[Off-Topic] O problema das credenciais

4 de novembro de 2009 · 💬 Participe da Discussão
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Todos já sabem que sou um forte proponente contra certificações, especificamente na área de Informática. A intenção por trás delas é boa, mas o efeito prático acaba sendo mais danoso que os benefícios. Como dizem, “de boas intenções o inferno está cheio.”

Eu iria além e colocaria um termo guarda-chuva por cima disso: sou contra “Credenciais” em geral, principalmente quando usadas fora de contexto. E gosto de argumentar sobre a própria argumentação. Faz tempo que menciono falácias sempre que posso. Estou longe de um entendimento completo do assunto, mas tento expandir essa compreensão sempre, e acho que todo mundo deveria.

Um exemplo simples. Eu adoro o trabalho de um Martin Fowler, ou de um Robert Martin. Acho os insights deles muito valiosos e as recomendações excelentes, gente que se esforça de verdade para estar acima da média. O problema é que eles também são seres humanos e, como tais, têm defeitos. Isso é um fato indiscutível, que precisamos assumir em toda argumentação. Só porque um Uncle Bob disse alguma coisa, aquilo não vira verdade automaticamente.

Deveria ser óbvio, mas muita gente se “deslumbra” com celebridades. Viram literalmente “cheerleaders”. Porque o sujeito trabalhou numa empresa de renome, ou escreveu um livro, ou simplesmente porque é gringo, qualquer coisa que ele diga passa a ter peso de verdade. E isso é um enorme perigo.

Tudo o que os grandes nomes falam precisa passar pelo mesmo escrutínio que a fala de alguém sem renome. Sem exceções. Eu repito muita coisa que um Fowler diz porque faz sentido na prática: dá para experimentar, discutir e, principalmente, refinar e evoluir. O nome dele não é o que dá peso ao argumento.

Isso é a falácia da argumentação por autoridade: porque A disse B, e porque A é considerada uma autoridade, portanto B é verdade. Prestem atenção que usamos isso todos os dias. Essa e mais uma dúzia de outras falácias (vide lista abaixo) aparecem diariamente, e caímos nelas o tempo todo.

O contrário também vale. Só porque o Philippe Kruchten ajudou a criar o RUP não quer dizer que ele seja ruim (brincadeira, o cara é muito bom). Aliás, isso me incomoda bastante: atacar uma tecnologia ou prática atacando quem a criou. Algo como “Rails é ruim porque o David é arrogante”. É a falácia conhecida em inglês como Strawman (“homem de palha”), que numa forma mais geral é trazer um assunto irrelevante para desviar a atenção do ponto principal.

Os dois casos são ruins. Isso alimenta também a tendência de ignorar quem não tem renome. O seu funcionário mais experiente, que realmente entende do problema, às vezes é ignorado porque alguém de mais renome, mas totalmente fora do contexto, soltou certas “verdades”. Agora aquela “verdade” virou lei. Sem mais perguntas.

E o inverso também existe: acreditar no funcionário mais antigo só por ele ser o mais antigo. Nenhuma dessas é uma boa justificativa. A pessoa é secundária. O que pesa é o argumento, desde que siga o método científico.

O fato é que a maioria de nós tem preguiça de pensar. Preguiça pura e simples. Além disso, fomos criados com figuras de autoridade que sempre teriam mais razão do que nós, algo que eu associaria a baixa autoestima. Então, quando aparece alguém numa posição de autoridade, a tendência é aceitar o que vem dela, ainda mais se já estamos confortáveis com aquele entendimento. É o velho problema de sair da zona de conforto.

A maioria das pessoas não foi treinada para mudança, foi treinada para estabilidade. Por isso qualquer coisa diferente é vista com maus olhos. A maioria só escuta o que quer escutar e só enxerga o que quer enxergar. Ninguém de fora consegue mudar isso facilmente em outra pessoa, o que é bem triste.

Alguns artigos da Wikipedia sobre argumentação:

Uma pessoa que não gosta de argumentar, por definição, não pode ser tomadora de decisões. Muitos usam a credibilidade dos outros de forma indevida (“porque o fulano disse, fora de contexto, mas disse…”). Pior ainda é quando a decisão é tomada no grito, pela força do cargo. Essa é a atitude de quem tem clara incapacidade de argumentar e, portanto, de entender o assunto.

Claro que, em muitas ocasiões, somos forçados a decidir “por instinto”. Se ficássemos o dia inteiro argumentando cada pequena decisão, não faríamos nada. Imagine discutir se devo vestir a camisa vermelha ou a amarela, e por quê. Não estou falando de micro-argumentação, que, assim como o microgerenciamento, não funciona.

Mas decisões que envolvem pessoas e pontos de vista divergentes merecem mais calma. Se, mesmo depois de argumentar, não der para tirar uma conclusão lógica de nenhuma das premissas, no fim é o instinto que guia a solução. Argumentação fica no campo das ciências humanas: usa princípios científicos para formular argumentos melhores, sem a precisão de uma ciência exata.

Ainda no campo das falácias, muita gente acredita na “ditadura da maioria”, no “se a maioria disse que é verdade, então deve ser”. Uma das formas dessa falácia é o argumentum ad populum, aquele jeito malicioso de começar a frase com “Todo mundo sabe que…”. Eu sempre digo que admiro os pais fundadores dos Estados Unidos por terem tido insights avançados para a época, que até hoje muita gente não entende direito. Citando Thomas Jefferson:

Todos, também, devem ter em mente este princípio sagrado: embora a vontade da maioria deva prevalecer em todos os casos, essa vontade, para ser legítima, precisa ser razoável; a minoria possui direitos iguais, que leis iguais devem proteger, e violá-los seria opressão.

Portanto, não é que “a maioria vence em todos os casos”, e sim que “a maioria vence nos casos que não violam os direitos da minoria”. A diferença é sutil. Imagine a maioria decidir que sua propriedade deve ser tomada, e concluir que, por ser maioria, está correta. Cada indivíduo tem direito à própria propriedade, e o governo existe para protegê-la. A vontade da maioria de tomar a propriedade de alguém é anulada porque um direito fundamental está sendo violado. Isso, por definição, se chama opressão. Democracia é outra coisa.

Pensar é difícil. Exige estudo, exige cultura, exige prática. Pensar com afinco não é algo que a maioria das pessoas “ocupadas” tem vontade de fazer. A maioria prefere respostas prontas e enlatadas, ou escolher qualquer coisa rápido “por instinto”.

Vale também o “já escolhi certo antes, então vou escolher certo sempre” ou o “já funcionou antes em algum lugar, então funciona aqui também”. Isso é a boa e velha falácia Post hoc ergo propter hoc.

A “Post hoc ergo propter hoc” é justamente o motivo de livros de autoajuda, metodologias mágicas, receitas “avançadas” e todo tipo de procedimento enlatado venderem tanto. Eles tiram das pessoas o trabalho de pensar e entregam respostas prontas, “que já funcionaram em dezenas de lugares”, ou algo do gênero.

Algumas dessas receitas, depois de pesquisa e experimentação prudente, são boas mesmo. A maioria, porém, me lembra uma alegoria sobre medicina. Imagine se todos os médicos agissem assim. Você entra no consultório e diz:

  • Doutor, estou com muitas dores.
  • Meu filho, tome este remédio todo dia e a dor acaba. Pode ir embora.
  • Mas doutor, o senhor não vai nem me examinar, me diagnosticar?
  • Pra quê? Já dei este remédio para os últimos 3 pacientes e todos melhoraram. Por que seria diferente com você?

Engraçado? Não deveria ser. Reveja as decisões que você toma, ou que as pessoas à sua volta tomam, e vai notar que elas se parecem muito com essa alegoria. E com a maioria dos argumentos falaciosos que citei neste artigo. Eu mesmo me pego caindo nesse tipo de truque muitas vezes. Até a pessoa mais policiada cai. Argumentação é uma arte. Compreensão também.

Portanto, a única coisa a fazer é o que eu digo o tempo todo: Seja Cético. Questione sempre o Status Quo.