No dia 27 de Janeiro, a Apple finalmente anunciou o lançamento do seu iPad. Como muitos já descreveram, é basicamente um iPhone com tela 4 vezes maior :-) Não vou repetir o que todo website já descreveu sobre suas funcionalidades. Recomendo muito que se assista o vídeo do keynote para entender melhor do que se trata.

Porém, muitas críticas já apareceram. Gostaria de discutir algumas delas pelo meu ponto de vista :-) Mas não as considere como “certo” ou “errado”, mas como uma forma de raciocinar o possível “por que” de algumas das decisões. Pode parecer mais estranho considerando o artigo que acabei de escrever, mas a idéia não é justificar porque o iPad vai revolucionar o mercado ou coisa parecida, apenas elocubrar sobre algumas características do produto.

Multi Tasking

A primeira coisa que eu li, é a crítica sobre a falta da possibilidade de executar múltiplas aplicações ao mesmo tempo. Especialmente para nós “geeks”, isso parece imperdoável. Mas olhe por esta ótica: é uma crítica recorrente ao iPhone, é uma das coisas que os geeks gostam do Android.

Agora, a Apple só pode ser burra, ou surda, ou cega. Faz meses que dezenas de blogs, sites especializados criticam a falta dessa funcionalidade considerada tão “vital”. Portanto ou a Apple é incapaz de entregar esse valor ou ela escolheu simplesmente ignorar todos os seus clientes.

Mas essa premissa é idiota em si mesma: a Apple certamente é capaz de entregar isso. Tecnicamente falando o iPhone OS é derivado direto do Mac OS X, o sistema operacional de desktops e notebooks que nós sabemos que tem essa capacidade. Portanto ela fez o contrário: ela embutiu no iPhone OS a capacidade de limitar multi-tarefa. Portanto foi uma escolha consciente e da qual ela não voltou atrás. Por que?

Eu sou um usuário de dispositivos portáteis desde pelo menos 1996, quando comprei meu primeiro Palm Pilot 1000, ela tinha um processador Motorola de meros 16Mhz, somente 128Kb de memória, tela monocromática com meros 160×160 pixels. Seria pedir demais que ela suportasse multi-tarefa. Mesmo assim muitos geeks criaram pequenos hacks que permitiam essa capacidade, mas a Palm em si nunca entregou isso mesmo quando as novas versões foram ganhando processadores melhores e mais memória.

Um de seus maiores concorrentes foi o Windows CE, nos velhos Palm Sized PC. Eu tive um Cassiopeia E10, que tinha mais recursos, uma tela muito maior com mais resolução e um sistema operacional que permitia multi-tarefa. Quando você apertava no botão que parecia de “fechar uma aplicação”, na realidade ele “minimizava” ou escondia a aplicação em background e a mantia rodando. Apesar de contra-intuitivo, os hacks que eu tinha na época era para fazer esse botão efetivamente fechar a aplicação pois caso contrário facilmente o dispositivo ficava lento e a coisa mais chata que se tinha para fazer era abrir o “Task Manager” e começar a fechar as aplicações. Agora, esse trabalho é chato e torna a experiência algo ruim.

O problema é que geeks dão péssimos Gerentes de Produtos ou, no linguajar Agile, Product Owners. Geeks são bons em fazer produtos para geeks. O Android, por exemplo, é um produto de geeks para geeks. Por outro lado produtos como o Windows CE são produtos de comitês e normalmente são feitos sem propósitos claros.

O Caso de Uso de dispositivos como Palms, ou mesmo os iPhones, é serem usados quando não estamos na frente de um computador, são para pessoas “on the go”, que também chamamos de “road warriors”. Eu tenho um Mac Mini em casa, tenho um Macbook Pro 15" que carrego comigo, mas mesmo assim gasto um bom tempo navegando na internet, respondendo e-mails e assistindo videos diretamente no iPhone. É muito prático. Seja quando estou na rua, seja quando estou em eventos e conferências, seja quando estou no aeroporto ou rodoviária esperando para viajar. Não tem nada mais prático do que ligar o iPhone e simplesmente usar.

Em nenhum momento ele me deixou na mão, ficou lento sem motivos, precisei reiniciar porque não está respondendo e, mais importante, nunca precisei ficar fazendo faxina nos aplicativos abertos, fechando um a um. A única aplicação que eu realmente preciso que esteja sempre aberta é o iTunes, porque quero escutar músicas no aeroporto ao mesmo tempo que respondo um e-mail. Mas o iTunes já tem essa capacidade. Fora isso não vejo outro grande uso. Claro, instant messengers como um Fringe ou Skype seriam bons se ficassem abertos, mas sinceramente, eu não consigo me ver trocando futilidades via IM na sala de espera do aeroporto. Se precisar, esses aplicativos usam a API de Push Notification e isso me basta. Se preciso falar com alguém com urgência não vou usar um IM, vou enviar um SMS, e isso também é simples. Se o que quero dizer não é tão urgente, um e-mail é suficiente e isso também é simples.

Portanto, entre as raras (bem raras) ocasiões onde multi-tarefa seria útil, contra a maior parte do tempo onde quero um dispositivo responsivo, rápido e que não consuma minha bateria a toa, obviamente eu escolho multi-tarefa fora da equação.

Mas não quer dizer que o iPhone ou iPad nunca terão multi-tarefa. O mesmo volume de crítica veio quando o iPhone não tinha capacidade de copy & paste. “Que burros!” muitos disseram. Novamente, nunca considere uma empresa como a Apple simplesmente “burra”, novamente foi uma decisão consciente. Mas ele colocaram essa funcionalidade mais tarde não porque a “pressão foi grande” ou coisa parecida, mas sim porque eles decidiram que encontraram a maneira certa do ponto de vista técnico e de usabilidade que justificavam acrescentar essa funcionalidade, e de fato o copy & paste do iPhone é perfeito, simples, fora do caminho e faz o que promete.

Novamente, copy & paste é “super ridículo”, todo sistema operacional tinha isso há décadas. Mas é a velha história do MVP (Minimum Viable Product), eles tinham o iPhone OS pronto, mas ainda faltavam muitas features, como o copy & paste. Escolho lançar o produto agora e incrementalmente colocar essas funcionalidades ou espero até tudo estar pronto? Eles escolheram lançar, e estavam certos. Hoje já temos muitas dessas funcionalidades.

Mais ainda, esqueçam os geeks: a grande maioria dos consumidores de dispositivos como esse são pessoas comuns. Advogados, comerciantes, estudantes, médicos, artistas, esportistas. Nenhum deles tem a mínima paciência para entender que diabos é um “Task Manager”. A solução para eles sempre é “reiniciar para ver se melhora” e isso se traduz em: “que droga de produto esse que sempre fica lento!”

Ou seja, um bom Product Owner sabe escolher o que deixar de fora mesmo que algumas pessoas digam “mas é óbvio que já deveria ter” e colocam depois, quando chegarem à conclusão que está bom o suficiente. Em ambos os casos eu acredito que o equivalente Product Owner da Apple acertou nas escolhas. Não importa para ele o que algumas pessoas criticam ou reclamam (que por acaso são as que mais escrevem online), para a grande maioria das pessoas simplesmente não faz diferença se tem multi-tarefa ou não, mas vai fazer diferença se a bateria acabar rápido demais ou se precisar ficar reiniciando o dispositivo (porque ele não sabe o que é um “Task Manager”).

O objetivo de uma empresa não é “satisfazer o cliente” a qualquer custo, o objetivo de uma empresa é “ganhar dinheiro” e isso às vezes significa não satisfazer alguns clientes para satisfazer uma quantidade maior. Quem tentar satisfazer todo mundo ao mesmo tempo, sempre dará um resultado medíocre para cada um.

Sistema Fechado

A outra grande crítica dos geeks é que a Apple limita bastante quais aplicações podem estar na App Store e quais não podem. Isso vai totalmente contra o que desenvolvedores open source conhecem. Vai contra sistemas proprietários como Windows ou Mac OS X, que permitem ao desenvolvedores fazer uma aplicação e distribuí-la sem precisar de aprovação de ninguém.

Como o iPhone, iPod Touch e iPad todos rodam no iPhone OS, que por sua vez é um derivado do Mac OS X, todo mundo assume que se trata do mesmo tipo de sistema de uso geral e que, portanto, precisam que ele seja aberto e permita que qualquer aplicação rode nela, sem aprovação.

Novamente, quero evitar dizer que isso está “certo” ou “errado”. Mas quero trazer algumas peças à mesa. Talvez quem goste de videogames desde o fim da década de 70 ainda se lembre disso, mas o mercado de videogames sofreu dois grandes crashes, um em 1977 e outro em 1983. Dois colapsos.

O que aconteceu foi que surgiram uma quantidade grande demais de opções de videogames, uma gama grande demais de jogos ruins e tudo isso arruinou quase que completamente o mercado, foi o que fez desaparecer grandes nomes da época como Magnavox/Odyssey e Atari. Não foi até 1983 com a japonesa Nintendo que o mercado de videogames realmente começou a amadurecer.

O mundo moderno de videogames é fechado, sempre foi desde o começo dos anos 80. Empresas como Nintendo e Sega na época ou Nintendo, Sony e Microsoft hoje, tem um modelo de negócios fechado. Eles se comprometem a vender os consoles a preços abaixo do custo, a fazer o trabalho grosso de marketing e os produtores se comprometem a licenciar as tecnologias, os pacotes de desenvolvimento e a pagar uma porcentagem de cada jogo vendido de volta aos fabricantes dos consoles. Portanto, se a Square Enix vender milhões de Final Fantasy XIII, a Sony não ganha só no aumento das vendas do PS3, mas ganha uma porcentagem por jogo vendido.

Mais do que isso, os kits de desenvolvimentos precisam ser comprados do fabricante do hardware e não podem ser redistribuídos, não podem ser revendidos, e toda a propriedade intelectual é fechada. Pode procurar, você não irá encontrar um SDK para PS3 aberto a qualquer um.

O XBox 360 até possui um XDK, um kit de desenvolvimento, mas somente desenvolvedores licenciados podem compilar código e lançar os binários. É ilegal qualquer um desenvolver um software para XBox e lançar sem ser licenciado.

Agora, não vou discutir a ideologia de software livre nem nada disso, especialmente porque a existência de sistemas fechados como videogames, smartphones, torradeiras, microondas, geladeiras, etc não impedem a existências de plataformas abertas como o PC. Mas, novamente, o objetivo de uma empresa é ganhar dinheiro. Por mais negativo que isso possa soar, pensando friamente, para que ser uma empresa que não ganha dinheiro? Os meios para atingir esse objetivo variam bastante, indo desde ser bonzinho até pratica o mal, mas o objetivo continua sendo o mesmo.

Vejamos, videogames rodam sistemas operacionais conceitualmente similares aos sistemas operacionais de desktops. O XBox 360 é inclusive mais próximo de um sistema operacional comum (Windows) do que qualquer outro.

Os novos dispositivos da Apple também usam sistemas operacionais próximos a um sistema operacional comum (Mac OS X). Em ambos os mercados os desenvolvedores precisam ser licenciados para lançar softwares. Os jogos para videogames vem encriptados com sistemas de DRM, assim como os aplicativos do App Store da Apple. A diferença é que a Apple não vende seus dispositivos a preços subsidiados mas por outro lado não cobram as mesmas taxas por aplicativo vendido. Um iPhone não é tão diferente assim de um Sony PSP. Porém eu não vejo tanta gente criticando videogames por serem fechados, mesmo sendo um mercado de entretenimento altamente lucrativo e que até ultrapassa o mercado de Hollywood.

Mesmo assim isso não garante que aplicativos/jogos muito ruins apareçam o tempo todo. As revistas especializadas estão cansadas de dar nota perto de zero e eleger o “pior jogo do ano”. Quem não se lembra do clássico fiasco que foi o jogo ET para Atari e outros fiascos dessa indústria?

Os medos que surgem de uma plataforma com a da Apple hoje deve vir dos acontecimentos da Microsoft entre os anos 80 e 90. A Microsoft era um Monopólio, não há nenhuma dúvida disso, e através dele eliminou seus concorrentes. Casos como a da Netscape ou o DR-DOS são famosos.

Acho que a comparação é incompleta porque a Apple não é necessariamente um monopólio, ou pelo menos não foi julgada como tal até agora. Tanto que ao iTunes Store existem alternativas como a Amazon MP3, Lala, Napster, Rhapsody, Walmart. À App Store, existem os equivalentes da Nokia, da RIM para Blackberries e os para Android. Ao novo iBookstore da Apple, existe a da própria Amazon para Kindle e da Barnes & Noble para Nook.

A App Store pode ser considerada uma loja. Assim como você coloca o que quer na sua loja, a Apple coloca o que quiser na sua loja. Se essa loja não o agrada, você deve escolher não entrar mais nela e passar a frequentar outras lojas. Mas não é normal você chegar na frente de uma Lojas Americanas e começar a reclamar na frente dela que você quer vender seu artesanato nas suas estantes e ficar frustrado quando ela diz que não.

Outras Críticas Menores

“Falta uma câmera.” Para esta eu não tenho nenhuma boa análise, a não ser que foi uma das dezenas de coisas que poderiam estar no iPad que foram escolhidas para não estar. Justamente porque não há nenhuma boa justificativa para ter ou não ter, talvez faça mais sentido avaliar se esse caso de uso realmente existe para depois decidir colocar mais um equipamento e mais um software. Lembrem-se: MVP. Não acho difícil enxergar um “iPad 3GS” no futuro com camera como “nova funcionalidade”.

“As bordas do iPad são largas demais.” Este é um dispositivo razoavelmente grande (9.5" de tela), com tela de vidro, pesando quase 1kg. Além disso ele ainda tem tela com multi-touch e um acelerômetro e você vai querer girá-lo de vez em quando, especialmente quando estiver jogando. Pelos vídeos que vi, acho que as bordas são de um tamanho razoável para que possamos segurá-lo sem perigo de derrubar a toda hora.

“O iPad deveria vir com o Mac OS X do que o iPhone OS.” Essa é mais dos geeks, que gostariam de um sistema completo em vez de um sistema mais focado. Mas esse é um erro de usabilidade. O iPhone OS foi construído pensando na usabilidade de pessoas “on the road”, como disse antes. Por exemplo, o fato de já ter aplicativos e suporte extensivo a multi-touch, coisa que um Mac OS X e outros sistemas não tem. Pense no teclado virtual: ele só dará certo porque o teclado virtual do iPhone possui um excelente recurso de auto-correção. Qualquer tentativa de fazer um Mac OS X com suporte a multi-touch ficará parecendo uma gambiarra. Além disso ele não foi feito para ser uma workstation, portanto não é importante que não rode XCode, Photoshop, e outros aplicativos mais complexos. O iPhone OS é perfeito para o iPad. Se quiser um Mac OS X, é porque você precisa de um notebook, não de um iPad.

“Falta suporte a Flash.” Essa é uma questão de gosto. Do ponto de vista puramente tecnológico, alguém precisa desistir de algumas coisas e forçar os novos padrões. Enquanto existir Flash e browsers que permitem Flash, para que diabos vou usar as novas funcionalidades de vídeo do HTML5? Já no iPhone, iPod Touch e iPad eu não tenho outra escolha. O interesse de mostrar os videos à maioria das pessoas é dos donos de sites como YouTube e Vimeo, portanto se o usuário final não os vê nos seus dispositivos, isso não é problema da Apple. Tanto que finalmente YouTube e Vimeo já suportam video via HTML5. E esse é o caminho. E tirando video, não existe mais nenhum uso razoável para Flash, especialmente num dispositivo móvel. Com HTML5 e frameworks cada vez mais completos via Javascript, tudo que um Flash fazia antes não é mais necessário, portanto para mim eu prefiro que meu iPhone continue sem Flash. Se eu quiser um jogo decente, vou na App Store e compro uma versão nativa.

Há outras críticas, mas acho que a maioria delas não compensa discutir muito mais.

Casos de Uso

Mais importante se o dispositivo é tecnicamente interessante ou não é onde eu vou usá-lo. “Para que diabos eu preciso de um iPad?”

Eu não sou heavy-user de iPhone. Mas uso todos os dias, justamente porque ele é útil. Eu leio meus feeds no Google Reader, respondo alguns e-mails, vejo meu Twitter e assisto alguns video podcasts todos os dias. Sempre que estou fora da minha mesa – e isso tem acontecido com muito mais frequência do que eu gostaria – me mantenho conectado via o iPhone. Especialmente quando estou viajando, ou quando não posso ter acesso ao meu notebook, ele é muito útil.

Especialmente em casa, depois de chegar do trabalho, quero adiantar alguns e-mails e ler alguns feeds, mas fico com preguiça de tirar meu notebook da mochila. E daí eu uso meu iPhone, mas um iPad seria muito mais confortável. Mesmo no escritório, eu levaria um iPad muito mais do que levo um notebook, seria bem mais confortável. Eu também detesto andar com um caderno e caneta em reuniões, mas consigo me ver fazendo pequenas anotações somente com o teclado virtual.

Dificilmente me vejo usando um iPad na rua, num Shopping Center, mas certamente levaria a uma conferência (especialmente com o suporte a Keynote, para minhas palestras), usaria num ônibus de viagem ou num avião, na rodoviária (talvez), no aeroporto.

Ou seja, seriam exatamente os mesmos casos de uso de um Netbook. Porém com uma experiência muito melhorada, pela qualidade superior da tela, pela boa duração da bateria (10 horas), pelos aplicativos e sistemas simples – mas não ruins – que melhoram minha experiência de uso “on the road”. Posso dizer isso pela qualidade dos aplicativos do iPhone. Simples não é pior, assim como Complexo não é bom. Normalmente é bem o contrário.

Conclusão: no começo eu twitei bem negativamente ao iPad. Mudei meu ponto de vista depois de ler mais a respeito. Agora acho que vou comprar um assim que sair :-) O preço dele é compatível com o dos Netbooks e eu terei muito mais uso prático para ele do que um Netbook que roda sistemas genéricos com aplicativos não otimizados para meus usos “on the road”. Mas será que o iPad será um sucesso como o iPhone? Isso é difícil de prever, lembrando que a Apple já lançou produtos que pareciam bons no começo e se provaram ruins de venda como o antigo G4 Cube, mesmo os atuais Apple TV e Macbook Air não são grandes sucessos de venda.

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