais. Não existe média de seguidores. Você tem 20% das celebridades acumulando 80% dos seguidores. A mesma coisa pra séries de TV mais assistidas, 20% das séries produzidas acumulam 80% da audiência. A mesma coisa pra música. A mesma coisa pra qualquer coisa do mundo real. E salários é a mesma coisa. Se você pegar mesmo dentro de uma mesma empresa você vai ter essa distribuição do maior pro menor salário, 20% das pessoas podem receber 80% da folha de pagamento, ou algo nessa proporção.

Não parece justo como seria numa distribuição gaussiana, que tem média. E não é pra ser justo, o mundo não é justo. Por outro lado significa que seu salário não precisa crescer de forma linear, constante. Ou seja, se você ganha hoje 1000 reais e ganhou um aumento de 100 reais depois de um ano, não é verdade que você só tem como aumentar mais 10% ano que vem. Você pode dar salto maiores, 15%, 20%. Você tem a oportunidade de dar saltos grandes quando conquistar seu lugar pela sua competência. Essa é a beleza dos mercados. Se 80% da riqueza está na mão de apenas 20% das pessoas, também significa que os acomodados e os que gostam da zona de conforto vão ficar eternamente disputando os 20% que sobram dessa riqueza com os outros 80% acomodados.

Voltando ao assunto, eu disse que com pouco conhecimento, digamos 20% do que você deveria saber, você esteja nos 80% dos menores salários. É óbvio que uma hora você vai ficar impaciente e frustrado por nunca ganhar mais. Mas claro, você acha que sabe o suficiente porque sempre consegue entregar o que te pedem. Mas você só consegue entregar poucos tipos de coisas. Você é um cozinheiro que toda vez que te pedem ovo frito, você entrega o ovo frito. Só que você só sabe fazer ovo frito. Quando te pedem salada, você se esconde atrás de “eu não faço pratos vegetarianos”. É como o junior de React que falei acima quando pedem pra subir um Docker “eu sou front-end, não faço devops”. Bem vindo aos 80% da população.

Notem que no começo eu tentei descrever um tipo muito particular de profissional: os que respeitam e apreciam a prática, não os que querem aprender meia dúzia de truques e ganhar salários que magicamente sobem todo ano. Um diploma, um certificado, uma validação de alguém, ou entregar o básico, não te garantem nada, absolutamente nada. Você nunca vai subir na carreira fazendo sempre variações da mesma coisa, do mesmo tipo de código, do mesmo tipo de prato.

Faça a conta mais básica: se chegar nesse ponto foi razoavelmente fácil pra você, também é fácil pra milhares de outras pessoas que estão ingressando todos os dias no mercado de trabalho e estão se tornando seus competidores. Você fica feliz de ver que a barreira de entrada está cada vez menor, e que toda hora todo mundo gosta de ficar cantando como é fácil qualquer um ser programador? Preocupe-se. Lembre-se da lei mais básica do mercado: a lei da oferta e da procura. Quanto maior é a oferta de programadores, se a demanda do mercado não cresce na mesma proporção, tecnicamente a remuneração desse tipo de programador tende a cair.

Se não ficou claro nos meus últimos vídeos, eu contei a história de como até 2001 programadores ruins eram remunerados muito acima do que deveriam, porque todo mundo investia nas ponto com como se fossem minas de ouro. Foi a grande era da exuberância irracional na tecnologia. Daí a bolha da internet estourou e de repente programadores ficaram sem emprego. Some a isso a terceirização em massa pra Índia e a profissão sofreu uma queda enorme, principalmente nos Estados Unidos. Demorou anos pro mercado se estabilizar e voltar a crescer.

Daí em 2008 e 2009 tivemos a grande crise do sistema financeiro que causou uma queda global em todos os mercados e a recuperação que tivemos no mercado de tecnologia também sofreu uma queda. Ao mesmo tempo, durante a crise, muitos começaram a acreditar que inovações da época nos mundos de cloud, big data, coletar dados massivos dos usuários, e a recém-inaugurada era dos apps mobile por causa da revolução do iPhone, poderiam se tornar grandes investimentos.

Mas ao mesmo tempo iniciou uma era de novas tech startups que 10 anos depois se tornaram unicórnios. Uber, Airbnb, GitHub, Instagram, Snap, Pinterest, Netflix, e dezenas de outros. Se você só vivenciou este mercado a partir de mais ou menos 2009, você cresceu dentro de uma bolha onde parece que tudo vai crescer pra sempre. Sinto lhe informar que em breve essa bolha vai estourar, como sempre estoura. Não é um talvez, é só uma questão de quando exatamente.

Deixe eu ilustrar. O Google tem uma ferramenta que eu acho muito interessante. O Google Trends que mostra um gráfico com o interesse por um certo termo ao longo do tempo. Se procurarmos “tech startups”, você vai ver que como eu falei, depois de 2008 a tendência veio sendo de alta, mas já faz alguns anos que parou de crescer, está andando de lado, em breve deve cair.

Se procurarmos por “Techcrunch” que é uma das principais publicações sobre tech startups, você vai notar que, se antecipando à tendência, desde pouco antes de 2008 ele veio crescendo, atingiu pico em 2011 mas desde então já reverteu e só vem caindo. Mesmo se procurarmos sobre o famoso Node.js do mundo de Javascript, você vê que desde 2009 ele veio crescendo em interesse até bater o pico por volta de 2014 e 2015 e desde então já reverteu a tendência.

Dependendo do que procurar sobre o assunto, vai ver que as tendências vieram crescendo e já atingiram um pico e estão revertendo ou estão começando a confirmar uma resistência. Se eu tivesse que chutar eu diria que o mercado pode começar a ficar muito diferente a partir de 2021 já. Talvez leve ainda um pouco mais de tempo. Eu venho esperando por esse novo ciclo faz tempo já e no fim do ano passado, quando a Nasdaq sofreu uma queda que pegou muitos de surpresa, todos os analistas financeiros começaram a concordar com esse cenário. A partir de fevereiro deste ano você podia ver na Forbes, Financial Times, Washington Post, The New York Times, CNBC, todo mundo chegando às mesmas conclusões. Os investimentos no mercado de tecnologia estão crescendo de forma desenfreada faz 10 anos, existe liquidez excessiva no mercado. Só em 2018 surgiu um novo unicórnio - que são empresas avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares, a cada 4 dias. São mais de 300 unicórnios pelo mundo somando mais de 1 trilhão de dólares em valuation.

Pra piorar, os IPOs desses unicórnios vem se provando muito abaixo das expectativas. Segundo a CNBC, o IPO do Snap que saiu em março de 2017 começou a 17 dólares por share, chegou a dar um pico positivo de 44% no primeiro dia mas desde então caiu pra 11 dólares por share. A Blue Apron abriu IPO com 10 dólares por share em junho e agora está a 3 dólares. A Fitbit abriu em 2015 a 45 dólares por share e agora está a 5 dólares.

Duas estrelas dessa geração de unicórnios, a Lyft abriu IPO este ano com shares a 88 dólares e hoje está na faixa de 61 dólares. Mesmo o Uber começou em queda e está perto do mesmo preço de abertura, nada bombástico. Antes do IPO tinha um valuation de mais de 80 bilhões de dólares, os otimistas esperavam que depois de abrir capital ele subisse pra 120 bilhões, mas isso não se concretizou. E ela representa o tipo de startup que veio sendo criado nesses últimos anos: com receita de 11 bilhões, prejuízo operacional de 3 bilhões e déficit de 8 bilhões. A exuberância irracional dessa bolha criou empresas que trabalham com cash flow negativo.

Vamos colocar dessa forma: eu tomaria cuidado em apostar numa tech startup que opera com cash flow negativo, ou seja, que não dá lucro e não tem planos no curto prazo pra reverter. Especialmente se você estiver apostando morar fora do país ou algo assim. Esses planos vão ser cortados muito em breve. Ninguém é capaz de prever o futuro, tudo isso pode não se concretizar. Mas ser antifrágil significa apostar em alguma coisa que, se você perder, não vai fazer falta, mas se ganhar vai ser muito. Se você for sentir falta do que perder, não aposte. É a regra básica de todo investidor.

Segundo a Forbes as valuations de unicórnios estão ridiculamente inflados. Quão inflado? Um estudo de 135 unicórnios americanos, os que foram avaliados valendo mais de 1 bilhão de dólares, sugere que depois de ajustar termos que inflam valuation como diferentes classes de ações, pelo menos metade, 65 dos 135 perdem o status de unicórnio. Como a Forbes descreve, é um monte de mulas disfarçadas.

Uma das desculpas pra essas valuations absurdas é que a prioridade número 1 é aquisição de clientes e data mining dos dados dos usuários. Muitos tem considerado isso até mais importante do que receita e lucro. Você ficou chocado com o vazamento dos dados da Cambridge Analytica no escândalo do Facebook? Você trabalha em tech startups de cashflow negativo? Parabéns, você faz parte do modelo de negócios de acumular e vender dados de usuários.

Assim como foi no ano 2000, pré crash da bolha da internet, os empreendedores acreditam que simplesmente funding de venture capital é um modelo de negócios em si mesmo, o que é absurdo. Eles realmente acreditam em dinheiro que nasce em árvore. Considere que 80% das empresas que abriram capital ano passado não são lucrativos, o maior número desde o pico da bolha das ponto com em 2000 quando 81% das empresas que abriram capital naquela época não tinham lucro.

Foi em 2009 que você viu surgindo o movimento de Lean Startups por causa do livro de Eric Ries, o surgimento acelerado de co-workings como WeWork, incubadoras, e venture capital que começou a aparecer. Pense que por coincidência tudo convergiu nesse momento. As tecnologias de internet ganharam escala principalmente depois do surgimento da AWS em 2006, a idéia de web applications que competem com aplicativos nativos de desktop depois do Gmail também de 2006. O crescimento exponencial das redes sociais por causa do boom do Facebook. A revolução do iPhone em 2007 e do lançamento da App Store em 2009. Tecnologias de geolocalização, a possibilidade de big data, o barateamento da banda larga e de armazenamento possibilitou coisas como Dropbox.

Tivemos a crise de 2008 e 2009 onde o sistema financeiro entrou em colapso e deixou milhões desempregados e a inovação tecnológica permitiu muita gente se recolocar como motoristas de Uber ou Lyft ou alugar suas casas vai Airbnb, plataformas como Shopify, Wix, Square, tornou mais fácil pras pessoas abrirem micro-empresas. Plataformas de compra coletiva como Groupon explodiram entre 2010 e 2011. A tecnologia nesse ponto ganhou figura de salvador da pátria e o mercado de SaaS ganhou força como a fundação desse novo crescimento.

Mas tudo isso já está chegando ao fim. Como diria George Santayana, aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repetí-la. E de fato, eu lembro da devastação que foi o crash da bolha das ponto com. O mercado perdeu todo o seu valor, levou 2 décadas pra recuperar e hoje já mais que ultrapassamos o pico da exuberância irracional daquela época. E novamente citando ditos populares: quanto maior o tamanho, pior vai ser a queda.

Eu gosto de ser conservador, eu detesto ser otimista demais porque os otimistas são os primeiros a cair quando uma crise aparece, especialmente uma que já está dando sinais cada vez mais claros. Eu sou um cético pragmático. Eu já sobrevivi a 2 ou 3 grandes crises. Sobrevivi os anos 90, os anos 2000 e os anos 2010, cada década teve uma crise e eu realmente nunca tive grandes problemas durantes esses períodos de transição. E o ponto de dizer tudo isso é porque durante minha carreira eu segui exatamente a descrição acima sobre a minha profissão. Quando o mercado acumula gente demais e de repente a demanda some, quem você acha que as empresas mantém e quem você acha que elas abandonam?

Se você se manteve firme na sua profissão, acumulou conhecimento, acumulou prática, e começou pouco a pouco a ser capaz de manter expectativas, ou seja, você é o tipo que promete o que entrega, do jeito que prometeu, no custo que prometeu, no tempo que prometeu e na qualidade que prometeu, e ainda é do tipo que às vezes consegue surpreender entregando mais do que prometeu e consegue fazer isso com consistência, ao longo de muito tempo, sem nunca se valer de muletas como desculpas e histórias pra esconder seus erros, você sempre vai ter empregos bem remunerados. Independente se está num período de crise ou não.

Se por outro lado você associa sua profissão diretamente com brindes imbecis como um nespresso ou piscina de bolinhas ou sala de xbox, que acha que já é bom o suficiente porque alguém te dá feedbacks positivos com frequência, que acha que sua “qualidade de vida” de trabalhar menos de 8 horas por dia é a prioridade e por isso só programa durante o horário de trabalho, e ainda programa pouco porque procrastina a maior parte do tempo fazendo fofoca no whatsapp. Gosta de ir em evento porque é mais um dia que não precisa trabalhar e ainda ganha pra isso. Fica mudando de emprego com frequência porque outra empresa te paga um pouco melhor pra fazer a mesma coisa. Bom, boa sorte pra você na próxima crise.

A maior recompensa sempre vem praqueles que jogam o jogo do longo prazo. Os que procuram ganhos de curto prazos tendem a ser varridos da história. Sua profissão é programação, espero que você goste de programar. Pare de ouvir auto-ajuda glorificada de celebridade de startup ou fake coach ou fake mentor. As contas precisam sempre fechar, gastos desenfreados, sem um retorno sustentável, é claramente uma bolha. Ou você acha que piscina de bolinhas serve pra alguma coisa a não ser ostentação? Aliás, aproveitando, da próxima vez que você ver um “coach de inovação”, me façam um favor, perguntem pra ele quantas patentes ele tem. Ou se achar um mentor de empreendedorismo, perguntem pra ele quantas empresas lucrativas de mais de 10 anos ele tem.

O recado é muito simples, se você for um aventureiro especulador e quiser navegar na onda de dinheiro fácil, ainda é possível. Os aproveitadores de plantão estão todos fazendo isso. Mas se você está no papel de quem está acreditando em papai noel e em dinheiro infinito, negligenciando sua carreira em troca de promessas de stock options ou algo assim, sinto dizer que a maioria de vocês vai perder. Aliás, nunca caiam no golpe das stock options. Em resumo muito resumido, o conceito é te pagar menos em troca do direito de ter opções de compra das ações quando a empresa abrir capital. Porém, quando isso acontecer, você tem a opção da compra que você precisa exercer, … duh comprando as ações. Só que você veio ganhando menos do que normal e ainda vai precisar acumular dinheiro pra exercer essa compra. E nada garante que você vai se dar bem. Veja os casos da Amazon ou do Uber. Entenda uma coisa: os únicos que vão ganhar dinheiro de verdade são os venture capitalists, e eles não estão errado. Você com sua stock option, ainda pode ser diluído e o que for exercer não valer quase nada. Problema seu que acredita em conto de fadas.

E apesar de parecer uma mensagem apocalíptica, se o cenário que eu descrevi acontecer, eu consideraria uma correção saudável. Nenhum mercado se beneficia de crescimento constante. Mercados precisam de correção. Mesmo depois do crash das pontocoms e centenas de empresas falindo e milhares de desempregados, o resultado ainda assim foi bom. O legado da exuberância do ano 2000 foi a colossal infraestrutura de fibra ótica que foi construído no meio da loucura acelerada. Foi isso que possibilitou as redes de banda larga cabeadas e wireless e a exploração das tecnologias de smartphones. Como disse a The Guardian, alguma coisa positiva sobrou de toda a loucura. Mas esta atual bolha? Já que ela não construiu grande coisa, o que vai deixar pra trás vai ser só um sorrisinho amarelo, como em Alice no País das Maravilhas.

A maioria dos grandes unicórnios surgiu no vácuo da crise financeira de 2008 e 2009. Porém, chegaram no ponto onde eles precisam abrir capital pra continuar crescendo no ritmo absurdo de agora. E é quando o capital é aberto que a verdade aparece e todos vão ver que a valuation que acreditavam na verdade não existe e isso gera desespero e uma corrida pra vender e estancar o sangramento, e quando isso começa a acontecer de forma generalizada, é quando vamos ter o crash. O fato é que a grande maioria dos unicórnios de hoje não valem uma fração do que os investidores acham que vale. Em algum momento essa conta tem que fechar, e não vai. E sob as cinzas dessa geração é que vai surgir o ciclo dos próximos 10 a 20 anos. Eu mal posso esperar.

A idéia do episódio de hoje foi delinear um pouco da filosofia que eu vejo em profissões de prática por gostar da prática em si. E não em profissão enquanto aprender procedimentos rápidos pra ganhar dinheiro rápido, cego por estar num mercado com alta demanda, num ciclo que pode estar acabando. O recado é muito simples: você está vivendo hoje num mercado que globalmente paga mais do que se deveria, fique esperto, essas coisas nunca duram. Se você está sentindo dificuldades hoje, vai ficar pior. Por outro lado, quem está conseguindo se enganar surfando na onda, vai tomar um caldo muito em breve.

Nos próximos episódios vou encorpar um pouco mais minha definição de um profissional de desenvolvimento de software em particular. O assunto ainda não está terminado e tem várias coisas estou deixando pros próximos episódios, mas se quiser discutir o assunto mande nos comentários abaixo. Se gostou do vídeo mande um joinha, assine o canal e clique no sininho pra não perder os próximos, e não deixe de compartilhar com seus amigos pra ajudar o canal. A gente se vê, até mais.

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