[Off-Topic] Penn & Teller e Larry Flynt, sobre Liberdade

2010 March 07, 02:21 h - tags: philosophy off-topic principles

Estava assistindo o canal FX ontem e por acaso esbarrei numa reprise do excelente show Penn & Teller, Bullshit!. Eles são mágicos famosos que se apresentam em Las Vegas, já apareceram em diversos programas de TV e tem se próprio programa, o Bullshit!, que discute política, disputa o status quo, quebra falácias e folclores populares. Nesse episódio eles terminaram com um truque de mágica, queimando a bandeira americana e falando sobre Liberdade de Expressão. Assistam este trecho antes de continuar:

Não é novidade que eu sou um grande fã dos Pais Fundadores da América. Eu não sou particularmente de discutir sobre política, mas a filosofia me interessa. Nesse show, Penn queima a bandeira americana. Não sei se vocês sabem, mas esse ato que costuma ser executado em protestos públicos, em inúmeros países, é considerado um crime. Mas não nos Estados Unidos. Por causa da Primeira Emenda, que garante a Liberdade de Expressão, é inconstitucional ao governo censurar esse ato por ser considerado uma Expressão simbólica.

Ao final do truque, para quem não sabe, ele cita a segunda estrofe do Hino Americano, o Star-Spangled Banner:

On the shore, dimly seen through the mists of the deep,
Where the foe’s haughty host in dread silence reposes,
What is that which the breeze, o’er the towering steep,
As it fitfully blows, half conceals, half discloses?
Now it catches the gleam of the morning’s first beam,
In full glory reflected now shines in the stream:
‘Tis the star-spangled banner! Oh long may it wave
O’er the land of the free and the home of the brave.

Na costa, vista com dificuldade pelas névoas do oceano profundo,
Onde as orgulhosas hostes do inimigo em silêncio temoroso repousam,
O que é que a brisa, sobre o altíssimo precipício,
Enquanto sopra irregularmente, ora esconde, ora expõe?
Eis que ela reflete o brilho do primeiro raio de luz da manhã,
Em toda a sua glória refletida brilha sobre o rio:
É a bandeira estrelada! Ó, que por muito tempo ela tremule
Sobre a terra dos livres e o lar dos valentes.

A idéia é que a Liberdade de Expressão, a livre circulação de idéias, é muito mais importante do que a própria Bandeira que a simboliza, incluindo suas instituições. Esse valor é muito forte e extremamente importante para a fundação de uma grande sociedade.

Pensando sobre isso, me lembrei de outro caso famoso a esse respeito, O Hustler contra Jerry Falwell. Falwell é um desses líderes religiosos famosos na TV. Hustler é uma das maiores revistas pornográficas dos EUA. O ponto de discórdia foi uma sátira de um anúncio da Campari, publicada na Hustler, onde ela mostra uma entrevista satírica de Falwell falando sobre incesto com sua mãe, regado à Campari.

Falwell processou a Hustler. No final, o caso foi até a Suprema Corte e a decisão foi unânime 8 a 0:

“No coração da Primeira Emenda está o reconhecimento da importância fundamental do livre fluxo de idéias e opiniões em assuntos de interesse e preocupação pública. A liberdade de dizer o que se pensa não é apenas um aspecto da liberdade individual – e portanto um bem em si mesmo – mas também é essencial para a busca comum pela verdade e da vitalidade da sociedade como um todo. Portanto nós temos estado particularmente vigilantes para garantir que a expressão individual de idéias permaneçam livres de sanções impostas pelo governo.”

Se você ainda não assistiu, recomendo o filme The People vs Larry Flynt que mostra esse episódio. Veja a argumentação do caso no vídeo abaixo:

Para que uma sociedade floresça e se sustente, ela precisa de fundações sólidas. Por isso mesmo sou um grande fã dos Pais Fundadores, que nos anos 1700 tiveram a visão de escrever peças-mestre como a Declaração de Independência e a Declaração de Direitos dos Cidadãos.

No caso, todo esse pensamento para mim se mistura com o pensamento de Organizações, no sentido amplo da palavra, e Empresas, no sentido mais restrito. Em uma escala miniaturizada, uma empresa é uma comunidade, com sua própria cultura, regras, leis e governos. E nesse sentido me espanta como a fundação ideológica dessas comunidades ainda é muito primitiva. A maioria ainda se assemelha a Governos Totalitários, segundo a definição:

Totalitarismo é um sistema político onde o estado, normalmente sob o controle de uma única organização política, facção ou classe, não reconhece limites à sua autoridade e se esforça para regular cada aspecto da vida pública e privada onde quiser. Totalitarismo é geralmente caracterizado pela coincidência do autoritarismo (onde cidadãos ordinários não tem parte significativa nas tomadas de decisão do estado) e ideologia (um esquema perverso de valores promulgados por meios de instituições para dirigir a maioria dos aspectos da vida pública e privada).

Regimes ou Movimentos Totalitários se mantém no poder político por meio de uma ideologia oficial e propaganda disseminada por mídia controlada pelo estado, um único partido que controla o estado, cultos de personalidade, controle sobre a economia, regulação e restrições de discussões livres e críticas, o uso de vigilância em massa e uso de terrorismo do estado.

Soa familar? Garanto que você consegue descrever muitas empresas com a definição acima. Você tem direito à “liberdade de expressão”? Ou algumas opiniões são passíveis de punição, especialmente se forem semelhantes ao caso Falwell?

Na minha opinião, um documento de Missão e Valores de uma empresa, para não ser totalmente imprestável, deveria ser semelhante ao Bill of Rights e começar pelo menos com a mesma coisa que a Primeira Emenda.

Comments

comentários deste blog disponibilizados por Disqus