De 10 Mil e Além: Discutindo Criptomoedas

PT | EN
30 de novembro de 2017 · 💬 Participe da Discussão

cryptocurrencies

Depois da histórica quebra dos USD 10.000 ontem, o Bitcoin e as criptomoedas em geral finalmente chegaram à mídia mainstream de forma bombástica.

Como muitos na área de tecnologia, eu experimentei desde o início. Eu mesmo minerava alguns bitcoins lá em 2009, depois perdi a chave privada da minha carteira, esqueci completamente do assunto, e muitos anos depois estou aqui me mordendo de arrependimento :-)

Quando chegou a USD 3.000, meu interesse na plataforma foi totalmente renovado. E foi uma surpresa muito agradável ver o tamanho que isso tomou. Quem me acompanha sabe o quanto sou ávido por aprender coisas novas que têm potencial real. E também como é fácil para mim mergulhar de cabeça em algo.

Só consigo fazer isso porque não sou fiel a nada. Não escolho e defendo uma única linguagem, nem um único sistema operacional, nem um único fabricante, nem um único mercado. Ficar na posição de defender algo por defender me parece extremamente improdutivo.

Acredite ou não, as criptomoedas vieram para ficar, pelo menos por alguns anos. Lembro da sensação quando experimentei a internet comercial em 1993. É exatamente isso de novo: um território inexplorado com muito potencial e muita coisa que ainda não conseguimos imaginar.

Quem me acompanha também sabe que sou um grande defensor do uso da Razão. Odeio tanto o hype extremo quanto o FUD. Quem dissemina qualquer um dos dois está atrás de atenção fácil, sem nada útil a dizer de verdade. “Vai chegar a 100k logo! Compra agora!” ou “É uma bolha de tulipas, você é idiota se comprar!”. Os dois extremos são imbecis.

Educação é a base de tudo. O raciocínio é o ponto de partida.

Um aviso importante: não estou recomendando que ninguém compre criptomoedas sem fazer a sua própria pesquisa. Qualquer um que faz recomendações, a favor ou contra, está sendo irresponsável. Tudo que posso fazer é transmitir uma opinião pessoal e uma análise técnica. Esse é o meu papel.

Um exemplo: você sabia que a tão repetida Bolha das Tulipas nunca existiu de verdade? Pois é. Isso mostra como as pessoas são rápidas em compartilhar memes e fake news sem pesquisar nada.

E fica ainda mais hilário na área de tecnologia, onde vejo muitos “evangelistas” gritando sobre os “milagres” de abrir sua própria startup para “disrupar” o mercado com mais um derivado de Uber. Vamos ser diretos: qualquer coisa pode ser uma bolha.

O ouro só tem valor porque criamos uma história em torno dele. Ouro não se come. Ouro nem é um metal tão bom para trabalhar. Só criamos uma história e todo mundo concordou. O mesmo vale para qualquer coisa que consideramos “valioso”. O que é uma moeda fiduciária? É um pedaço de papel, inútil por si só. Mas se todos concordarmos com a mesma história, o “$100” impresso nele torna o papel supervalioso.

Tal é o poder da crença.

Tudo que fazemos exige algum nível de fé. Se presto um serviço para alguém, preciso ter fé de que serei pago no futuro. A confiança vem de um papel assinado ou mesmo de um simples e-mail, e da certeza de que as instituições vão me ajudar a cobrar esse pagamento se necessário.

É tudo histórias, fé e crenças. Se ainda não leu, recomendo fortemente o “Sapiens” de Yuval Harari para entender como as histórias moldam nossa história.

Dito isso, acho hilário que técnicos considerados “sérios” sejam rapidíssimos em gritar “é uma fraude!” ou “é uma bolha!” sem dedicar 1 segundo sequer para verificar os fundamentos e checar as fontes. Engenheiros deveriam saber fazer isso melhor, e essa preguiça expõe quem realmente sabe fazer análise e quem só segue multidões cegamente.

Não dá para dizer que eu estava errado se, por algum motivo, as criptomoedas implodissem amanhã do nada. Tampouco que os céticos estavam certos. Isso é importante: qualquer coisa no futuro é impossível de prever com certeza. Você joga com as probabilidades. Se não tem convicção, não aposte. Mas criar histórias para justificar a própria ignorância é decepcionante demais.

O interessante nos mercados financeiros é que eles ensinam as pessoas a lidar com a improbabilidade. Venho evangelizando Nassim Taleb neste blog há anos, desde o colapso econômico de 2008/2009. Aprendemos muito. Aprendemos sobre “Cisnes Negros” e como se tornar “Antifrágil” e, em boa hora, como ter “Skin in the Game”. Engenheiros deveriam ter muito mais esse tipo de conhecimento — chegariam a soluções muito melhores.

Respondendo a alguns FUDs específicos que tenho lido:

“É uma bolha!”

Pode ser. Como disse, o setor de tecnologia já é uma bolha para todo efeito. Basta alguns VCs se articularem e recuarem para deixar uma bomba explodindo atrás. Tudo é história, não importa o quanto você valorize algo. É simples assim.

Como operar dentro de uma bolha? De forma antifrágil. Antes de tudo, se você é iniciante, nunca, em hipótese alguma, invista tudo que tem. Invista apenas o que, se perder tudo, não te deixará na miséria. Isso é Investimento-101.

Tente comprar nas baixas e talvez vender nas altas. Ou planeje o longo prazo e faça HODL por alguns anos. Se precisa de retornos rápidos, aprenda a operar com ordens de stop-loss, por exemplo. Não tente ser mais esperto que o mercado se não tem experiência com trading. Ou tente, mas não reclame quando perder.

Perdas ou lucros, é sua responsabilidade e de mais ninguém — não “do mercado” nem “dos especuladores”. Todo mundo é adulto. Adultos assumem responsabilidade pelos próprios atos. Se perderam dinheiro em uma aposta que não entendiam, a culpa é deles.

“A mineração consome mais energia do que alguns países pequenos!”

Não importa. Antes de mais nada, não estão drenando energia de graça. Todo minerador paga por ela. Agora você vai entender por que é tão problemático quando governos interferem nos mercados livres. Se algum país subsidia a energia, a fórmula de oferta e demanda vai falhar. Óbvio.

E os técnicos deveriam saber disso melhor. Nunca houve banda suficiente nas linhas telefônicas para todo mundo no planeta se conectar à internet. Tivemos que evoluir muito a infraestrutura. Adicionamos cabos submarinos. Saímos dos modems discados para ISDN, para modems a cabo, e assim por diante.

A mineração baseada em proof of work consome uma quantidade enorme de energia, e com razão. Estamos trocando energia por integridade. Mas não é a única alternativa. Existem implementações de proof of stake começando a ser implantadas em outras alt-coins, com eficiência energética muito maior enquanto oferecem níveis similares de confiança no consenso.

O ponto é que a tecnologia evolui rápido e não dá para extrapolar o futuro com base no que temos hoje. É como alguém em 1993 dizendo “a internet comercial não pode acontecer porque as linhas telefônicas são lentas demais se algum dia quisermos streaming de vídeo”.

“O Bitcoin é centralizado demais, isso é perigoso!”

Se você é programador e ainda não sabe exatamente o que significa minerar, recomendo que leia primeiro meu artigo anterior sobre o assunto.

A mineração não é determinística. Mesmo com o melhor hardware do mundo, não há garantia de que você vai minerar o bloco primeiro. É mais como uma rifa.

Por isso os mineradores se organizam em pools, que dividem os ganhos entre os membros.

A preocupação é que 4 dos maiores pools — AntPool, ViaBTC, BTC.com e BTC.TOP — “controlam” 62% do hashpower mundial.

Diz-se que quem controla 51% do hashpower poderia lançar um ataque ao blockchain, sendo capaz de reescrever blocos do passado recente e permitir double-spend, por exemplo.

Mas na prática, não é tão simples assim.

Minerar custa caro. Um equipamento de USD 20.000 consegue minerar em torno de USD 11 por dia, sem descontar todos os custos, incluindo a depreciação das máquinas. Qualquer coisa além de minerar honestamente é muito arriscada e pouco lucrativa. O sistema foi construído de forma que os hackers teriam que gastar tanto dinheiro com riscos tão altos que é mais fácil simplesmente seguir as regras.

E novamente, as alt-coins e forks estão experimentando novas formas de tornar isso ainda mais difícil no futuro.

“A Visa processa milhares de transações por segundo. O Bitcoin jamais vai conseguir isso!”

De novo, argumento inútil. É como dizer “o ouro não pode ser trocado rápido o suficiente, nunca vai prestar”.

Já temos várias alt-coins como o Litecoin e outras tentando resolver o problema de transações rápidas. Considere que todas as alt-coins estão de certa forma atreladas ao Bitcoin, da mesma forma que o dólar já foi atrelado ao ouro. E se a chamada Lightning Network entrar em operação, poderemos cruzar fronteiras entre blockchains com muito mais facilidade.

A Visa não transaciona “cédulas” de dólar — ela faz transações virtuais em seus bancos de dados internos. Só quando o comerciante saca é que converte para dólares em espécie.

Dá para adicionar Bitcoin tranquilamente ao mix de opções num sistema de transações Visa. É assim que o cartão de crédito funciona hoje: você só paga 30 dias depois. E funciona. Qual é o problema?

E de novo: vamos resolver isso com o tempo. Deixa as tecnologias amadurecerem, a demanda aparecer e a solução vai surgir.

“Não tem nenhuma função social.”

Grande parte das críticas às criptomoedas vêm da população “elite” dos países do primeiro mundo. Se você é uma pessoa branca nos EUA com uma boa renda em dólares, ou alguém parecido na Europa com bastante Euro, sua principal preocupação é “o Bitcoin é lento demais para comprar no shopping” ou “as taxas de transação são altas demais para o meu café diário no Starbucks”. E aí começa a gritar que “o Bitcoin não tem função social”.

Mas isso é absurdo. Você não mora na América do Sul, na África, no Sudeste Asiático. Você não está na Venezuela, onde a moeda foi destruída pela ditadura vigente. Consegue imaginar a sua amada nota de dólar valendo menos que papel higiênico?

Você não mora no Zimbábue onde o exército tomou o poder. Não mora na Ásia, lugar sob ameaça constante de mísseis nucleares do ditador maluco Kim Jong-Un.

Então, tudo bem, não tem função social para a sua cota diária de açúcar no 7-Eleven. É lento demais para comprar refrigerante em galão e as taxas são altas demais. Mas se você mora em qualquer lugar do mundo onde o governo representa uma ameaça aos cidadãos, ter uma reserva de valor descentralizada e sem regulação governamental, que você pode tirar facilmente do país opressor, é algo que salva vidas. Mesmo em países como o meu, o Brasil, você não quer ter tudo em Reais caso candidatos a ditadores como Lula ou Bolsonaro realmente percam o juízo e deem um golpe.

“Não vejo sentido nisso. Simplesmente não vejo. E não me importo.”

Isso é a coisa mais honesta que se pode dizer — pelo menos assume a própria ignorância e a própria falta de interesse.

E há uma boa razão para isso. Em termos de tecnologia, os EUA seguem o que o Vale do Silício diz. E muitos outros países simplesmente repetem o que vem de lá. Então os técnicos estão acostumados a seguir o que Google, Facebook ou Apple estão dizendo.

Mas a tecnologia blockchain não veio diretamente deles. Não é um produto do Google. E pior: ela mexe com as frágeis crenças morais dessas pessoas. Elas acham normal receber enormes quantias de dinheiro de VC como “recompensa” pelo que “acreditam”, pela sua “cultura”, pelos seus “valores” arbitrários. Não acreditam em ganhar o próprio dinheiro. E mesmo que os VCs sejam do mercado financeiro, os técnicos desprezam Wall Street e as finanças. Os hipsters do Starbucks odeiam os traders de terno e gravata e suas supostas “táticas sujas” para ganhar dinheiro.

É hilário, no fim das contas todo mundo quer uma coisa e uma coisa só: mais dinheiro. Mas os hipsters são muito hipócritas para admitir isso. “Não quero dinheiro, quero disrupar o mercado”. Claro, pode continuar se dizendo isso.

Agora, considere que todo esse buzz das criptomoedas não vem do Ocidente. Vem todo da Ásia. Japão, Coreia do Sul, Cingapura, China — são eles que estão conduzindo o mercado. O Japão, como país, já regulamentou e aceitou o Bitcoin como moeda de verdade e detém sozinho 60% do market share.

Esse é um fenômeno fortemente impulsionado pela Ásia. E estamos só no começo.

Portanto, não estamos mais no cenário de “se isso acontecer”. Já aconteceu. Gigantes como o CME Group e a Nasdaq vão começar a oferecer produtos de Bitcoin. Estamos perdendo tempo discutindo questões triviais e idiotas que serão resolvidas no longo prazo.

As criptomoedas vieram para ficar. Minha recomendação para quem realmente valoriza o conhecimento: estude o assunto.