[Akitando] #20 - Malta: A Ilha do Blockchain

2018 October 23, 17:00 h

Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal Akitando. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.

Descrição no YouTube

Nos dias 4 e 5 de Outubro de 2018 eu fui visitar a Ilha de Malta para assistir à conferência Delta Summit, a maior conferência de blockchain e criptomoedas do país neste ano. O evento lança a promulgação das leis do país específicas para blockchains e torna a Ilha um lugar propício para empresas neste mercado.

O evento foi aberto por ninguém menos que o primeiro-ministro de Malta, Dr. Joseph Muscat e o primeiro-ministro júnior Silvio Schembri que, junto com o evangelista Dr. Abdalla Kablan atraíram dezenas de pessoas e empresas para discutir as novas oportunidades da região.

Vamos entender o que isso significa pra Malta e para o mundo no geral.

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Se não assistiu ainda, veja a minha playlist de episódios sobre Seoul:

Script

Olá pessoal, Fabio Akita

Este canal começou com meu relato sobre os eventos de blockchain de Seoul, na Coréia do Sul.

Originalmente não era essa a intenção mas no final acabei tendo a oportunidade de ver em primeira mão como estão as comunidades de negócios de criptomoedas nas 3 grandes regiões do mundo: Ásia, Europa e Américas. Vocês já viram minha visão sobre a Ásia, em particular a Coréia do Sul, hoje vamos falar de Malta e no próximo episódio vamos ver como estão os norte americanos.

Vamos lá!

(...)

Vamos começar com uma dica. Se você cruzar com qualquer um que se auto-intitule "Expert" em blockchain ou criptomoedas, ignore essa pessoa. Esse mercado é novo demais pra alguém se denominar "expert" no LinkedIn. É o primeiro sinal de como filtrar o joio do trigo. Isso foi dito num painel durante o evento Delta Summit e eu mais que concordo. Qualquer um que está se vendendo primariamente como expert de blockchain é um charlatão.

Isso dito, Malta. Eu nunca tinha ido pra Malta, eu nunca tinha ido pra Itália. Uma pena que eu tive uma estadia curta, basicamente pro evento. Claro, todos sabemos que Malta é um arquipélago com 3 ilhas habitadas. Malta, Gozo e Comino. Mas eu não tinha noção da dimensão. Por exemplo, qual é a população dessa ilha? 10 milhões de pessoas? 4 milhões de pessoas? Ou 500 mil pessoas?

Pois é … 475 mil pessoas pra ser mais exato. Pra dar uma dimensão, a minha cidade de São Paulo tem 12 milhões de pessoas. A regiao metropolitana inteira tem 20 milhões. Malta é do tamanho de São José do Rio Preto, Mauá, ou Mogi das Cruzes. Sorocaba é maior, Ribeirão Preto é maior, Osasco é maior.

Mas Malta tem uma história muito mais longa. Enquanto o Brasil inteiro tem pouco mais de 500 anos, a história de Malta vai pra quase 6000 anos antes de Cristo. Então, assim como toda a Europa, tem uma diversidade e riqueza histórica muito maior. Mas ainda assim, é impressionante imaginar um país inteiro que é menor a maioria das cidades que eu conheço.

Minha primeira impressão? Lugares excepcionalmente bonitos, realmente cartões postais. Porém, as pessoas que encontrei foram antipáticas, do tipo que ficam reclamando da vida na sua frente na loja, não respondem suas perguntas e fazem cara de "agradeça que eu to te atendendo". Não é todo mundo, mas no geral não me senti muito bem vindo por ali.

De qualquer forma, não tenho muito o que dizer sobre a região porque passei a maior parte do meu tempo lá dentro da conferência. O Delta Summit foi no centro de convenções do Intercontinental Hotel. Delta é um nome oportuno porque tem a ver com a recém aprovada regulamentação de DLT ou Distributed Ledger Technology, então D L T ou DELTA e também DELTA porque vem do grego de mudança e isso representa uma enorme mudança pra região. Pelo menos é o que o arquiteto dessa mudança, Dr Abdalah Kablan está nos vendendo. Ele que parece ter sido importante na progressão das leis no governo do primeiro ministro Dr Joseph Muscat. O evento tem dedo do governo, o que por sua vez ajuda a atrair um grande número de empresas e também as principais celebridades desse mundo, figurinhas carimbadas como Chengpeng Zhao ou Roger Ver, que eu vi nos eventos de Seoul também.

Esse evento foi 100% business, tinha basicamente 0.01% de desenvolvedores de software por lá, então imaginem que eu me senti um peixe fora d'água :-) Ponto positivo por ter cruzado com ninguém menos que o Dr Larry Sanger, um dos criadores da gigante Wikipedia que foi anunciar como está envolvido com o que ele acredita que pode se tornar o sucessor da Wikipedia, a Everipedia. A primeira enciclopédia lançada num blockchain, no caso usando o IPFS ou filesystem universal do protocolo EOS. Vale a pena acompanhar só por causa disso. E se tem alguém que pode fazer isso funcionar, é ele. Para quem queria um caso de uso de blockchains fora do mundo financeiro, esse é um bom exemplo.

A estrela do show, claro, são as tais regulamentações em torno de empresas de blockchains, criptomoedas, exchanges, ICOs. Em resumo, Malta já tem algumas associações reguladoras fortes como a M I T A que regula o mundo de TI, a Malta Financial Services Authority ou M S F A que regula o mundo financeiro, a M G A que regula os jogos. Agora há uma nova, a Malta Digital Innovation Authority ou M D I A que regula empresas desse novo setor. Dentre as leis promulgadas temos a Innovative Technological Arrangements Services Act que foca no registro da tecnologia e certificação como requerido pela M D I A para operar. E a Virtual Financial Asset Act que foi feita pela ou M S F A. Ufa, complicado?

Na prática, criou-se o cargo de um agente regulador, um indivíduo independente, que não é funcionário público, mas que tem experiência na área e que vai avaliar e ser responsável pelas empresas que querem abrir em Malta, incluindo voltar 1 ano depois para ver se eles estão cumprindo os prometidos. A idéia é filtrar o joio do trigo e certificar empresas que passaram por avaliação, evitando os diversos casos de golpes baseados em ICOs.

Haverá pelo menos 2 tratamentos diferenciados: pra aqueles que estão iniciando seus negócios e para aqueles que já tem empresas funcionando e estão se mudando ou abrindo filial lá. A Binance anunciou que está abrindo uma sede em Malta, por exemplo, e é o garoto propaganda do governo de Muskat.

Mas isso significa que abrir uma empresa de cripto lá ficou caro. Você precisa ter gente local e uma sede física e conta em banco, e tudo mais. Só pra começar, não espere gastar menos que uns EUR 50 mil no ano. Só pra abrir uma conta business num banco espere ter que depositar já EUR 30 a 50 mil. Então o investimento para iniciar de verdade lá, não é menos que uns EUR 100 mil. Não é pra qualquer um e isso pode se tornar tendência por toda a Europa. Mesmo em países como Suíça as coisas não eram tão fáceis. Você de fora vai e abre empresa fácil, mas aí quer ir pra lá ou mandar gente daqui pra lá, e descobre que a Suíça não quer nem um pouco aumentar sua população com imigrantes, boa sorte conseguir visto pra morar lá. Governos como o francês, inglês, e até países islâmicos estavam representados durante o evento e devem ter conduzido mais trabalhos diplomáticos e trocas de idéias entre agências reguladoras. O primeiro ministro Muscat quer muito que o framework que eles desenharam para Malta se torne a referência para toda a Europa. A parte do caro que eu mencionei não é ruim. Qualquer investidor prefere um lugar caro e regulado que barato e incerto. Ninguém em sã consciência investe muito dinheiro num país que a qualquer momento pode mudar as regras. Exemplo de lugar ruim pra investir? Brasil.

Por causa do pico absurdo que tivemos em dezembro do ano passado, coisa que incentivou dezenas de ICOs ruins invadirem o mercado enganando milhares de pessoas e aplicando golpes de milhões de dólares, fora os diversos hacks em exchanges mal feitas que também fizeram as pessoas perder muito dinheiro, dezenas de países tomaram medidas drásticas e aceleraram suas corridas pela regulamentação. Países como a China praticamente baniram as criptomoedas de uma hora pra outra, forçando empresas como a Binance a sair da China e se instalar em outros países como Japão. O próprio Japão e Coréia do Sul apertaram suas recomendações e começaram a banir ICOs e botar mais pressão em exchanges. Estados Unidos passaram a considerar todo ICO o equivalente a securities em vez de utilities como eu já expliquei em outro episódio. Países na América do Sul, pra variar lentos que nem tartarugas morrendo continuam em cima do muro quanto a regulamentar e se mantém permitindo ações predatórias dos bancos contra empresas de criptomoedas. E a Europa, como sempre, eficiente quando se fala em passar regulamentações pra tudo, porque quanto mais rápido se regulamenta mais rápido podem coletar mais impostos.

Com essa forçada de barra dos governos do mundo, mas ao mesmo tempo sendo óbvio a inevitabilidade da adoção de criptomoedas pelo mundo, seja por vias legais ou por mercado negro, muitos países mais progressistas resolveram se adiantar à curva e tentar ser os primeiros em suas regiões a criar ambientes amigáveis e atrair os mavericks pioneiros que - quem sabe - se tornem o Google ou Amazon do mundo de criptomoedas. Que país não quer a Amazon em casa? Países como Suíça e Estônia já eram mais amigáveis mas sem se comprometer muito, meio "pode vir, que a gente não morde". Mas Malta foi provavelmente a primeira a se comprometer, criando leis e regulamentações, definindo no papel o que pode ou não pode, e dedicando uma autoridade do governo pra tratar desse assunto. A mesma coisa parece que está se iniciando na Ásia em Taiwan e na Tailândia, aproveitando o vácuo deixado pela triforce da China, Japão e Coréia do Sul. Ou seja, a Europa e a Ásia continuam se movimentando mais rápido que o resto do mundo em relação a regulamentação de criptomoedas.

Pare pra pensar no seguinte: pode ser que você pessoalmente não acredite muito em criptomoedas ou soluções de blockchains, mas primeiros ministros de vários países estão discutindo o assunto e já no ponto onde estão passando leis. Não é um assunto que vai desaparecer tão cedo, independente do que você acha. Já estamos num ponto onde evitar o assunto é só se colocar na posição do mais atrasado na economia global. Você só pode fazer isso se for os Estados Unidos e mesmo assim a pressão do resto do mundo está chegando.

Quando falei da Coréia do Sul dei vários exemplos de tipos de empresas e ICOs, hoje vou só resumir porque é a mesma coisa: muitas exchanges, empresas de auditoria de segurança, e empresas de advocacia. Sério, eu nunca tinha visto tanto estande de advogado um do lado do outro. A estrela do show é a nova regulamentação, então os advogados estão fazendo fila pra atender a nova clientela querendo mover seus negócios pra lá. Outras estandes tinham o de sempre wallets, alternativas de blockchains com plataformas híbridas, meios de pagamento, sistemas de rewards e bonificações por fidelidade ou similar, tokens para games - e Malta já era forte com a autoridade que regulamenta games -, e tokenização ou securitização no geral.

Securities, aliás, outro assunto que continua quente mas controverso por culpa da SEC dos Estados Unidos. Muitos esperam que em breve security tokens se tornem uma nova classe de ativos, onde qualquer asset pode ser tokenizavel, desde equity em empresas no caso de abertura de capital via ICO até real estate ou o que for, até uma pessoa é tokenizável, tokenizando seus ganhos futuros por exemplo. Mas por causa das regulamentações muitos lamentam que a promessa dos ICOs corre grande risco.

A grande idéia dos ICOs é a democratização do mercado financeiro, antigamente somente grandes fundos de investimento, hedge funds, venture capitalists tinham acesso a investir cedo em empresas pré-IPO. O consumidor final, nós, não temos acesso a isso, só depois que o venture capital já comprou barato, você pode comprar caro dele.

ICOs democratizaram isso e deram a opção de pessoas físicas participar. Claro, isso também atraiu um grande número de fraudes. Muita gente perdeu e ainda vai perder dinheiro. Mas se você proíbe isso, regula via restrição, e torna caro abrir um ICO, novamente as startups não tem outra opção a não ser tornar os ICOs privados e oferecer primeiro para os mesmos antigos players: os fundos de investimento e venture capital, retirando a opção da população em geral. A população vai perder dinheiro se não houver restrições? Deixe elas perderem o dinheiro. É o correto, senão nunca vão aprender a investir direito. A população não precisa ser protegida. Eu argumento que proteção demais cria uma população desinformada. Essa mania de governos quererem decidir pela população é muito ruim. O mercado naturalmente se auto regula.

A mesma coisa sobre a idéia de criptomoedas em geral. Por causa dessa paranóia de medo anti-terrorista - que mata menos no mundo que uma fração dos acidentes de trânsito todo ano - força todo governo a forçar toda fintech e bancos tradicionais em procedimentos Anti-lavagem de dinheiro e Anti-terrorismo. A única forma disso acontecer é via KYC ou know your customer, ou seja, toda fintech precisa coletar, administrar e - quando exigido - compartilhar com órgãos do governo os dados e histórico das pessoas. Lembrando que nos Estados Unidos você já tem mecanismos como o controverso Patriot Act. Isso quebra as premissas de privacidade e soberania do indivíduo prometido pelas criptomoedas. Moedas que facilitam a anonimidade como Monero ou Zcash estão sendo proibidos em países regulados como o Japão justamente por essa impossibilidade de rastrear as transações.

Então, pouco a pouco, o mundo de criptomoedas está sendo obrigado a se dobrar para se adequar às mesmas normas que eles originalmente queriam combater. Na prática, o que isso significa é que criptomoedas estão se tornando versões mais práticas dos papéis de commodities e um pouco mais eficientes para transações interbancárias em diferentes países, ou seja, substituto do swift.

Ainda é mais simples entrar no mundo de trading de criptomoedas do que no mercado financeiro tradicional, mas em breve isso pode mudar também. O valor das criptomoedas já foi provado, mas para o market cap subir dos atuais 200 bilhões para a casa do trilhão exige que os grandes investidores institucionais, Wall Street, entre no jogo. É para onde estão jogando exchanges como a Gemini dos irmãos Winklevoss.

Eu assisti todas as palestras que pude e em 2 dias de Delta Summit eu não fiquei particularmente impressionado. Vocês devem ter notado que eu não apontei nenhum painel ou palestra em particular neste vídeo. Os pitches de startups eram o mesmo de sempre, com ou sem criptomoedas, startups sempre prometem mais do que podem entregar e eu sei que nem 1% vai sobreviver então tenho pouco interesse em startups no geral. Eu acho que elas precisam existir porque estatística dos grandes números só funciona com grandes números, pro 0.1% existir precisa também existir os 99.9% que vai morrer antes. Então, eu sou a favor, mas não faço questão de participar, só observar e estar perto dos 0.1% e não dos 99.9, obviamente. É assim que o mercado funciona, diversificação sempre é uma palavra boa em finanças. Dinheiro não tem cor, nem gênero, nem nacionalidade, dinheiro é dinheiro.

Isso dito, para empresas já estabelecidas como a Binance, faz muito sentido abrir em Malta, porque estar num país regulado dá mais estabilidade, sem o medo que a qualquer hora uma ordem arbitrária pode fechar seu negócio. Como eu disse antes, investidores não gostam de mercados instáveis. Só isso já seria motivo suficiente, mas além disso eu assumo que existam vantagens e incentivos fiscais também. Não tem nada de mágico em Malta, é uma questão de gestão de risco. Ficar em países não regulamentados como Brasil é muito pior, mesmo se aqui fosse mais "barato". Sem uma regulamentação liberal, nada aqui vai melhorar.

Pra complementar, é sabido que tanto Malta como o Chipre são dois lugares onde quem quer lavar dinheiro vai porque os governos são bastante, vamos dizer, “flexíveis”. Inclusive isso os coloca em posição meio instável com a União Européia. Digamos que ficar mostrando muito como o CZ da Binance virou brodão do Joseph Muscat, trocando elogios via Twitter, jantando juntos, não exatamente passa uma imagem de governo neutro e responsável. Malta não está fazendo tudo isso porque eles são visionários ou algo assim. Sendo cínico, é claro que é uma questão de oportunidade política e de mercado. Malta tem uma longa história de controvérsias. Neste momento paira uma aura de conspiração no ar por causa do assassinato da jornalista anti-corrupção Caruana Galizia.

No geral, a conferência realmente colocou junto num mesmo lugar gente que claramente tem muito dinheiro e gente que claramente quer ganhar muito dinheiro. Você sente mais que estão construindo uma Las Vegas do que Silicon Valley, definitivamente.

Pessoas como eu estão fora desse universo por isso foi interessante ver o contraste. A Ilha de Malta parece ser mesmo um excelente lugar pra passar suas férias. Eu realmente não senti vontade nenhuma de um dia morar por lá. Mas, se eu estivesse nesse universo de pessoas que descrevi, consigo entender claramente porque eu gostaria de estar lá. Pra nossa realidade, vamos deixar Malta no radar pra ver como ela influencia ou não o resto da União Européia.

E por hoje é só, o que acharam desse vídeo? Deixem seus comentários abaixo. Se gostaram mandem um joinha, assinem o canal e cliquem no sininho pra serem notificados do próximo vídeo sobre São Francisco. A gente se vê, até mais!

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