[Off-Topic] Matemática, Trolls, Haters e Discussões de Internet
Em tempos de redes sociais e discussões abertas em timelines e fóruns, já nos acostumamos com o fato de nunca existir consenso em nada. E em tempos de Twitter, onde 140 caracteres definem o que vamos dizer, soltar algo como “X funciona”, “Y não funciona”, “concordo com A” ou “discordo de B” é garantia de um longo e inacabável flame war.
Sou culpado também, viciado em argumentar tanto sobre assuntos sérios quanto sobre os irrelevantes. Faz parte do entretenimento, eu acho, mas admito que algumas vezes falta paciência mesmo. Quem assistiu minhas palestras mais recentes deve lembrar da parte em que digo o seguinte: as pessoas buscam “validação” para suas ideias e argumentos. Parece que, quanto mais gente concorda, mais válida a ideia seria, o tal processo “democrático” onde 50% + 1 garante vitória.
Existem vários problemas nisso, e já discuti parte do tema no artigo Mea Culpa: Organizações Democráticas não Funcionam. Embora eu não seja um matemático formado e atuante, minha fundação é de matemática. Uma das coisas boas que lembro do meu tempo no Instituto de Matemática e Estatística da USP foi justamente a pesada fundação matemática a que fui submetido. Até hoje trago o que aprendi para o meu dia a dia.
Leis são Leis
A primeira grande coisa que aprendi foi esta: dado um conjunto de axiomas, e dado que determinado teorema está comprovado, posso usar essa ferramenta com a garantia de que ele sempre vai funcionar dentro das premissas estipuladas.
Portanto, dado que números naturais existem, dado x pertencente aos naturais e dadas as propriedades algébricas dos naturais, sei que y = x + x e que y estará nos naturais. Com isso, posso dizer com toda a certeza que 2 + 2 é 4 e sempre será 4.
Isso é importante porque não preciso da “validação” de uma maioria para saber disso. Não importa se alguém propõe uma votação e 1 milhão de pessoas dizem que 2 + 2 é 5. Quantidade de opiniões não desfaz a Álgebra. Certas áreas do conhecimento científico já foram totalmente comprovadas, e não dependem de consenso de “opiniões”.
Maioria e autoridade não significam nada dentro desse contexto.
Isso me dá diversas certezas. Existe todo um corpo de conhecimento científico nas mais diferentes áreas, da matemática à física, à biologia, à psicologia, à sociologia, à medicina, que é confiável e está à nossa disposição. E o seu uso não depende de consenso, de votação, nem da “validação” de nenhum grupo.
Me dá também a certeza de que, só porque eu não sei alguma coisa, isso não significa que alguém já não saiba, e aumenta a minha estima pela pesquisa adequada desse corpo de conhecimento. O erro é ter preguiça de fazer essa pesquisa e assumir que, porque uma maioria disse algo, ou porque alguém com aparente autoridade disse algo, aquilo “deve ser verdade”.
Para mim, por definição, tudo está errado até que se comprove rigorosamente que é verdade, pelos mesmos métodos que garantiram esse corpo de conhecimento científico.
Problemas de Primeiro Mundo
No mundo da autoajuda existem milhares de “fórmulas”, ou “receitas”. Receitas para emagrecer, para ter sucesso, para ser feliz, e assim por diante. É uma indústria enorme que, pelo menos até 2010, movimentava cerca de USD 11 bilhões. Ela não vai parar e deve crescer.
Nós nos movemos na pirâmide de Maslow. A geração dos nossos pais e avós ainda precisava se preocupar com a sobrevivência mais básica: alimentação, saúde. Nesta nova geração, uma parcela enorme da população vive muito melhor, e essa base já não é a maior prioridade.
Mas o ser humano sempre vai procurar problemas com que se preocupar, os famosos “problemas de primeiro mundo”. Algumas vezes parece que somos uma espécie feita para encontrar problemas até onde eles não existem.
É por isso que o mercado de autoajuda cresce tanto, e por isso que problemas que pareciam não existir alguns séculos atrás agora parecem tão maiores: depressão, stress. Medicamentos que nunca fizeram tanta falta 2 ou 3 séculos atrás hoje são fabricados em toneladas: Zoloft, Prozac, Paxil, Celexa.
Para constar, não estou menosprezando esses problemas. Uma parcela enorme é bastante real, e ainda bem que a medicina moderna tem esses instrumentos para tratar. Porém é inegável que muita gente faz mau uso dessa circunstância já que, diferente de uma perna quebrada, não há evidência física desse tipo de problema.
Cito isso porque já faz parte da nossa cultura assumir que esse tipo de patologia é uma coisa comum. A cada nova geração, parece que todo mundo é feito de cristal e qualquer pequena disrupção já quebra. A impressão que dá é que, se essa geração fosse magicamente transportada para o século XVII ou antes, ninguém sobreviveria.
O efeito da Auto-Ajuda
Dito tudo isso, vem a parte que mais me incomoda: as fórmulas mágicas, as balas de prata. Dentro do mercado de autoajuda, até que não me incomodo tanto. Afinal, que mal há em alguém ler “Quem Mexeu no Meu Queijo” para se entreter?
O problema é quando pseudociência é tomada como ciência de verdade.
É o que eu chamo de “porque funcionou para X deve funcionar para Y”, ou o que muita gente já me ouviu repetir ad nauseam: “correlação não é causalidade”.
Toda autoajuda é uma ou mais fórmulas, devidamente embrulhadas em muito marketing e vendidas como soluções universais.
Sozinhas, afirmações como essa são inofensivas, mas rapidamente se desenrolam em proporções bíblicas.
Qual o problema das fórmulas? De novo recorro à minha fundação matemática. Uma fórmula matemática, sozinha, não serve para nada: é indefinida, incompleta. Para ser completamente definida, ela precisa de pelo menos mais dois elementos, um Domínio e uma Imagem. Por exemplo, veja a fórmula:
f(x) = 1/xImediatamente alguém poderia dizer “mas esta fórmula está errada, pois se x for zero a conta não funciona”. É uma boa observação, mas parte de uma premissa: a de que x pode ser qualquer número que existe.
Porém, se eu definir corretamente e disser:
dado x pertencente ao domínio dos números reais, e dado x diferente de zero, f(x) = 1/x, resultará na imagem dos números reaisAgora esta fórmula, no campo da Álgebra, está bem definida e é incontestável. Notem o que fiz com este exemplo simples: dei uma fórmula incompleta e imediatamente gerei uma discussão sobre ela. É exatamente isso que acontece em toda discussão em rede social e em todo tema de autoajuda.
Repetindo: toda autoajuda é uma ou mais fórmulas que não definem o domínio nem a imagem. Cada pessoa que lê essa fórmula incompleta tenta completá-la com o próprio domínio, “para mim funciona” ou “para mim não funciona”, e acabamos de encontrar a origem mais simples de todo flame war, todo hater e todo troll da internet.
Por outro lado, também encontramos a primeira forma de distinguir uma fórmula inválida de uma “possivelmente” válida. Com a inválida, você terá enorme dificuldade de definir o domínio. Partimos sempre do domínio maior, aquele que funcionaria para todo mundo em todos os cenários. A fórmula quebra na hora, então começamos a reduzir esse domínio e, invariavelmente, ele encolhe até chegar a um único caso que funcionou alguma vez.
Sistemas Complexos, Biografias e a falácia das “evidências”
E normalmente as fórmulas se reduzem mesmo a um único indivíduo. É o caso de toda biografia: a sequência de eventos por que determinado indivíduo passou só ele passou, e ela não se repete.
Falo sobre sistemas complexos faz muito tempo, desde pelo menos 2009 esse assunto chama minha atenção. Já incorri no erro de derivar teorias sobre o conceito, mas admito que até agora não fui bem-sucedido. Na verdade, todo o campo da sociologia e do estudo de redes ainda está na infância desse tipo de conhecimento, com pouca coisa em termos de postulados e leis. Portanto, interprete esse tipo de assunto com muito mais cuidado que o normal.
A física quântica também já foi indevidamente explorada no mundo da autoajuda. Veja calamidades como “What the Bleep Do We Know” para entender como transformar um assunto sério numa piada (que muita gente acha que é séria).
Correndo o risco de ser superficial, resumo a parte que interessa assim: no mundo real, somos todos parte de um sistema complexo adaptativo. Uma ação que eu tomo pode desencadear diversas outras, que por sua vez desencadeiam mais outras, e muitas delas interagem entre si, criando uma rede de incalculáveis nós e conexões.
É praticamente impossível determinar o final de uma cadeia de eventos em rede com inúmeras variáveis. Digo “praticamente” porque ainda não sabemos como determinar todas as variáveis da equação, e para todos os efeitos práticos isso torna qualquer previsão impossível.
Claro, dados certos limites de espaço, tempo e margens de erro, sabemos prever muita coisa, o suficiente para mandar foguetes a Júpiter com precisão. Por outro lado, existem muitos casos cujas margens de erro ainda são difíceis de controlar, e a própria meteorologia é um exemplo.
É daí que surge a ideia de que uma borboleta bate as asas na China e um maremoto atinge o Rio de Janeiro. A borboleta não causou o maremoto. Ela foi apenas uma condição inicial de uma cadeia intricada de eventos que, por acaso, resultou nele.
Agora, dado um certo resultado, em muitos casos podemos olhar para trás e rastrear a cadeia de eventos até as condições iniciais. Quem já assistiu CSI ou algum programa de detetives sabe que dá para coletar evidências e usar dedução para conectar eventos até um ponto de origem.
É assim que todas as “fórmulas” são criadas. A cadeia de eventos já aconteceu e não vai mais mudar, porque dentro do nosso Universo o passado é imutável e o tempo só tem uma direção.
George Santayana certa vez disse que “quem não aprende com a História está destinado a repeti-la”. Se levarmos ao pé da letra o que eu disse até aqui, vamos concluir que a História raramente se repete. Só porque as condições iniciais e o resultado se parecem com os de outro evento, a cadeia de acontecimentos no meio raramente é a mesma. Interpretar isso como “a História se repetindo” é coincidência e uma série de enganos que o nosso cérebro comete o tempo todo, incluindo o viés de confirmação.
Sei que esse trecho pode ser complexo, mas o ponto é este: só porque algo aconteceu uma vez, isso não significa que a mesma cadeia vai acontecer de novo.
As condições iniciais e a cadeia de eventos são o tal “domínio” restrito da “fórmula” que citei acima. E, como diria Duncan Watts, todo mundo se engana o tempo todo com o conceito de “óbvio”. Hoje parece óbvio dizer que o Facebook faz sucesso. Porém, em 2002, ninguém poderia prever que em 2012 existiria esse tal Facebook e que o seu IPO abriria com uma valorização de USD 104 bilhões. Depois do fato, podemos tentar traçar os eventos para trás e encontrar as condições iniciais e a cadeia que tornou aquilo possível. Nunca antes.
Empiricamente, de tudo que já vi oferecido por aí como bala de prata, a “melhor fórmula” parece muito boa, até você começar a questionar: “parece uma Fórmula que leva a um bom resultado (Imagem), mas quais são as condições iniciais necessárias? Qual é o Domínio dessa fórmula?”
E quando você começa a questionar isso, a teoria não se sustenta por 1 segundo. É o caso do Lean Startup, a moda do mundo tech. Veja as condições iniciais do Eric Ries: você encontra exemplos de Groupon, Intuit e HP, empresas que são tudo menos “pequenas startups”, mas o livro é evangelizado para todo pequeno empreendedor. Há uma contradição clara de condições iniciais, e o método científico é muito diferente do que o livro sugere.
“Mas há vários bons exemplos de pequenas startups que seguiram o Lean Startup e se deram bem.” E aqui vai outra lição que qualquer um que assistiu CSI sabe distinguir: cena de crime contaminada não serve para nada. Em nenhum desses casos dá para afirmar que a “causa” do sucesso foi ter usado Lean Startup. Pode haver uma “correlação”, e pequena, porque estamos falando de um sistema complexo adaptativo.
A borboleta “causou” o maremoto? A probabilidade é muito pequena. Mas aí entra o marketing. Como diria Joseph Goebbels, ministro da propaganda da Alemanha nazista, “quanto maior a mentira, mais acreditarão nela”, ou o derivado disso, “repita uma mentira vezes suficientes e as pessoas acreditarão que é verdade”.
Como diria Carl Sagan, “alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias”. E isso depende de um trabalho exaustivo de testes para quebrar a hipótese. Um medicamento, feito de forma séria, leva anos, às vezes décadas, até chegar às farmácias, mas balas de prata se tornam virais em questão de horas ou dias. Dependendo de quem fala e de como fala, aquilo ganha status de “verdade inquestionável” muito rápido. Valdomiro da Mundial que o diga.
Só porque “parece” que funcionou para 1, 2, 10 casos, isso não basta para tornar algo verdade. A “Teoria” da Evolução das espécies, de Charles Darwin, tem toneladas de evidências concretas e sólidas, vem sendo questionada, atacada e dilacerada minuciosamente por mais de 150 anos, e para todos os efeitos já é praticamente uma verdade absoluta. Mesmo assim, ainda não ganhou o status de “Lei”. Se nem ela ganhou, por que algo muito menos testado mereceria?
Conclusão
Na prática, a menos que faça parte do corpo de conhecimento científico já reconhecido e exaustivamente documentado, todo o resto é questionável, deve ser questionado e nunca deveria ganhar o status dogmático de “verdade”, por definição.
Autoajuda é pseudociência, por definição.
Fórmulas que garantem certo “resultado” (Imagem) sem um Domínio são incompletas e indefinidas, e isso vai necessariamente dividir opiniões, porque cada um tem o próprio domínio. E só porque um grupo é maior que quem está questionando, a fórmula não vira verdade. O contrário seria seguir a doutrina de Goebbels.
E aquilo que é de fato ciência comprovada não precisa de quórum, maioria ou “validação”. 2 + 2 será sempre 4, não importa quem queira contrariar.
Uma dica: para qualquer assunto que cruzar o seu caminho, use o Google. Coloque o termo com a palavra “debunked” ou “skeptic”, “fake” ou “scam”, e você vai encontrar a resposta. Por exemplo, procure por “The Secret Debunked” e veja quanto já foi publicado colocando abaixo a tal “Lei da Atração”. Eu pratico isso o tempo todo. Nada é inquestionável, não importa quem está dizendo.
Desde a infância sou um grande defensor de destruir a pseudociência, porque ela causa mais mal do que quase qualquer outra coisa. Lembrem-se de que coincidências acontecem, e não são tão raras assim.