[Akitando] #8 - Procure o que você Ama ... SÓ QUE NÃO!

2018 September 06, 17:00 h

Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal Akitando. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.

Descrição no YouTube

Mas hoje este vídeo é dedicado aos desenvolvedores de software, ou jovens em geral, que estão tão expostos a uma inundação de frases feitas que os deixam ansiosos, desmotivados, e sem saber muito bem o que fazer da vida. "Procurar o que ama".

Vamos desmistificar isso.

Links:

Script

Olá pessoal, Fabio Akita

Eu vi que semana que vem vai completar exatamente 4 anos que escrevi o post número 1.001 do meu blog.

Este vídeo é dedicado a todos vocês que estão insatisfeitos no seu trabalho. Que se sentem presos, fazendo coisas que não gosta, sentindo que está perdendo seu tempo. Que estão até sofrendo de ansiedade e ficando com depressão pensando nisso. Provavelmente tendo na sua cabeça, imagens como essa::

... (find what you love)

Quero dizer explorar o seguinte: por que você está pensando da forma errada? E talvez ajudar a responder o seguinte problema: o que eu devo fazer?

.. intro

Existe um livro muito ruim chamado "Do what you Love and Money will Follow" ou "faça o que você ama que o dinheiro vem na sequência". É mais um desses livros que não dizem nada de muito prático. Economize seu tempo e não leia isso.

Mesmo assim, se você sair procurando, vai achar centenas de textos, artigos, posts, vídeos, palestras e até músicas dizendo exatamente a mesma coisa.

Eu funciono assim: toda vez que vejo uma afirmação muito repetida, se todo mundo repete “faça o que você ama” eu procuro o inverso dela: "Não faça o que você ama". E normalmente o que vem é muito mais interessante. E o que eu encontrei na verdade foi muito mais alarmante do que eu pensava.

No nosso mundo mais restrito, ao redor de tecnologia, o mantra mais aceito é que todo mundo deveria ser um empreendedor, abrir sua própria startup, virar seu próprio chefe, mudar o mundo de alguma forma com mais um Uber-de-alguma-coisa ... como se o mundo já não estivesse superlotado de clones de Uber.

Todo mundo parece repetir a mesma coisa: "Faça o que ama e nunca vai trabalhar mais um dia da sua vida".

Bom, deixa eu começar: "Faça o que você ama" é simplesmente o pior conselho que você poderia receber. E se você levar isso ao pé da letra, prepare-se pra viver uma vida de frustrações.

Você quer trabalhar numa startup, quer o ambiente agitado, cheio de brindes, Nespresso à vontade, Xbox na sala de jogos, pizzas na madrugada. E aí? E depois do milésimo nespresso, depois que já cansou de jogar Fifa todo dia, depois que ganhou 10kg de tanta pizza. E aí? E aí?

E agora vem a segunda grande verdade: você tá infeliz no seu trabalho, frustrado com sua vida, não porque você não encontrou o que você ama, ou porque as pessoas não “deixam” você fazer do jeito que você quer, mas porque você não gosta de você mesmo. Deixa eu ser mais específico: você faz as coisas meia boca. Você pode se justificar pro mundo do jeito que quiser, mas você não gosta do que você mesmo produz. Porque você só faz o mínimo pra ir levando a vida, vai tirando nota 5 pra passar de ano. Fica esperando a tal “grande” oportunidade magicamente cair no seu colo. O que você produz não é o seu melhor e você sabe disso.

Deixa eu continuar o vídeo do Jobs::

… (Your work is going to fill a large part of your life, and the only way to be truly satisfied is to do what you believe is great work. And the only way to do great work is to love what you do)

“Grande trabalho” não quer dizer “trabalhar numa grande empresa” ou “num grande produto que vai mudar o mundo”. É simplesmente a qualidade do resultado do SEU trabalho. Um grande trabalho. A única forma de estar verdadeiramente satisfeito é fazer o que você acredita ser SEU grande trabalho. E a única forma de fazer um grande trabalho é amar o que você faz, ou seja, o SEU próprio esforço e suor. Entendeu? Não importa o que você faz. Se você é um pedreiro, seja o melhor pedreiro e levanta a melhor parede. Se você faz buque de flores, faça os melhores buques de flores. Se você, como eu, é um programador, entregue o melhor código possível!

O seu ramo de atividade, seu cargo, seu chefe, a empresa onde trabalha não tem NADA a ver com a qualidade do seu trabalho.

A: “ow ow Cara, bonito isso aí, mas quer ver, não dá pra fazer meu ‘melhor trabalho’ assim, na empresa onde eu trabalho o FDP que vende projeto só promete o impossível e aí eu só me fodo varando noite pra entregar de qualquer jeito, tá ligado?”

Eu já passei por isso, sabe o que eu fiz? Eu comecei a ir junto com o vendedor pros clientes, daí eu mesmo escrevia a proposta do projeto de um jeito que eu sabia que dava pra entregar. Aprendi que era difícil vender. Aprendi como escrever boas propostas. Aprendi como convencer o cliente a fazer o que realmente fazia sentido.

A: “Ah, mas não adianta, por exemplo, eu tava num trampo que a gente ralava pra fazer o melhor produto possível, mas ninguém usava porque o marketing da empresa era muito ruim”

Eu sei como é, já passei por isso também. Sabe o que eu fiz? Eu sai da minha cadeira da área de programação e fui puxar uma cadeira lá no departamento do marketing. No final eu que passava o texto que ia pro marketing. Aproveitei e eu mesmo fui pro jurídico e aprendi a escrever os termos de serviço do produto também de bonus.

A: “Puuuts, que trampo heim. Mas não adianta, a gente ralava pra fazer as coisas direito mas os clientes só ligavam reclamando. Os caras não sabem usar e ficam reclamando”.

Verdade, já passei por isso, depois de um tempo eu puxei uma cadeira lá no suporte e comecei a atender algumas ligações e ler os tickets do help desk eu mesmo, aí começou a fazer mais sentido que o que a gente tava fazendo era complicado mesmo e começamos a tentar facilitar o produto. Comecei a aprender o que significava fazer um produto.

A: “Não é só isso Não, tem uns caras do trampo que em vez de ajudar só ficam me tirando, puxando meu tapete, ficam sabotando em vez de ajudar, aí não rola né?”

Ah, já passei muito por isso. Quantas vezes não tive que trabalhar dobrado consertando o que os outros tinham quebrado. Quantas vezes ainda tive que tomar a culpa pelos bugs que os outros causaram. Cliente que já me xingou sem saber que foi o gerente do lado dele que sabotou o trampo. Ou concorrente que veio causando. A gente vai aprendendo a lidar com isso, no final eu sempre pensei que se a coisa chegou nesse ponto no fundo eu que ainda não era bom o suficiente pra saber contornar melhor ou antes. É uma coisa que eu ainda to aprendendo. Já ganhei muito inimigo de graça por causa disso. Pelo menos eu estudei muito técnicas de gestão, negociação e tudo mais que podia pra ver se eu melhorava nisso.

A: “Mas não adianta, a gente fica mesmo discutindo que tinha que fazer o produto melhor, mas os caras que codam lá junto comigo, nem tem nível pra entender como fazer código decente. Nem dava vontade de fazer direito”.

É complicado né? Teve uma época que eu queria poder usar o código de outro departamento e não podia. Era 2009 isso, antes do Github ficar conhecido. Cada grupo tinha um repositório de código e tinha que pedir pra ficar pedindo pra eles mudarem o código deles do jeito que a gente precisava. Mas aí eu pensei, se tudo ficasse no Git, todo mundo ia poder mexer no código de todo mundo. Sabe o que eu fiz? Comecei a ensinar todo mundo a usar Git. Um por um, eu ia de mesa em mesa ensinando. Até o dia que tudo foi pro Git. Não era perfeito, deu mó confusão, mas no final funcionou. Se você acha que sabe melhor do que seus colegas, porque você não está ensinando pra eles como fazer certo então?

A: “Ah, eu já tentei, mas eles não me escutam. Devem ser burros mesmo”

Pode ser. Mas eu pensava assim: as pessoas normalmente tem barreira pra aprender coisa nova mesmo. Então eu ficava dando jeitos de tentar explicar, normalmente o que eu achava mais fácil era mostrando mesmo. Na maioria das vezes eu não conseguia, mas eu considerava isso uma falha de eu ainda não ser bom o suficiente, então fui melhorando meu jeito de convencer. Olha só, esse canal é UM desses jeitos.

A: “Afe, mas então se você ficava fazendo tudo isso então trabalhava dobrado? Você ganhava mais que todo mundo pra ficar fazendo essas coisas?

Não, eu provavelmente ganhava menos que muitas das pessoas de cada departamento que eu falei. E sempre foi assim em todos os empregos que eu passei. Nunca fui necessariamente o que ganhava melhor, a despeito do que os outros pensavam.

A: “Então você era otário, trabalhava a mais e não ganhava mais por isso? Qual é a vantagem?”

Muitas! Anos depois eu finalmente vi que tinha experiência suficiente e surgiu a oportunidade de abrir minha própria empresa. E eu já sabia como vender projeto, como fazer marketing, como lidar com jurídico, como ensinar as pessoas, como organizar os projetos, como entender os clientes e como entregar produtos. E mesmo assim, sabendo tudo isso foi dureza começar, não imagino como as pessoas começam sem saber nada disso, provavelmente por isso a maioria das empresas novas de recém formados acaba antes do segundo ano. E o povo que eu fui conhecendo pelo caminho? Eles também cresceram e sabiam que podiam contar comigo e nos anos que se seguiram eles voltaram e muitos viraram meus clientes por exemplo.

A: “Ah … tá, mas eu também já fiz algo assim, eu sempre faço do jeito que me mandam, e ninguém nunca reclamou, então eu vou fazendo, qual o problema? Não é o suficiente?”

Bom, eu penso assim, uma época eu decidi correr, só pra fazer graça mesmo. Eu evito ficar muito tempo em academia porque eu acabo querendo ir além do que eu deveria. Comecei correndo 500m e morria, mesmo pouco, todo dia eu corria 100m a mais. Um belo dia eu tava correndo o percurso da São Silvestre, só pra saber se conseguia. Quando consegui, fui fazer outra coisa. Fazer a mesma rotina todo dia só vai me fazer correr 500m. 100m de cada vez, um pouco todo dia, é o único jeito de correr são silvestre. Não que eu quisesse virar corredor, mas se dá pra correr 20km porque me contentar com 5km?

A: “Porra. Você é meio CDF né? Parece os moleque que o povo gosta de zoar na escola pq só tira 10. Pra que tirar 10? 5 já dá pra passar de ano. Perda de tempo.”

Quando eu era criança e tava na escola era assim mesmo que me chamavam. Ninguém dava muita bola pra mim. Tinha bully de vez em quando. Mas, quando tinha trabalho em grupo, adivinha quem era o primeiro que escolhiam? E você acha que eles ajudavam? Ha. Porra nenhuma, só apareciam no último dia pra colocar o nome na capa. Sempre me dava nervoso porque precisa que eu tava dando nota de graça pra eles. Mas no fundo eu sempre fazia pra tirar nota máxima porque EU não queria tirar nota baixa. Mesmo eu dando nota boa pra eles, eles ainda iam desperdiçar tirando nota baixa nas provas de qualquer jeito. Eu fazia por mim. Foi assim que começou mesmo. Porque eu não me contento com 5? Porque bullies como eles tiravam 5.

Vamos ver o que o Jobs tem a dizer:

Você só pode conectar os pontos pra trás. Se pra trás só tem pontos que você não gosta, porque você acha que no futuro vai ter pontos melhores?

Não to dizendo que dinheiro ou qualidade de vida não são importantes. Todo mundo quer isso. E eu sei que tem muita gente com muita dificuldade, que sequer pode se dar ao luxo de escolher o que fazer ou onde trabalhar. Mas eu suspeito que mesmo na pior das condições, você viver satisfeito, ou melhor, com você mesmo não tem preço. Não é pelos outros. É por você. É o seu trabalho. É o seu esforço.

Isso é receita pra você ser reconhecido? É receita pra ficar rico? Não. É uma receita pra você não desperdiçar sua carreira e nem sua vida.

Por que vocês acham que eu estou fazendo estes vídeos? Pra virar YouTuber super star? Não, 1 eu to fazendo porque eu queria ver se eu conseguia e 2 já que to fazendo, quero saber até onde consigo ir. Não tem nada mais divertido do que virar júnior em alguma coisa de novo. Eu só tenho tempo pra gravar e editar a noite e de madrugada. Eu não penso “olha só que foda, eu trabalho pra caralho e ainda fico todo dia até 4 da manhã”. Eu não tenho chefe pra impressionar. Eu penso “que droga, eu sou muito junior mesmo, se eu fosse melhor eu tinha acabado muito mais rapido e melhor” então todo episódio eu fico procurando algum jeito de fazer um pouco mais rápido e um pouco melhor.

Entenderam? Eu não faço YouTube porque eu amo YouTube ou porque eu sempre sonhei em ser YouTuber. Nem existia isso nos anos 90. Eu não faço a THE CONF que é minha conferência porque eu amo fazer conferências. Eu não tenho 2 empresas porque eu amo ser empreendedor. Eu não aprendo novas linguagens de programação porque eu amo programar. Eu faço tudo isso simplesmente porque eu gosto do meu suor por trás do resultado. E não precisa ser coisas grandiosas, qualquer pequena coisa conta. Você não chega a mais de 1000 posts ou mais de 200 palestras se toda hora você só pensa no dia que vai estar num palco com 1000 pessoas. Sexta passada fui palestrar num meetup, talvez 30 pessoas. Não faz diferença se tem 1000 ou 30, importa eu dar a palestra, podia ser pra 5 pessoas.

Imagine se eu tivesse ficado os últimos 20 anos pensando “ah, o dia que eu trabalhar na Microsoft”, ou “ah, o dia que me derem chance”, ou “ah, o dia que me reconhecerem”, ou “ah, o dia que me pagarem mais”. Ia estar esperando até hoje.

Pra finalizar, existem os que estão preocupados porque acham que não nasceram com talento. Alguns de vocês nessa posição olham pra pessoas mais experientes ou mesmo celebridades e se conformam: eu nunca vou chegar lá. Pra mover uma montanha de lugar você começa movendo uma pedra de cada vez. Em breve, eu espero, fazer 2 episódios por semana sem precisar varar noite - agora por exemplo, já passou da meia noite e eu estou gravando, eu falhei de novo. Esforço é universal. Não importa quão inteligente você acha que é, não importa quão talentoso você acha que é, não importa sua posição social, gênero ou idade. Esforço é simplesmente isso: esforço. Uma pedra de cada vez, um dia de cada vez. Um dia os esforços me levaram até a posição onde eu pude agarrar oportunidades e sobreviver a elas. Nesse exato momento eu to aqui, me esforçando, apanhando mais um pouco. Eu olho os moleques de YouTube, muitos estudaram fotografia e cinema e eu penso, caramba, esses caras são bons. Mas não importa, é uma view de cada vez. Um joinha de cada vez. Quem sabe, daqui 5 anos? Ou 10? Não importa.

Entenderam? Em vez de ficar sonhando, volta pra Terra, arregaça as mangas e simplesmente faz melhor. O que você tem que fazer? Tem TCC pra fazer? Tem projeto pra entregar? Tá atrasado? Não existe falta de tempo. Uma coisa que todo mundo tem igual é tempo. Tem quem aprendeu a usar o tempo melhor, tem quem tá empurrando com a barriga.

Você tá frustrado no seu emprego, pensando em mudar de emprego? Você tá frustrado com seu mundo? Quer mudar de mundo? Não adianta. Enquanto você tá frustrado com sua falta de esforço, qualquer emprego, qualquer lugar, vai terminar do mesmo jeito, porque a realidade é que tudo tem partes ruins, todo trabalho tem partes chatas, a VIDA tem muitas partes chatas. Começa fazendo as pequenas coisas direito, e vai se acostumando a parar de justificar sua frustração como sendo culpa da sua família, dos colega, do seu chefe, do dos políticos. Apontar defeitos dos outros é simples, qualquer idiota pode fazer isso. E os seus? Começa a onde realmente importa: tomando controle do que você mesmo faz. Já que vai fazer, faz direito, qualquer coisa. Em vez de dizer pros outros como fazer certo, que tal mostrar pros outros como fazer certo?

Bom, esse episódio acabou ficando um pouco auto-ajuda, tudo que eu disse até aqui é minha opinião pessoal formada na minha experiência das últimas décadas pra tentar dar alguma perspectiva. E qual é a sua experiência? Mande pra galera nos comentários abaixo, se curtiram esse vídeo dêem um joinha, assinem o canal e compartilhem com seus amigos! A gente se vê na próxima, e na próxima espero que não seja de madrugada de novo ;-) Até mais!

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