[Off-Topic] Steve Jobs, The Lost Inverview

2012 July 08, 20:43 h - tags: steve-jobs

Quem acompanha o mundo Mac já deve ter visto que uma entrevista muito antiga, que se imaginava perdida, foi encontrada em VHS recentemente, restaurada e agora está acessível. Mais recentemente, se tornou disponível para alugar no iTunes Store – e outras fontes mais “geeky”, se preferir.

Além disso, quem já leu e assistiu tudo que foi publicado sobre Steve Jobs, a maior parte dessa entrevista não tem nenhuma novidade. A parte interessante é ver ele mesmo dizendo essas palavras. Em particular, eu gostei muito de rever a forma como ele pensa sobre produtos, gerenciar empresas, gerenciar pessoas. Particularmente porque eu penso da mesma forma e gosto de estar ao lado de pessoas que pensam da mesma forma.

Isso dito, vamos ver mais sobre isso na palavras do Steve Jobs:

Entrevista Perdida, faltando 37:15min

Entrevistador: O que sempre aparece é sua paixão, sua visão. Como você organiza suas prioridades? O que é importante para você no desenvolvimento de um produto?

Steve: (depois de longa pausa) Uma das coisas que machucou a Apple depois que eu saí foi que John Sculley pegou uma doença séria. E essa doença – e eu vi outras pessoas pegarem também – é a doença de pensar que uma grande idéia é 90% do trabalho. E se você simplesmente disser às pessoas “essa é a grande idéia”, então é óbvio que agora elas podem simplesmente e facilmente implementar essa idéia. E o problema com isso é que existe uma tremenda quantidade de habilidade e perícia (“craftsmanship”) entre uma grande idéia e um grande produto. E à medida que você evolui essa grande idéia, ela muda e cresce, nunca sai como você imaginou no começo, porque você aprende muito mais à medida que entra nas sutilezas.

Você também aprende que existe tremendos compromissos, “trade-offs” (escolhas entre o que é desejável e o que é possível), existem certas coisas que simplesmente não dá pra um elétron fazer, certas coisas que não dá para plástico fazer, ou vidro fazer, ou fábricas fazerem, robôs fazerem, e quando você vê tudo isso, desenvolver um produto é manter 5 mil dessas coisas em seu cérebro, esses conceitos, e encaixar todos eles juntos, continuar a empurrá-los, a encaixá-los juntos, em diferente maneiras para fazer o que você quer. E todo dia você descobre alguma coisa nova, tem um novo problema ou uma nova oportunidade, você encaixa as coisas um pouco diferente, e é esse processo que é a mágica. Então tivemos várias grandes idéias quando começamos, mas o que eu sempre acreditei que é uma equipe de pessoas fazem o que acreditam é … (pausa, mudando pra próxima idéia pra explicar)

Quando eu era criança, havia um homem viúvo que vivia na rua de cima, e ele estava lá pelos seus 80 anos de idade, com aparência um pouco de dar medo, e eu o conheci um pouco – talvez tenha me pagado pra cortar a grama ou coisa assim – e um dia ele disse “venha até minha garagem, quero te mostrar uma coisa” e ele me mostrou esse velho tambor giratório de pedras, era um moldador, com uma lata de café, amarrado junto. Nós fomos pra trás e pegamos algumas pedras, pedras feias, normais, e colocamos no tambor, com um pouco de líquido, um pouco de areia, e fechamos a lata. Ele ligou o motor e ele disse “volte amanhã” e a lata ficou fazendo barulho enquanto as pedras rolavam. E eu voltei no outro dia, abrimos a lata, e retiramos essa maravilhosas pedras polidas, as mesmas pedras comuns, ficarem batendo umas nas outras, criando um pouco de fricção, criando um pouco de barulho, e saíram essas pedras polidas lindas. E essa tem sido, na minha mente, minha metáfora para uma equipe trabalhando realmente duro em alguma coisa pela qual tem paixão. É através da equipe, desse grupo de pessoas talentosas, esbarrando umas nas outras, discutindo, brigando às vezes, fazendo algum barulho, e trabalhando juntas, elas acabam se polindo, e eles polem as idéias, e o que sai são essas lindas pedras.

Então, é difícil explicar, e certamente não é o resultado de uma única pessoa, quero dizer, pessoas gostam de símbolos, eu sou um símbolo de certas coisas, mas realmente foi um trabalho de equipe no Mac. Agora, na minha vida eu observei algumas coisas desde cedo na Apple, que eu não sabia como explicar na época, mas pensei muito desde então. Muitas coisas na vida, a “distância dinâmica” entre a média e o melhor é de no máximo 2 para 1. Por exemplo, se estiver em Nova Iorque e comparar o taxista médio com o melhor taxista, você vai chegar ao seu destino com o melhor taxista talvez 30% mais rápido? Um automóvel, qual a diferença do médio pro melhor? Talvez 20%? O melhor tocador de CD e o médio? Não sei, 20%? Então 2 para 1 é uma enorme distância dinâmica na maior parte da vida. Em software – e costumava ser o caso em hardware – a diferença entre o médio e o melhor é 50 para 1, talvez 100 para 1. Ok? Muitas poucas coisas na vida são assim, mas onde eu tive sorte de gastar minha vida é assim. Então eu construí muito do meu sucesso encontrando pessoas assim, e não me acomodando em ficar com pessoas nível “C”, mas realmente procurando pelos nível “A”. E eu descobri uma coisa, descobri que se você tem suficientes níveis “A” juntos – e você tem um enorme trabalho pra encontrar 5 desses níveis “A” -, eles realmente gostam de trabalhar uns com os outros, porque nunca tiveram tido chance de fazer isso antes, e eles não querem trabalhar com níveis “B” e “C”, então eles se autopoliciam, só querem contratar mais níveis “A”, então você constrói esses grupos de níveis “A” e isso propaga. E é assim que a equipe Mac era. Eles eram todos nível “A”, eram pessoas extraordinariamente talentosas.

Entrevistador: O que significa quando você diz a alguém “seu trabalho é uma merda”?

Steve: Ah, normalmente signfica “seu trabalho é uma merda”, algumas vezes significa “acho que seu trabalho é uma merda, mas posso estar errado”, mas normalmente significa “seu trabalho não está nem perto de ser bom o suficiente.”

Entrevistador: Tem uma citação de Bill Atkinson que diz que significa “eu não entendo bem o que significa, poderia explicar para mim?”

Steve: (risos) Não é normalmente o que eu quero dizer. Quando eu tenho pessoas boas, eles sabem que são realmente bons, e você não tem que ficar massageando o ego das pessoas demais, e o que importa é o trabalho. Todos sabem disso, é tudo que importa: o trabalho. Então contamos mesmo com essas pessoas para fazer pedaços específicos do quebra cabeça, e a coisa mais importante que eu posso fazer para uma pessoa que é realmente boa, e que realmente estamos contando, é apontar a elas quando seu trabalho não é bom o suficiente. E fazer isso bem claramente, articular o porquê, e trazê-los de volta aos trilhos. E você precisa fazer isso de uma maneira que não coloca em questão sua habilidade, mas que não deixe muito espaço para intepretação de que esse certo trabalho específico não foi feito de uma maneira boa o suficiente para suportar o objetivo da equipe. E isso é uma coisa difícil de fazer, e eu sempre usei uma forma bem direta. E se falar com as pessoas que trabalharam comigo, as pessoas realmente boas acharam que isso as beneficiou, mas algumas odiavam. E eu não me importo muito de estar certo, só me importo pelo sucesso. Vai encontrar muitas pessoas que vão dizer que eu tinha uma opinião muito forte e que elas apresentaram evidências do contrário e 5 minutos depois eu completamente mudei de idéia, porque eu sou assim: não me importo de estar errado, e eu admito que estive errado muitas vezes, mas isso não importa muito, o que importa é que fizemos a coisa certa.

Opinião Pessoal

Reforçando a motivação de eu citar esses trechos: só porque Steve disse não significa que é a verdade absoluta, não me subestimem. Minha opinião é que a grande maioria das pessoas “average”, a minha odiada “média”, costuma imaginar as coisas da maneira “romântica”: uma grande idéia é a solução.

Mesmo nessa nova geração que se auto-entitula “empreendedores”, ainda reina a ridícula noção que ter uma “grande idéia” é tudo que se precisa e o resto, a implementação, é mero detalhe. Até já vi alguns inocentemente querendo registrar sua idéia, achando que precisam protegê-la. Todos tem essa noção de que sua idéia vale alguma coisa. Vou dizer da forma mais elegante que já ouvi, dita pelo meu sócio: uma idéia não implementada vale exatamente zero, nulo, porcaria nenhuma. E uma idéia que, se ouvida, é tão facilmente replicada, vale menos porcaria ainda, é simples lixo. Repetindo: não tem talvez, nem meio talvez, uma idéia é vazia e nula até ser implementada. Duvido que alguém tenha na cabeça a cura do câncer e “só falta implementar”.

E a implementação de qualquer coisa que vale a pena implementar, um produto, um serviço, qualquer coisa, sempre é muito difícil. Se fosse simples qualquer um faria. E isso necessariamente significa que se as pessoas a bordo, empregados, parceiros, colaboradores, realmente tem orgulho do trabalho, da sua própria habilidade, o dia a dia tende a ser de atritos, de esbarrões, de problemas e frustrações. E não poderia ser diferente, porque é justamente algo que vale a pena. Se for algo trivial, suave, rotineiro, tranquilo, eu pessoalmente não tenho nenhuma vontade de fazer parte. Brigamos porque nos importamos, discutimos porque queremos fazer melhor, temos atritos não porque gostamos de ser cabeças duras mas porque estamos perseguindo algo melhor para amanhã do que fazemos hoje. E pessoas que não tem essa paixão, essa ambição de serem individualmente melhor amanhã do que são hoje, realmente não sei porque acordam todos os dias.

Eu sempre disse que “pessoas nível A contratam mais A, mas as pessoas níveis B contratam C e os C contratam o lixo”. Não sei a definição do Steve, mas na minha definição, uma pessoa nível “A” nunca é o tecnicamente mais habilidoso. Isso conta, mas está longe de ser o principal. Uma pessoa extremamente habilidosa, mas que na hora “H”, desaparece (o que eu chamo de “Ninja”, aquele que quando o problema esquenta, joga a bomba de fumaça e some), ou seja alguém que não dá para confiar, que não leva suas responsabilidades a sério, é um nível “D”, ponto final. Mas alguém com habilidades ainda não tão boas – seja por falta de experiência, etc – mas que responde à altura dos desafios: não foge, não inventa desculpas, corre atrás com as próprias pernas e só pára quando acha a solução, esse é um nível “A”.

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