[Off-Topic] Matemática, Trolls, Haters e Discussões de Internet

2013 October 30, 21:01 h - tags: psychology insights off-topic

Em tempos de redes sociais e discussões abertas em timelines, foruns, etc, já nos acostumamos com o fato de nunca existir consenso em nada. E em tempos de Twitter onde 140 caracteres definem o que vamos dizer, soltar algo como "X funciona", "Y não funciona", "concordo com A" ou "discordo de B" é garantia de um longo e inacabável flame war.

E o que eu posso fazer, também sou culpado, viciado em argumentar tanto em assuntos sérios quanto assuntos irrelevantes - faz parte do entretenimento, eu acho -, mas devo concordar que algumas vezes falta paciência mesmo. Quem assistiu minhas palestras mais recentes deve lembrar de uma parte que digo o seguinte: que as pessoas buscam "validação" de suas idéias e argumentos, parece que quanto mais gente concorda, mais a idéia é válida. O tal processo "democrático" onde 50% + 1 garante vitória.

Existem vários problemas nisso. Já discuti parte desse tema no artigo Mea Culpa: Organizações Democráticas não Funcionam. Embora eu não seja um matemático formado e atuante, minha fundação é de matemática. Uma das coisas felizes que lembro do meu tempo no Instituto de Matemática e Estatística da USP foi justamente a pesada fundação matemática a que fui submetido. Até hoje trago o que aprendi anos atrás para meu dia a dia.

Leis são Leis

A primeira grande coisa que eu aprendi é o seguinte: dado um conjunto de axiomas, dado que determinado teorema está comprovado, posso utilizar essa ferramenta com a garantia de que ele sempre vai funcionar dentro das premissas estipuladas.

Portanto, dado que números naturais existem, dado x pertencente aos naturais, dado as propriedades algebraicas dos naturais, sei que y = x + x e que y estará nos naturais. Dado tudo isso, posso dizer com toda certeza que 2 + 2 é 4 e sempre será 4.

Isso é importante porque eu não preciso de "validação" de maioria para saber disso. Não importa se alguém propor uma votação e 1 milhão de pessoas disserem que 2 + 2 é 5. Quantidade de opiniões não desfaz a Álgebra. Certas áreas do conhecimento científico já foram totalmente comprovadas, não preciso de consenso de "opiniões".

Maioria, Autoridade, não significa nada dentro desse contexto.

Isso me dá diversas certezas: significa que existe todo um corpo de conhecimento científico nas mais diferentes áreas que vai de matemática, à física, à biologia, à psicologia, à sociologia, à medicina, etc que são confiáveis e estão à nossa disposição para serem utilizadas. E sua utilização não depende de consenso, não depende de votação, não depende de "validação" de nenhum grupo ou conjunto de pessoas.

Me dá a certeza também que só porque eu não sei alguma coisa, não significa que alguém já não saiba, e aumenta minha estima pela pesquisa adequada desse corpo de conhecimento. O erro é a preguiça de fazer essa pesquisa e assumir que porque alguma maioria disse alguma coisa, ou porque alguém com aparente autoridade disse alguma coisa, isso "deve ser verdade".

Pra mim, por definição, tudo está errado até que seja rigorosamente comprovado que é verdade, pelos mesmos métodos que garantiram esse corpo de conhecimento científico.

Problemas de Primeiro Mundo

No mundo da auto-ajuda existem milhares de "fórmulas", ou "receitas". Receitas para emagrecer, receitas para ter sucesso, receitas para ser feliz e assim por diante. É uma enorme indústria que pelo menos até 2010 movimentava cerca de USD 11 bilhões. Ela não vai parar e deve crescer.

Nós nos movemos na pirâmide de Maslow. A geração de nossos pais e nossos avós ainda tinham que se preocupar com a sobrevivência mais básica: alimentação, saúde. Nesta nova geração uma parcela enorme da população vive muito melhor, onde essa base já não é a maior prioridade. Mas não tem problema, o ser humano sempre vai procurar problemas para se preocupar, os famosos "problemas de primeiro mundo" - algumas vezes parece que somos uma espécie feita para encontrar problemas até onde eles não existem.

É por isso que o mercado de auto-ajuda cresce tanto, por isso que problemas que parece que simplesmente não existiam alguns séculos atrás agora parecem tão maiores: depressão, stress. E onde medicamentos que nunca fizeram tanta falta 2 ou 3 séculos atrás agora são fabricados em toneladas: Zoloft, Prozac, Paxil, Celera.

Para constar, não estou menosprezando esses problemas, uma parcela enorme é bastante real e ainda bem que a medicina moderna possui esses instrumentos para tratar. Porém é inegável que uma grande parcela faça muito mal uso dessa circunstância já que, diferente de uma perna quebrada, não há evidência física desse tipo de problema.

Cito isso porque já faz parte da nossa cultura atual assumir que esse tipo de patologia é uma coisa comum, a cada nova geração, parece que todo mundo é feito de cristal e qualquer pequena disrupção já quebra. A impressão que dá é que se essa geração fosse magicamente transportada para o século XVII ou antes, ninguém sobreviveria.

O efeito da Auto-Ajuda

Isso tudo dito, vem a parte que mais me incomoda: as fórmulas mágicas, balas de prata. Dentro do contexto do mercado de auto-ajuda até que eu não me incomodo tanto. Afinal, que mal tem alguém ler "Quem Mexeu no Meu Queijo" para se entreter?

O problema é quando pseudo-ciência é tomado como ciência real.

É o que eu chamo de "porque funcionou pra X deve funcionar pra Y", ou o que mais gente já me ouviu repetir ad nauseaum que "correlação não é causalidade".

Toda auto-ajuda são uma ou mais fórmulas, devidamente embrulhadas em pacotes de muito marketing e vendidas como soluções universais.

"Basta pensar positivo."

Por si, afirmações como essa são inofensivas, mas elas rapidamente se desenrolam em proporções bíblicas.

Qual o problema de fórmulas? Novamente me remeto à minha fundação matemática. Uma fórmula matemática, sozinha, não serve para nada, ela é indefinida, incompleta. Para ser definida de forma completa ela precisa de pelo menos mais dois elementos: um Domínio e uma Imagem. Por exemplo, veja a seguinte fórmula:

1
f(x) = 1/x

Imediatamente alguém poderia dizer "mas esta fórmula está errada, pois se x for zero a conta não funciona." E de fato, é uma boa observação, mas ela parte de uma premissa: que quem disse essa frase está considerando que x pode ser qualquer número que existe.

Porém, se eu definir corretamente e dizer:

1
dado x pertencente ao domínio dos números reais, e dado x diferente de zero, f(x) = 1/x, resultará na imagem dos números reais

Agora esta fórmula, no campo da Álgebra, está bem definida e é incontestável. Notem o que eu fiz com este simples exemplo: dei uma fórmula incompleta e imediatamente gerei uma discussão sobre ela. É exatamente isso que acontece em toda discussão em redes sociais e temas de auto-ajuda.

Repetindo: toda auto-ajuda são uma ou mais fórmulas, que não definem o domínio e nem a imagem dessa fórmula. Cada pessoa que lê essa fórmula incompleta, tenta completá-la com seu próprio domínio "para mim funciona" ou "para mim não funciona" e acabamos de encontrar a origem mais simples de todo flame war, todo hater, todo troll da internet.

Por outro lado também encontramos a primeira forma de distinguir uma fórmula inválida de uma "possivelmente" válida. Com a inválida você vai ter uma enorme dificuldade de definir o domínio. Partimos sempre do domínio maior, que funciona para todo mundo em todos os cenários. Imediatamente a fórmula quebra, agora começamos a reduzir esse domínio e, invariavelmente, ela vai se reduzir até chegar a um único caso que alguma vez funcionou.

Sistemas Complexos, Biografias e a falácia das "evidências"

E normalmente as fórmulas se reduzem realmente a um único indivíduo, esse é o caso de toda Biografia. A sequência de eventos que determinado indivíduo passou somente ele passou, e elas não se repetem.

Eu falo sobre sistemas complexos faz muito tempo, desde pelo menos 2009 esse assunto chama minha atenção. Já incorri no erro de derivar teorias sobre esse conceito mas devo admitir que até agora não fui bem sucedido, e na verdade todo o campo da sociologia e estudo de redes ainda está na infância desse tipo de conhecimento. Pouco se tem em termos de postulados e leis. Portanto interprete esse tipo de assunto com muito mais cuidado que o normal. A física quântica também já foi indevidamente explorada no mundo da auto-ajuda, veja calamidades horrendas como "What the Bleep do We Know" para ver como transformar um assunto sério numa piada (que muitos acham que é sério).

Correndo o risco de ser muito superficial vou resumir a parte que interessa desta forma: no mundo real somos todos parte de um sistema complexo adaptativo. Uma ação que eu tomo pode desencadear diversas outras ações que, por sua vez, vão cada uma desencadear outras diversas ações, e muitas dessas ações podem interagir entre si, criando uma rede de incalculáveis nós e conexões. É praticamente impossível determinar o final de uma cadeia de eventos em rede com inúmeras variáveis. Digo "praticamente impossível" porque ainda não sabemos como determinar todas as variáveis da equação e, para todos os efeitos práticos, isso torna qualquer coisa impossível de prever.

Claro, dado alguns limites de espaço, tempo, margens de erro, sabemos prever muitas coisas o suficiente para mandar foguetes a Júpiter com precisão. Por outro lado existem muitas coisas cujas margens de erro ainda são difíceis de controlar, a própria meteorologia sendo um exemplo. É como surge a idéia de que uma borboleta bate as asas na China e um maremoto atinge o Rio de Janeiro. Essa frase não significa que a borboleta causou o maremoto, mas sim que ela foi uma condição inicial de uma cadeia intricada de eventos que por acaso resultou no maremoto.

Agora, dado um certo resultado, em muitos casos podemos olhar para trás, para o passado, e rastrear a cadeia de eventos até chegar às condições iniciais. Se alguém já assistiu CSI ou algum programa de detetives sabe que podemos coletar evidências e usar de dedução para conectar eventos até chegar a um ponto de origem. É assim que todas as "fórmulas" são criadas. A cadeia de eventos já aconteceu, ela não vai mais mudar. Dentro do nosso Universo, o passado é imutável porque o tempo só tem uma direção.

George Santayana uma vez disse que "quem não aprende com a História está destinado a repetí-la." Se levarmos o que eu disse até agora ao pé-da-letra, vamos concluir que a História raramente se repete. Só porque as condições iniciais e o resultado são parecidos com de outro evento, a cadeia de acontecimentos no meio é raramente a mesma. O fato de interpretarmos com a "História se repetindo" é mera coincidência e uma série de enganos que nosso cérebro faz o tempo todo, incluindo Confirmation Bias.

Sei que esse trecho pode ser complexo, mas o ponto que quero chegar é o seguinte: só porque aconteceu uma vez não significa que a mesma cadeia vai acontecer de novo.

As condições iniciais e a cadeia de eventos é o tal "domínio" restrito da "fórmula" que eu disse acima. E como Duncan Watts diria, todo mundo se engana o tempo todo com o conceito de "óbvio". Hoje parece óbvio dizer que é óbvio que o Facebook faz sucesso. Porém em 2002 ninguém jamais poderia prever que em 2012 existiria esse tal Facebook e que seu IPO abriria com a valorização de USD 90 bilhões. Depois do acontecido, podemos tentar traçar os eventos para trás e tentar encontrar as condições iniciais e cadeia de eventos que tornou isso possível, mas nunca antes.

Empiricamente, de tudo que eu já vi oferecido por aí como bala de prata, a "melhor fórmula", parece mesmo muito bom, até que você começa a questionar: "parece uma Fórmula que leva a um bom resultado (Imagem), mas quais as condições iniciais necessárias? Qual o Domínio dessa fórmula?"

E quando você começa a questionar isso, a teoria não se sustenta por 1 segundo. É como Lean Startup, a moda do mundo tech. Veja as condições iniciais do Eric Ries: você vai encontrar exemplos de Groupon, Intuit, HP, empresas que são tudo menos "pequenas startups", porém o livro é evangelizado a todo pequeno empreendedor. Há uma contradição clara de condições iniciais. E o método científico é muito diferente do que o livro sugere.

"Mas há vários bons exemplos de pequenas startups que seguiram o Lean Startup e se deram bem." E aqui vai outra lição que qualquer um que assistiu CSI sabe distinguir: cena de crime contaminada não serve para nada. Em nenhum dos casos é possível dizer que a "causa" do sucesso foi ter usado Lean Startup, pode haver uma "correlação", e pequena, pois estamos falando de um sistema complexo adaptativo. A borboleta "causou" o maremoto? A probabilidade é muito pequena. Mas daí entra o marketing, como diria Joseph Goebbels, o ministro da propaganda da Alemanha Nazista, "quanto maior a mentira mais acreditarão nela," ou o derivado disso "repita uma mentira vezes suficientes e as pessoas acreditarão que é verdade."

Como Carl Sagan diria "alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias." E isso depende de trabalho exaustivo de testes para quebrar a hipótese. Um medicamente, feito de forma séria, leva anos, até décadas, até chegar às farmácias, mas balas de prata se tornam virais em questão de horas ou dias. E dependendo de quem fala e como fala, ganha status de "verdade inquestionável" muito rápido. Valdomiro da Mundial que o diga.

Porque "parece" que funcionou para 1, 2, 10 casos, não é suficiente para tornar algo uma verdade. A "Teoria" da Evolução das espécies, de Charles Darwin, que tem toneladas de evidências concretas e sólidas, que vem sendo questionada, atacada, dilacerada minuciosamente por mais de 150 anos e que para todos os efeitos e propósitos já é praticamente uma verdade absoluta, ainda não ganhou o status de "Lei", porque qualquer outra coisa menos rigorosamente testado poderia ser diferente?

Conclusão

Na prática, a menos que faça parte do corpo de conhecimento científico já reconhecido e exaustivamente documentado, todo o resto é questionável, deve ser questionado, e nunca deve ganhar status dogmático de "verdade", por definição.

Auto-ajuda não é ciência, é pseudo-ciência, por definição.

Fórmulas que garantem certo "resultado" (Imagem), sem um Domínio, são incompletas e indefinidas, e isso vai necessariamente dividir opiniões (pois cada um tem seu próprio domínio). E só porque um determinado grupo é maior do que quem está questionando, não torna a fórmula verdade. O oposto seria seguir a doutrina de Goebbels.

E o que é de fato ciência comprovada não precisa de quórum, maioria ou "validação". 2 + 2 será sempre 4, não importa quem queira contrariar.

Uma dica: para qualquer assunto que cruzar no caminho, use o Google. Coloque o termo com a palavra "debunked" ou "skeptic" ou "fake" ou "scam" e vai encontrar a resposta. Exemplo, procure por "The Secret Debunked" e veja quanto já foi publicado colocando completamente abaixo a tal "Lei da Atração". Eu pratico isso o tempo todo, nada é inquestionável, não importa quem está dizendo.

Desde minha infância sou um grande defensor de destruir a pseudo-ciência pois ela causa mais mal do que qualquer outra coisa. Lembrem-se, coincidências acontecem, e não são tão raras assim.

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