[Akitando] #33 - Problemas de Confiança para Pessoas inseguras

2018 December 18, 17:00 h

Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal Akitando. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.

Descrição no YouTube

Falar sobre problemas psicológicos sempre é um risco, mas vou evitar cair na psicologia de bar.

O episódio desta semana vai ser um pouco "auto-ajuda" mesmo, mas como eu sou eu, vai ser contando minha perspectiva num relacionamento profissional e pessoal estando dos dois lados e como uma pessoa insegura e introvertida como eu (sim, se você não sabia), lida com isso,

Script

Olá pessoal, Fabio Akita

O episódio de hoje vai ser bem diferente dos demais até agora. Quando vocês assistem meus vídeos ou lêem meus textos, muitos podem ficar com a impressão que eu nunca erro. A culpa disso é meu estilo de comunicação assertivo. Até eu começo a acreditar literalmente no que eu falo.

Um dos maiores objetivos de porque eu escrevo é pra que eu mesmo me lembre do que eu mesmo digo. No episódio do diário de Henry Jones eu disse que eu não faço vídeos pra monetizar, eu faço pra eu mesmo assistir.

O tema de hoje é uma reflexão sobre relacionamentos. Tanto profissionais quanto pessoais. Eu sempre cometo erros e o que vou dizer agora não é uma solução. É uma alegoria para ilustrar situações que vocês podem estar passando agora.

(...)

Todo relacionamento é baseado numa coisa abstrata chamada confiança. Nem vou tentar definir muito, mas todos vocês compreendem o que é. No fundo é simplesmente acreditar que a outra parte é sincera. Se não existir essa crença entre as partes, não existe relacionamento.

Numa sociedade civilizada, empresas, patrões e empregados, vendedores e consumidores, é possível termos um mínimo de confiança graças um truque que nossa civilização inventou, talvez uma das mais importantes da história da humanidade: eu, consumidor, não preciso confiar em você, você, vendedor, não precisa confiar em mim, mas ambos confiamos em um terceiro comum, por exemplo uma instituição chamada Justiça. Ou na internet, poderia ser o Mercado Pago do Mercado Livre. O contrato que assinamos um com o outro tem validade porque essa terceira entidade, que ambos confiamos, promete garantir a execução desse contrato.

O dinheiro é um símbolo dessa confiança. O papel moeda por si só não tem valor nenhum. Qual a diferença de eu te dar uma nota de R$ 100 e eu te dar um papel comum escrito "100 reais"? Ambos são papel, porque só um tem valor? Porque essa é a história que nós confiamos, como todos nós acreditamos na mesma história, a troca de valor pode ser realizada. Tanto eu que dou o dinheiro e você que recebe confiam na entidade que contou essa história: o Banco Central. Antigamente, tinha a moeda de ouro, com o brasão da família real. A garantia que aquela moeda tinha valor era a confiaça que a coroa real iria caçar quem forjasse moedas falsas, pois a credibilidade do seu símbolo é importante.

Recomendo, de novo, lerem o livro Sapiens onde Yuval Harari explica sobre essa história em particular, mas eu fiz uma tangente, deixa eu voltar pro assunto.

Eu nem vou tentar descer muito a fundo no assunto porque eu não sou psicólogo e qualquer coisa que eu tentar argumentar nesse sentido seria mera psicologia de bar. Vou fazer o que eu faço em todos os vídeos, em vez de tentar dar uma resposta universal, vou dar minha perspectiva pra que você possam contrastar com a de vocês. Eu tenho um problema que eu tenho ciência mas não sei como lidar direito ainda. Eu já repeti mil vezes que eu não me considero grande coisa, mas isso não importa. Tem gente que me dá mais valor do que eu realmente tenho. Alguns me admiram por isso, alguns me odeiam por isso. E eu nem fiz nada. Tudo que eu posto nas redes sociais, em palestras, neste canal, é um conteúdo altamente curado, filtrado, editado e polido ao ponto que quem me vê repetindo essas palavras, pode acabar acreditando ao pé da letra que tudo que eu faço e digo no dia a dia é polido nesse ponto. Obviamente não é.

E o problema: vocês acabam contando com esse “ideal” mais do que com a pessoa por baixo. E isso não acontece só comigo, grandes empresas tem esse mesmo problema. Muita gente coloca grandes marcas como Apple, ou Google, ou Facebook, como um ideal. Lembram quando o Google tinha a famosa frase “Make no evil” ou “não faça o mal”. Daí qualquer pequeno deslize parece uma enorme traição a esse ideal.

Pense em confiança como uma moeda. Sempre que eu permito alguém chegar perto de mim, seja numa amizade, numa relação de trabalho, ou comercial, eu considero que eu estou dando moedas de confiança. As pessoas costumam dizer que precisam "ganhar confianca", na verdade confiança você já tem. Se eu estou engajado com você de alguma forma, eu já te dei confiança. O máximo que você pode fazer é gastar essa moeda até ela acabar. E quando acabar, aí sim, vai ser difícil "ganhar mais confiança" de mim. Porque você jogaria fora uma coisa que eu já te dei?

A primeira coisa a lembrar é que em vez de ficar fazendo demonstrações superficiais com o objetivo de "ganhar mais confiança" de um terceiro, faça coisas pra NÃO perder a confiança que você já tem, e aí você vai ver que tentar ganhar mais confiança do jeito errado é o jeito mais fácil de se auto-sabotar.

É muito fácil dizer isso, parece óbvio, mas eu sei porque é tão difícil. Porque essa teoria funciona quando ambos os lados são mais ou menos equiparados. Se um dos lados se sente muito inferior ao outro, inadequado, é difícil pensar assim. Eu sei que muita gente tem problema de se relacionar comigo porque fica achando que eu sou grande porcaria e me coloca num pedestal. E o que eu venho repetindo nos últimos vídeos? Não tenha ídolos. Não me coloque num pedestal.

Mas é natural que isso aconteça, mesmo sabendo disso. Ao fazer isso podem acabar naturalmente pensando "o que eu preciso fazer pra alguém como o Akita dar confiança pra alguém como eu"? E é aí que você começou errado, como eu já disse, a confiança você já tinha.

Se assim como eu, você for uma pessoa insegura e introvertida, agora virou receita de nitroglicerina. Mesmo que eu te diga verbalmente "eu confio em você", ainda assim você vai duvidar. Se você for uma pessoa segura de si e de suas habilidades, vai ser tranquilo, porque você vai pegar minhas moedas de confiança, e construir em cima.

Se você for essa pessoa insegura, vai começar a se auto-sabotar. Você vai ignorar que eu falo direto e reto, e vai tentar ficar lendo nas minhas entrelinhas, tentar ficar prevendo todas as formas que eu posso te trair, porque você considera que um cara como eu deve ter conspirações pra tudo. De novo, estou falando da situação de relacionamentos assimétricos, empregado e empregador é exemplo onde o empregado sempre acha que o empregador tem mais poder e por isso sempre tem uma conspiração contra ele. Mas o empregador não tem tempo pra joguinho, ele já deu a confiança ao te contratar, o salário no fim do mês é um símbolo disso, mas na cabeça desse empregado inseguro é uma relação desigual. Mas entenda, é desigual só na sua cabeça.

Se você ficar toda hora achando que eu vou te trair, você vai atrair isso pra sí mesmo. E não estou falando de forma kármica ou algo assim. É muito simples, você vai se preocupar tanto que vai performar mal, que eu vou te avaliar mal, que vai tentar prometer mais do que consegue entregar, e tudo isso vai desgastando nossa confiança. Um belo dia o relacionamento acaba e na sua cabeça fui eu que te traí.

Ao mesmo tempo, uma pessoa insegura tende a acreditar muito rápido em quem não devia confiar. E isso parece não intuitivo, mas quando você tem baixa auto estima, se sente inseguro, vai tender a dar suas moedas de confiança a um terceiro que vai tirar proveito de você. O colega de trabalho que corrobora com suas neuroses. "é isso aí, seu chefe não tem porque gostar de você, ele vai puxar seu tapete". É o lobo em pele de cordeiro. E como existe o fator de viés de confirmação, tudo que confirma sua neurose vai parecer verdade e esse seu pseudo-amigo vai parecer um puta amigão por confirmar sua neurose. É por isso que é auto-sabotagem. Veja, nada aconteceu até agora, eu não fiz nada, nem fiquei sabendo da sua neurose, mas você já confirmou que eu vou te trair.

Uma coisa que vocês já viram que meio que discordo com o consenso geral na semântica é que confiança é uma coisa que se ganha ou conquista. No final pode até ser, eu diria que confiança é uma coisa que se fortifica ou se perde. Mas entenda, ela já foi automaticamente dada na entrada, senão o relacionamento nem teria iniciado. Não precisa se esforçar tanto pra ganhar mais.

Com medo de perder a confiança que te foi dada, com a insegurança fazendo com que você confie muito rápido nesses lobos em pele de cordeiro, com esse viés de confirmação de suas neuroses, nessa etapa, você vai ficar com medo, então nosso relacionamento vai se tornando mais e mais superficial. Você vai pisar em ovos pra falar comigo, ou evitar falar sobre seus medos. Ou seja, você se distancia sozinho e cada vez perde as chances de entender quais eram as reais expectativas. A coisa mais simples que você deveria fazer era falar comigo, com seu chefe, ou seja lá quem é o alvo da sua neurose. Perguntar não machuca e não ofende, errar por negligência de perguntar sim. Pessoas como eu, por outro lado, não somos bidu, não temos como saber o que você está pensando e por isso não podemos te ajudar se não falar comigo.

E se você realmente começar a errar por causa disso, seu próprio erro vai nutrir sua insegurança. Aí você vai começar a chegar na etapa de que a qualquer momento eu vou te demitir ou cortar relações ou algo assim. Tá vendo como esse ciclo vicioso cresce rápido? Nesse estágio, você vai começar a justificar seu medo. Se eu fizer qualquer erro trivial com você, você vai considerar uma quebra de contrato imperdoável. Uma traição.

Por exemplo, eu combinei de falar com você numa hora mas eu acabei esquecendo ou só atrasei. Ou eu acabei gritando com você por qualquer motivo ou falei mais grosso porque estava de mau humor com outra coisa. Tudo coisas pequenas, que um pequeno "me desculpe" da minha parte resolveria, mas na sua cabeça, já foi um pecado mortal, era o gatilho que faltava. E claro, porque internamente você já está sofrendo tanto tentando "me agradar" que eu fazer isso com você é uma traição.

E a conclusão fatal de tudo isso é que não sou eu que vai te mandar embora, você mesmo é quem vai. Você decide que a pressão é muito alta, que eu não vou conseguir entender você, e acima de tudo justificado porque na sua cabeça eu te “traí” de alguma forma. Somado com seu problema de confiar rápido demais em quem não devia, recebe conselhos errados e resolve ir pra outra empresa pior ou outro relacionamento pior onde, no curto prazo, faz você se sentir menos sufocado. Mas eis a questão, não era eu que estava te sufocando, você estava sufocando você mesmo. E você fugiu, então as chances da mesma situação se repetir depois são altas.

Eu disse que isso nasce quando na sua cabeça a balança pende mais pra um lado, onde você "sente" que eu sou grande demais e por isso qualquer esforço que você faça pra me agradar nunca vai ser suficiente, coisa que obviamente não é verdade, senão eu nem teria te dado atenção.

E o que você deveria ter feito? Especificamente no caso se for alguém como eu do outro lado? Simples, na verdade, pessoas como eu não precisam ser constantemente agradadas, não precisam de cuidados especiais, eu não quebro à toa porque você teve um dia ruim, eu não julgo você porque errou uma vez. Uma única pequena ação ruim não vai ser motivo pra eu te mandar embora tão drasticamente. Pelo contrário, como você contorna o dia ruim é que aumenta seu valor, e como você pede ajuda pra mim. Mas, se um belo dia você chega em mim e diz que vai embora, já é tarde demais, mesmo se eu quisesse, agora eu não tenho nenhuma ação a fazer a não ser aceitar. E muitas vezes é uma pena, eu sinto como um potencial desperdiçado.

E você foi embora por conta própria. A situação poderia ter sido facilmente contornada, se você tivesse arriscado só um pouquinho, me chamado de canto e contado do seu medo, eu teria dito pra não se preocupar e só fazer seu trabalho direito que era o suficiente e me pedir ajuda sempre que precisar.

Ambas as situações já aconteceram comigo: pessoas inseguras que me pediram ajuda e progrediram, e pessoas inseguras que se auto-sabotaram e foram embora.

Eu me sinto um pouco culpado quando essas coisas acontecem, porque comunicação é uma via de mão dupla. Não basta dizer, o comunicador é quem tem a responsabilidade de garantir que a mensagem foi recebida E interpretada da forma correta. Em termos técnicos é como o protocolo da internet funciona, o TCP, todo pacote enviado tem um pacote de acknowledgement recebido, se essa confirmação não vier, a gente repete o pacote. E comunicação é igual, mas é mais difícil de saber se a mensagem foi recebida ou não. A pessoa pode até dizer “entendi”, mas daí a realmente entender são outros 500. Eu digo, escrevo, gravo vídeos, na esperança que eu repeti tanto que pelo menos a maioria vai uma hora entender o que eu quero dizer.

Obviamente como ser humano, eu nunca vou ser perfeito, por isso eu repito pra não me colocar num pedestal. Eu certamente já demiti injustamente, sem entender o outro lado. Eu já tive meus dias de fúria em que acabei descontando em alguém injustamente. Já ofendi sem querer. Todo mundo já fez isso e o máximo que eu posso fazer é entender que isso aconteceu e não fazer de novo. E eu só vou saber que aconteceu, se você me disser.

E eu fiz a analogia com uma relação de trabalho, que é o caso mais comum. Mas uma relação pessoal é a mesma coisa com uma grande desvantagem. Numa relação de trabalho o resultado é objetivo: você tem um trabalho específico pra fazer, pra isso eu pago um valor específico, os termos estão claramente descritos num contrato, de forma não ambígua. Ter um contrato é sensacional, basta ler pra saber o que pode ou não pode fazer.

Num relacionamento pessoal esse contrato não existe, é um processo demorado de tentativa e erro. Como eu disse no começo do vídeo, a história tem um twist. A motivação desse tema é porque recentemente eu estive do lado oposto dessa história, num relacionamento pessoal. Tá vendo como funciona curadoria de rede social, é o tipo de coisa que ninguém estava sabendo. Em resumo, eu coloquei uma pessoa num pedestal (e as qualidades de fato justificavam isso). Eu posso falar sobre insegurança porque eu sou inseguro por natureza, pra quem não sabia, e introvertido. Eu preciso fazer um esforço consciente pra controlar minha insegurança. Lembram do que eu falo de treinamento deliberado? Mas desta vez isso me pegou em cheio. Como na história anterior, eu me senti inadequado, comecei a me auto-sabotar, a me sufocar sozinho, e no final, por medo de ser "demitido" entre aspas, eu pedi "demissão" antes. Ou seja, o relacionamento nem tinha realmente começado, pior, tinha todos os elementos pra dar certo, e por causa de tudo que expliquei acima, eu terminei antes de dar chance de começar.

Viu só, é muito mais fácil falar do que fazer. Tudo isso que eu narrei eu já sabia. Eu vi acontecer. Na hora H até eu fracassei. Qual a única coisa que se pode fazer? Aprender a lição e não fazer de novo. Até lá, só resta lamentar com nosso camarada Balvenie … e claro, Balvenie porque a intenção é só lamentar, não queimar neurônio com Red Label. ...

Isso que chamamos de um cautionary tale ou conto preventivo. Estou dizendo tudo isso com o objetivo de prevenir alguém de cometer o mesmo erro. Ainda bem que nem todo mundo é assim, mas quando você tem problemas de insegurança e ainda mais se é uma pessoa introvertida, você vai internalizar o medo, vai acabar fazendo esse medo crescer, e quando você encontrar qualquer coisa super trivial pra justificar essa neura, ela vai explodir e te consumir de uma só vez. Eu não fiz o que eu mesmo falo pras pessoas fazerem: sleep on it, que quer dizer durma sobre o problema, no dia seguinte se eu tivesse feito isso, não teria tomado a decisão errada. Faltou um segundo de controle, e a moral da história é que por causa de 1 segundo, um caminho inteiro foi bloqueado.

Muitas pessoas fizeram isso comigo ao longo dos anos. Muitos deles se ressentem de mim até hoje, pra justificar terem tomado essa decisão. Eles acham que eu nunca vou perdoá-los. Tirando 1 ou 2 casos extremos, na real, eu já perdoei todo mundo. A única coisa que falta é elas perdoarem elas mesmas. Eu nunca rejeitei um pedido de desculpas. Muitas pessoas fizeram esse caminho de volta.

Como evitamos esse tipo de situação? Não tem uma resposta óbvia, se tivesse todo mundo já estaria usando e milhares de psicólogos perderiam sua profissão :-) Eu estava no meio dessa situação e eu não percebi isso, porque estava sufocado demais alimentando teorias da conspiração e procurando "evidências" triviais pra justificar essas neuras.

Um outro pensamento, eu sou um empreendedor, de muitas formas, como empresário, como comunicador, como mentor. Quem ainda idealiza o trabalho de um empreendedor pode pensar que nós fazemos planos perfeitos, que sabemos o passo a passo pro sucesso. Não é verdade. Um bom empreendedor é quem quebra a cara muitas vezes. A gente tenta 10, 20 vezes. Tentamos várias coisas diferentes. Com tempo suficiente, esforço suficiente, e inteligência, uma delas finalmente dá certo.

Tirando os casos de muita sorte, de estar no lugar certo na hora certa, a grande maioria dos empreendedores na verdade são especialistas em lidar com fracassos. Nenhum de nós é perfeito, muito pelo contrário aliás. Por isso tem aquela velha frase: “quando eu era pobre me chamavam de maluco, agora que sou rico, me chamam de excêntrico”.

E você, qual é o seu caso de relacionamento prematuramente quebrado por inseguranças? Conseguiram perdoar vocês mesmos? Compartilhem com a galera nos comentários abaixo. Se curtiram o vídeo mandem um joinha, compartilhem o vídeo com seus amigos, assinem o canal e clique no sininho.

Esta semana, de novo, vai ser só um vídeo. Chegou meu novo workstation de edição que preciso configurar e vou gastar um tempo. Então a gente se vê terça que vem, até mais!

tags: akitando autoajuda confiança insegurança introversão psicologia relacionamentos

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