Recentemente compartilhei um artigo criticando Lean Startup - isso está se tornando um hobby. O grande Alexandre Porcelli compartilhou uma palestra de ninguém menos que Alex Payne.

Alex Payne foi um dos engenheiros mais antigos do Twitter, eu o conheço por causa de Scala e seus posts sobre NoSQL e outros assuntos de tecnologia. Mas além de programador, escritor de livros, ele também é um experiente investidor em startups. Sua visão sobre startups neste ponto é similar à minha. Recomendo assistir a palestra, que se originou a partir de um post que ele publicou em seu blog cujo título é o mesmo deste post e cujo conteúdo resolvi traduzir em português porque acho que os Brasileiros precisam ouvir mais outro lado da moeda.

Sem mais delongas, a partir daqui seguem as palavras do Alex:

Eu regularmente recebo e-mails de jovens, normalmente daqueles com interesse em programação, que estão tentando tomar decisões sobre escola e/ou seus futuros profissionais. Este post é para esses jovens.

Se você está no fim da juventude, início dos 20 anos, você cresceu num mundo que idealizou startups, seus fundadores, e as pessoas que vão trabalhar nelas.

Se estiver na escola, talvez você tenha sentido a pressão ou tenha sido incentivado a largar e se juntar ou começar sua própria empresa. Se já estiver fora no mundo de trabalho, talvez sinta que seu trabalho de não-startup é de alguma forma inadequado, ou que você está perdendo experiência valiosa e potencial riqueza.

A geração em que você cresceu tem, nos últimos anos recentes, oscilado à beira de ficar "perdido". Empregos são escassos, entrar numa universidade não oferece nenhuma garantia de emprego. Grandes, velhas corporações não são mais garantia de porto seguro para construir uma carreira. Startups aparentam, através da lente da mídia, como o único sinal de vida num mundo morrendo. Eu entendo o apelo.

O passado de cada um é diferente, e suas escolhas são apenas suas. Isso dito, você não está tomando decisões em um vácuo. Aqui vão algumas coisas para considerar que, em minha experiência, você tem menos chances de ouvir a respeito se estiver trabalhando em startups.

Uma startup é somente um meio para um fim.

Recentemente entrevistei um jovem rapaz. Eu lhe perguntei onde se via daqui quatro anos. "Dirigindo minha própria empresa," ele disse sem hesitar. Eu lhe perguntei porque. "Por que empreendedorismo está no meu sangue," ele respondeu. Não havia nenhuma menção sobre o que sua empresa hipotética faria, que problemas ele resolveria para as pessoas. Seu objetivo era uma empresa apenas por ter uma empresa. Foi para isso que ele estudou, afinal.

As pessoas se satisfazem em seus trabalhos quando operam com um senso de propósito. Então muito do nosso entendimento da psicologia do sucesso gira em torno de objetivos e manter esses objetivos no topo da mente: visualizando o momento da conquista, rastreando o progresso, tendo outros nos cobrando para atingí-los. Objetivos dão forma a nossos futuros individuais.

Talvez uma startups seja o melhor jeito de atingir esse objetivo, e talvez não seja. Se o objetivo do jovem rapaz descrito acima é ter um negócio - qualquer negócio! - então talvez uma startup seja de fato o melhor caminho. Para outros, no entanto, eu sempre me pergunto se eles estão adequando seus objetivos no formato de uma startup porque essa é a aproximação mais aplaudida, admirada, e facilmente entendida (se não facilmente atingida).

Talvez o melhor jeito de atingir seu objetivo seja iniciando uma organização sem fins lucrativos ou entrando na política. Talvez seja fazendo pesquisa numa universidade ou fazendo arte. Talvez a resposta seja se juntar a uma empresa grande, estável com formidáveis recursos para que você possa tirar proveito para atingir seu objetivo. Talvez seu objetivo seja melhor atingido construindo uma carreira estável, sem pressão, que deixe tempo suficiente para sua família, amigos, comunidade e auto-aperfeiçoamento.

Uma startup é somente um meio para um fim. Considere o fim, e procure não festejar com os meios. Com o que você se importa? Quem você quer ajudar? Uma startup facilita ou dificulta atingir esse objetivo? Onde isso vai levá-lo quando seu objetivo for atingido? Onde isso vai te deixar se não atingir?

Um emprego numa startup é o novo emprego de escritório. Cultura de Startup é a nova cultura corporativa.

Startups são retratados como sendo excitantes, arriscadas, e mesmo alternativas subversivas ao tradicional emprego corporativo. Startups são vistas como mais livres, mais abertas, mais flexíveis. Algumas empresas de fato começam assim, mas algumas entrevistas em startups em estágio avançado torna claro quão rápido elas se ossificam em estruturas que se parecem com as organizações que vieram antes delas.

Da mesma forma como foi na primeira bolha da ponto com, atualmente existe uma proliferação de startups, incubadoras, aceleradoras, investidores anjo, e assim por diante. Para a "comunidade startup" conseguir se replicar, no estilo nanobot, as mecânicas de "fazer uma startup" tem sido reduzidas para uma sequência facilmente transportável de ações acompanhadas de um conjunto compartilhado de valores, normas e linguagem. Como consequência, a cultura da maioria das startups são uniformes, até no estilo de vestimenta e enfeites que ajudam os "caras de startup" - e na maioria das vezes são mesmo "os" caras - a ficar com seu rebanho (para não serem apanhados por pumas).

Formados de escolas de negócios como o jovem rapaz que eu entrevistei estão indo diretamente da universidade para startups, e isso se chegam a terminam a escola. Formados em negócios, tradicionalmente avessos a riscos, agora dizem que não querem trabalhar para as grandes empresas. Mas startups são as novas grandes empresas. Eles são, como vou descrever mais abaixo, os campos de escritórios de uma força de trabalho distribuída agregados por venture capitalistas e suas instituições associadas.

Não existe nada inerentemente errado com um emprego de escritório. Apenas entenda no que está se juntando. Quando os barris de cerveja fornecidos pela empresa secam, quando os lanches de graça estão tornando você gordo, e jogar Xbox na sala de relaxamento não é mais tão divertido, e aí? Quando você descobrir que agora se reporta a um gerente médio politiqueiro e não o CEO inspirador que o entrevistou, ainda vai querer estar lá? É um ambiente com brinquedos e novidades o suficiente para sustentá-lo? Quando todos os lugares que você considera trabalhar se parecem mais ou menos os mesmos, até quando vai a novidade?

As Startups foram sistematizadas, mitologizadas, culturalmente e socialmente tiveram seus riscos retirados; reduzidos a fórmulas e receitas. E ainda assim, não existe uma fórmula sustentável para criatividade e rebelião. Quando tentamos industrializar a inovação nós arrancamos exatamente o que estamos tentando cultivar: a destruição criativa que mantém o fogo do capitalismo.

Startups são parte do sistema, não uma chave rebelde nas engrenagens.

O funding para startups - ou seja, o dinheiro que paga seus salários - vem de algum lugar. Indivíduos ricos e instituições investem em startups como qualquer outra classe de ativos. O futurista Bruce Sterling recentemente brincou que "startups estão cheios de jovens trabalhando duro para tornar outras pessoas ricas - financistas Baby Boomers, principalmente". Mesmo isso podendo ser uma afirmação generalista e cínica, de jeito nenhum é uma inverdade.

Em traços largos e excluindo áreas como biotecnologia, venture-backed startups são uma máquina onde relativamente pequenas quantidades de capital são inseridos de um lado e, idealmente, um monte sai do outro lado. (Na realidade essa máquina parece não funcionar mais, embora a efetividade do VC como uma classe de ativos e os próprios VCs esteja aberta a discussão). O ponto saliente: o que está no meio da máquina é você. Você faz ele andar.

A máquina não se interessa por você. De fato, a máquina é desenhada com o entendimento de que a maioria das startups vai falhar, ou no máximo oferecer retornos medíocres aos investidores. A maioria das empresas em muitos portfolios de VCs são reconhecidos como espantalhos. Uma ou duas empresas "10x" é que valorizam o portfolio. No melhor dos casos, fundadores de startups que falham recebem outro empurrão na máquina caça-níquel. No pior dos casos, suas falhas os levam ao desespero.

Não existe nada inerentemente disruptivo numa venture-backed startup. O sistema de startup é somente mais um sistema; uma alternativa à escada corporativa mas com tantos degraus quanto. Algumas startups podem acabar dramaticamente reformulando o mercado, mas assim como qualquer outro operador já no jogo ou regulador ativo.

A agora perene celebração de disrupção dirigida por startups levantam a pergunta: se aceitarmos que disrupção está de fato acontecendo, estamos melhor no mercado disruptivo resultante? Resolvemos um problema, ou apenas mudamos o problema de posição? Criamos valor enquanto aumentamos a justiça e igualdade, criando mudança positiva que vai durar? Ou somente criamos um grupo de pessoas ricas um pouco mais ricas ao custo de outro grupo de pessoas ricas? Estamos criando um futuro melhor ou somente embaralhando o presente?

Startups tem um custo interpessoal em andamento.

Nenhuma história de uma startup está completa sem uma cena ou duas de heróis machos: noites gastas programando até a exaustão, semanas longe de casa tentando levantar dinheiro em pitch humilhante atrás de pitch humilhante. Startups apelam a um desejo de ousadia que está perdida em muitas formas de trabalho moderno, e ouvimos histórias das recompensas esperando quando vidas pessoais são sacrificadas no altar do cronograma de lançamento.

Menos frequentemente ouvimos sobre os danos que startups fazem à vida das pessoas. Em casos extremos, como com o empreendedor cuja história de fracasso e suicídio esta ligado acima, a "comunidade" pode tirar um dia ou dois para refletir e lamentar em blogs e tweets. Então estão de volta à "moeção", e mais importante, fazer um show público de quão duro você está trabalhando para satisfazer os investidores e a intimidadora concorrência.

Eu vi em primeira mão os danos que startups podem fazer a relacionamentos. Eu vi casamentos e amizades destruídas, vi crianças e parceiros sendo colocados de lado, e falhei com aqueles na minha vida de todas as maneiras quando o trabalho veio à frente. Eu ouvia enquanto as pessoas que são o retrato de uma startup de sucesso - visíveis na imprensa e mídia social, liderando conferências, eternamente fundando e saindo - confidenciando sua total solidão a despeito de aparentemente ser o centro social da comunidade empreendedora.

Quando você é jovem, relacionamentos parecem um recurso renovável. Amizades existem aos montes e vem de forma fácil. Acabando de sair de casa e para o mundo, você está ansioso para escapara da presença constante da família. Ser puxado para o trabalho o faz se sentir importante, independente, um adulto. O trabalho por si fornece uma nova comunidade e novas amizades, e as ligações formadas durante intenso trabalho colaborativo são fortes.

Eu fiz muitos amigos através do trabalho em empresas em fase inicial. Ironicamente, esses relacionamentos são mais fáceis de manter e aproveitar quando não estou trabalhando numa startup.

Pensamentos de Partida.

Eu trabalhei em startups por metade da minha vida já. Esse trabalho me trouxe liberdade financeira, e eu coloquei dinheiro que ganhei numa startup em outras startups. Se existe, como eu argumentei acima, um moderno "sistema de startups", eu sou parte disso.

Não vou me equivocar: eu sou profundamente cético com esse sistema. Sou cético quanto à escravidão desse sistema, fetichização autocongratulatória de "disrupção" e ao mesmo tempo se tornando tão obviamente o tipo de instituição impassível que quer substituir. Sou cético quanto à visão de curto-prazo da comunidade de startup. E sou particularmente cético pelo seu desprezo quanto às vidas das pessoas que participam e a vida daqueles que vivem no mundo que as startups procuram reformular. Não vamos nem começar a discutir o conluio, cartelização e outras atividades de corrupção de mercado que são tão comuns no mundo dos VCs. O ponto sendo: é um jogo ruim, e um jogo de fraude.

E mesmo assim. Existem startups que eu não gostaria de ver desaparecer. Existem pessoas trabalhando e fundando essas startups que são boas, gentis, com vidas pessoais e profissionais equilibradas, preocupadas com o impacto dos seus trabalhos. Da mesma forma como jogamos calúnias e acusações de corrupção em outros sistemas como política, mídia de massa, entretenimento e esportes profissionais, também devemos admirar aqueles que operam de forma ética e eficiente neles. Devemos ainda mais celebrar aqueles que são pioneiros em sistemas novos e alternativos, pois eles trabalham nas sombras da comunidade que tem uma mão constante na manivela da máquina publicitária.

Agora, você poderia dizer que estou jogando muita responsabilidade aos pés do mundo de startups. Embora esse sistema espalhe todos os dias sobre ele mesmo como o salvador de tudo, do capitalisto à cultura, claro que podemos aceitar que negócios são negócios e ideais são melhores deixados em casa. Como um VC de uma empresa de topo de Sand Hill Road me disse durante um pitch muitos anos atrás quando descrevia uma funcionalidade conceitual no Simple que facilitaria aos usuários doar mais facilmente e regularmente uma porção das suas economias para a caridade, "não vamos desperdiçar tempo nessa coisa, estamos aqui para fazer dinheiro."

Você poderia aguentar essa conduta, mas eu espero que seu idealismo não tenha sido desgastado quando ainda tão jovem. Eu espero que você queira que seu trabalho tenha significado, propósito, e valor não importa que forma esse trabalho tenha. Mais do que isso, eu espero que você queira que sua vida seja definida por mais do que seu trabalho.

Jovem programador, eu insisto que você considere ambos os lados da moeda da startup. Existem tantas formas de deixar uma marca no mundo.

Uma Nota quando a Feedback

Se você é parte do público algo deste post, adoraria ouvir seu feedback e responder suas perguntas, preferencialmente por e-mail. Meu endereço é fácil de encontrar neste site.

Se você não é parte do público algo e está muito muito bravo que um estranho na Internet tem uma opinião diferente da sua, eu o encorajo a direcionar sua energia em um argumento alternativo que alguém jovem (ou, realmente, qualquer pessoa num ponto de transição de carreira) poderia se beneficiar lendo. Eles são seus futuros funcionários, colegas de trabalho ou fundadores. São eles que você precisa convencer, não eu.

— 23 de Maio de 2013

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