[Off-Topic] O problema das credenciais

2009 November 04, 19:21 h - tags: career off-topic principles

Não é de hoje que todos sabem que eu sou um forte proponente contra certificações, especificamente na área de Informática. Apesar da intenção em si ser boa, o efeito prático é mais danoso que os benefícios. Como dizem, “de boas intenções o inferno está cheio.”

Porém, eu iria mais longe e colocaria um termo guarda-chuva. Na realidade eu sou totalmente contra “Credenciais”, em geral, particularmente fora de contexto. E além disso, eu também gosto de argumentar sobre argumentação. Não é de hoje que menciono sobre falácias sempre que posso. Estou muito longe de um entendimento mais amplo, mas estou sempre tentando expandir essa compreensão e acho que todos deveriam.

Um exemplo simples: eu adoro o trabalho de um Martin Fowler, ou de um Robert Martin. Acho que seus insights são muito valiosos, suas recomendações são excelentes. Com certeza são pessoas que se esforçam para serem acima da média. Porém – e aqui vem o problema – eles também são seres humanos e, como tais, tem defeitos. Isso é um fato, indiscutível, que precisamos assumir em toda argumentação. Simplesmente porque um Uncle Bob disse alguma coisa, isso não configura automaticamente verdade.

Deveria ser óbvio, mas muitas pessoas se “deslumbram” com celebridades. Sério, viram literalmente “cheerleaders”. Ou seja, porque o cidadão trabalhou em alguma empresa de renome, ou porque escreveu um livro, ou simplesmente porque é um gringo, qualquer coisa que ele disser passa a ter peso de verdade. E isso é um enorme perigo. Tudo que os grandes nomes falam precisam passar pelo mesmo escrutínio que alguém sem renome diga. Sem exceções. Eu repito muitas das coisas que um Fowler diz, não porque o considero “a autoridade suprema” no assunto, mas porque o que ele diz efetivamente faz sentido, pode ser experimentado, discutido e, mais importante, abre caminho para ser refinado e evoluído.

Isso é nada mais, nada menos do que a falácia de argumentação por autoridade. Por que A disse B; e porque A é considerada uma autoridade; portanto B é verdade. Prestem atenção: usa-se isso todos os dias. Isso e mais uma dezena de outras falácias (vide lista abaixo) são usadas diariamente e nós caímos nelas o tempo todo.

O contrário também é verdade, só porque o Philippe Kruchten ajudou a criar o RUP não quer dizer que ele seja ruim (brincadeira, o cara é muito bom). Aliás, isso é outra coisa que me incomoda muito: atacar alguma tecnologia, prática ou coisa assim atacando o seu criador ou participante. Por exemplo, “Rails é ruim porque o David é arrogante”_. Isso é uma falácia e é bem conhecida em inglês como falácia Strawmanman (“homem-de-palha”) que em forma mais genérica é falar de um assunto irrelevante para tirar a atenção de discutir o assunto principal.

Ambos os casos são ruins. Isso nos leva à tendência também de ignorar as pessoas sem renome, seu funcionário mais experiente, que efetivamente entende do problema, às vezes é ignorado, porque alguém de mais renome – mas totalmente fora do contexto – lançou certas “verdades”. Agora essa “verdade” é a lei. Sem mais perguntas. E, claro, o contrário também existe: você só acredita no seu funcionário mais antigo justamente porque é o mais antigo. Nada disso são boas justificativas. O importante sempre é: não interessa a pessoa, interessa sim seus argumentos. E argumentos que sigam o método científico.

O fato é que a maioria de nós temos preguiça de pensar. Pura e simples preguiça. Além disso, a forma como fomos criados sempre trás figuras de autoridade e essa figura sempre tem mais razão do que nós – um sinal de baixa auto-estima, eu diria. Portanto, quando vemos alguém em posição de autoridade, a tendência é aceitar o que vem dela, especialmente se estamos confortáveis com seu entendimento – o velho problema de sair da zona de conforto. A maioria das pessoas não foi treinada para mudanças, foi treinada para estabilidade, por isso qualquer coisa diferente sempre é vista com maus olhos. A maioria apenas ouve aquilo que quer ouvir, só vê aquilo que quer ver. Ninguém de fora consegue mudar isso facilmente em outra pessoa, o que é bem triste.

Veja alguns artigos da Wikipedia sobre o assunto de argumentação:

Uma pessoa que não gosta de argumentar, por definição, não pode jamais ser tomadora de decisões. Muitos usam de credibilidade dos outros de forma inadequada (“porque fulano disse – fora de contexto, mas disse …”). Mas o pior é quando uma decisão é tomada no grito, por força do cargo, por exemplo. Essa é a atitude de um indivíduo com claras incapacidades de argumentação e, portanto, de compreensão do assunto.

Claro, em muitas ocasiões somos forçados a decidir alguma coisa “por instinto”. Se ficássemos o dia todo argumentando cada pequena decisão realmente não faríamos nada. Imagine argumentar se devo vestir a camisa vermelha ou amarela e porque. Não estou falando de micro-argumentação (que, assim como micro-gerenciamento, não funciona). Porém, decisões que envolvem pessoas, pontos de vista divergentes, devem ser analisados com mais calma. Se mesmo depois da argumentação ainda não for possível tirar uma conclusão lógica de nenhuma das duas premissas, no fim é o instinto que vai acabar guiando a possível solução. Argumentação não é uma ciência-exata, é humanas utilizando princípios científicos para uma melhor formulação de argumentos.

E ainda no caso de falácia, muitos ainda acreditam na “ditadura da maioria” ou “porque a maioria disse que algo é verdade é porque deve ser”. Uma das formas falaciosas é descrita como argumentum ad populumadpopulum, ou aquele jeito malicioso de se começar uma frase: “Todo mundo sabe que …” Eu sempre digo que admiro os pais fundadores da América por terem tido insights avançados para a época que até hoje as pessoas não entendem direito. Citando Thomas Jefferson, temos:

Todos, também, devem ter em mente este princípio sagrado, que embora a vontade da maioria deva prevalecer em todos os casos, essa vontade de ser correto deve ser razoável; que a minoria possui direitos iguais, que leis iguais devem proteger, e violar isso seria opressão.

Portanto, também não é “em todos os casos a maioria vence” mas sim “em todos os casos que não violam os direitos da minoria, a maioria vence”. Isso é sutil. Por exemplo, porque a maioria decidiu que devemos tirar sua propriedade, portanto isso está correto. Não, porque cada indivíduo tem o direito à sua própria propriedade e o governo deve protegê-la. Assim, a vontade da maioria de retirar a propriedade de alguém é revogada pelo fato de um direito fundamental estar sendo violado, o que se configura, por definição, como opressão, não como democracia.

Pensar é difícil, demanda estudo, demanda cultura, demanda prática. Pensar com afinco não é algo que a maioria das pessoas “ocupadas” tem vontade de fazer. A maioria prefere que lhe dêem as respostas prontas e enlatadas, ou então prefere escolher qualquer coisa rapidamente “por instinto”, ou “porque eu já escolhi certo antes, portanto vou escolher certo sempre” ou ainda “porque já funcionou antes em algum lugar, deve funcionar aqui também”, o que, obviamente é uma falácia, a boa e valha Post hoc ergo propter hocpropterhoc

Aliás, a “Post hoc ergo propter hoc” é o motivo de porque livros de auto-ajuda, livros com metodologias mágicas, receitas “avançadas” e todo tipo de procedimento enlatado vende tanto: porque retira o trabalho de pensar das pessoas, lhes dando respostas prontas, “que já funcionaram em dúzias de lugares”, ou coisa parecida.

Algumas efetivamente, depois de pesquisa e experimentação prudente, são boas mesmo. A maioria, no entanto, me lembra uma alegoria, sobre de medicina. Imagine, se todos os médicos agissem assim. Você entra no consultório do médico e diz:

  • - Doutor, estou com muitas dores.
  • - Meu filho, tome este remédio todos os dias e a dor acaba. Pode ir embora.
  • - Mas Doutor, o senhor não vai nem me examinar, me diagnosticar?
  • - Pra que? Já dei este remédio para os últimos 3 pacientes que passaram e todos melhoraram, porque vai ser diferente com você?

Engraçado? Não deveria ser. Reveja as decisões que você toma, ou que pessoas ao seu redor tomam, e vai notar que elas se parecem muito com essa alegoria. Aliás, se parecem muito com a maioria dos argumentos falaciosos que menciono neste artigo. Eu mesmo me pego caindo nesse tipo de truque, muitas vezes. Mesmo a pessoa mais policiada ainda cai. Argumentação é uma arte. Compreensão também.

Portanto, a única coisa a se fazer é o que eu digo o tempo todo: Seja Cético. Questione, sempre, o Status Quo.

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