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Off Topic: Coragem != Imprudência

Posted on May 26, 2008

Acho que nunca mencionei no meu blog, mas minha cunhada é estilista. Mais do que isso ela é uma estilista auto-didata. Este artigo não tem necessariamente a ver com nenhuma tecnologia ou técnica de programação, mas tem a ver com a forma como as pessoas encaram seu trabalho e suas carreiras, por isso achei interessante contar este “causo”.

Não é fácil ser programador, mais difícil ainda ser um “bom programador”. Mas o que define um “bom” programador? Acho que é a mesma coisa que define ser “bom” em qualquer coisa, por isso o exemplo da minha cunhada é interessante para ilustrar meu ponto.

Hoje ela ligou pra minha mulher, estava muito eufórica. A loja/fábrica onde ela trabalha, no Bom Retiro, em São Paulo, estava literalmente bombando, com dezenas de clientes eufóricas e comprando às toneladas. Como é uma loja atacadista de fábrica, as clientes são outras lojistas de todos os cantos do país, que vem para São Paulo para se abastecer com as novidades.

Ela está totalmente adrenada, atendendo as clientes, experimentando as roupas, fazendo o “social” e tudo mais. Bom, e por que isso é interessante? Por que até ontem absolutamente ninguém onde ela trabalha acreditava que isso fosse acontecer. Mais do que isso, muitos estavam literalmente “agourando”, dizendo que hoje seria um desastre. Soa familiar?

Coragem não é o mesmo que Imprudência!

Minha cunhada, assim como minha mulher cresceram numa família absolutamente instável. Vocês ainda não viram “instável” até ouvir a história delas. Não vou entediá-los com os detalhes, mas basta dizer que o pai delas era do tipo século retrasado “mulher estudar é uma perda de tempo, depois vai casar e colocar o diploma na gaveta.”

Eles já passaram fome, já foram pro meio do mato, até passaram alguns dias no meio dos índios. A mãe delas morreu alguns anos atrás e cada um dos (5) irmãos foi para um canto. Minha mulher e seu irmão já abriram um negócio, mas faliu. Enfim, comeram o pão que o diabo amassou.

No caso da minha cunhada, ela sempre foi vidrada em moda e estética, mesmo não tendo poder aquisitivo para sequer pensar em um dia ter um Louis Vuitton nas mãos. Na verdade, nas piores época não tinham um tostão sequer para pensar no almoço do dia seguinte, muito menos para pensar em moda.

Mesmo assim ela procurou seu caminho, sem sequer o ensino médio completo. Ela sabia que gostava de moda, estudou tudo que podia, conheceu pessoas da área, foi vendedora de grandes marcas, enfim, fez tudo para estar dentro do seu “meio”.

Recentemente, passou 3 anos em São José do Rio Preto trabalhando numa grande fábrica. Lá pôde exercitar seus talentos e com muito esforço fez sua marca. Talento sozinho não adianta nada sem estudo e experiência. Finalmente, resolveu voltar para São Paulo nos últimos meses.

Todo mundo sabe como é começar numa nova empresa, mesmo que você tenha um bom currículo, um bom portfolio. No caso dela é ainda pior, porque ela não tem estudo formal, “diplomas”, “certificados” nem nada, apenas o histórico do seu portfolio. Pior, ela entrou numa empresa com pessoas retrógradas e “by the book”. Soa familar com os ambientes corporativos?

Agora, como uma pessoa que é bem informada, que sabe o que está acontecendo aqui e no resto do mundo, é claro que ela tem muitas idéias. Como convencer sua chefe e seus pares de que elas podem funcionar?

Aqui vem o título do artigo: ela não está apenas “chutando”, ela estudou o assunto e “sabe” o caminho certo. Porém, todos dizem que está errado.

Finalmente veio a sua chance de fazer uma nova coleção, e ela botou em prática suas idéias. Não basta apenas falar, tem que fazer. Mesmo assim, foi necessário ter muita paciência, muita “politicagem” para fazer valer suas idéias. Houve muita “poda”, muito “não”, mas mesmo assim ela conseguiu fazer sua coleção segundo suas idéias.

Neste fim de semana elas montaram toda a loja para começar a atender as clientes hoje. Ela optou por lançar a coleção de Verão antes, em pleno começo de Inverno! Mais do que isso, optou por fazer um estilo diferente das demais lojas, com florais e coisas do tipo que a dona da fábrica estava muito insegura. As vendedoras então, só faltaram lançar tomates, tamanho o desdém.

Obviamente, com tanto negativismo, mals olhados, e tudo mais, ela estava bastante apreensiva. Afinal ela colocou o dela na reta, fez o que acreditava, estava bem embasada, mas, se falhasse, seria motivo de chacota de todo mundo. “Viu só? Não tem estudo nem nada e achou que poderia vir pra cá fazer como bem queria.” seria o mínimo que ela iria ouvir das mais invejosas.

Mas eu já contei o que aconteceu no começo do artigo: ela ligou algumas horas para cá dizendo exatamente o que esperávamos: “A loja está bombando! As clientes estão amando!” Não foi somente um resultado bom, foi um resultado excelente! O melhor de tudo: foi um cala-boca para todo mundo com quem ela trabalha. Agora eles vão ter que engolir! Amadores. Muitas dessas clientes tem lojas em regiões quentes, como no Nordeste, e a nova coleção de Verão e o estilo diferente das outras deixou todas encantadas. A loja não parou um segundo desde que abriu e, pelo visto, vai continuar assim.

Até certo ponto ela “sabia”, mas claro, é difícil garantir que dê certo. Até certo ponto era ousadia, mas uma ousadia bem pensada, não algo aleatório. Ela estudou para isso. E até certo ponto foi “feeling”, claro, é preciso um certo toque especial. Nenhum trabalho criativo pode ser mecanizado.

Foi uma pequena vitória que coroou sua competência perante os outros. Normalmente não devemos nos preocupar com o que os “outros” pensam, mas quando parte disso vem diretamente da sua chefe, é melhor se cuidar. Quem sabe agora ela dê mais espaço para que ela possa trabalhar sem ser podada o tempo todo.

É exatamente o que todos nós passamos o tempo todo. Já falei sobre isso neste artigo. Se você é “bom”, todo mundo quer puxar seu tapete. Ninguém gosta de parecer “ruim”, por isso quando todo mundo é “mais ou menos”, está tudo bem, pois ninguem destoa de ninguém.

Agora, quando alguém nitidamente melhor aparece, o pessoal do “mais ou menos” se desespera! Eles farão de tudo para puxar seu tapete e trazê-lo mais para perto do “mais ou menos”. Deveria ser o contrário, eles deveriam usar pessoas assim de modelo para melhorar, mas a prática mostra que o normal não é esse.

Pensar Diferente não é simplesmente ser excêntrico, ser louco, ou ser imprudente. Precisamos entender o contexto, o que parece “excentricidade” para os “mais ou menos”, na realidade é uma estratégia que naturalmente aparece para as pessoas que gostam do que fazem, estão sempre bem informadas e entendem todas as peças do jogo. Se você só conhece o Peão, fica abismado quando a Rainha começa a zigue-zaguear pelo tabuleiro.

No caso dela, ela precisou “entender” como as coisas funcionam, não somente dentro da área de estilista dela, mas como são os processos de uma fábrica, como funciona a cabeça de vendas (sendo que ela já foi vendedora). Um “bom” profissional não é aquele que é apenas bom em uma coisa, mas que sabe nadar conforme a maré, se posicionando sempre à frente dos demais. Se você apenas se especializa em uma única coisa, nunca consegue ver a perspectiva geral, o “big picture”. Um “bom” profissional também não se apega ao passado, porque já tem coisas demais no futuro para se ver. Ela tinha uma boa posição na fábrica do interior, veio para cá e começou um nível abaixo novamente e, novamente, está subindo degraus. Pouca gente gosta de descer de patamar e ter que subir de novo, mas um “bom” profissional encara isso com naturalidade: às vezes um passo para trás significa dois passos para frente mais rápido. Todo mundo que conheço tem medo de dar o passo para trás.

Você não pode apenas “querer”, você precisa “ser”. Não existe livro ou curso de auto-ajuda no mundo que tenha a receita mágica. Ou você é, ou você não é. E se ainda não é, só resta ‘se tornar’. Tentar puxar os outros para baixo, obviamente, continua sendo muito mais fácil, porém sem absolutamente nenhuma recompensa a não ser massagear o próprio – e minúsculo – ego, que é a única coisa que uma pessoa como essa ainda tem.

Um grande amigo meu sempre me disse que para a maioria, o buraco é fundo ou interminável, para alguns poucos, o fundo do poço tem uma grande mola. Eu disse que elas passaram por maus bocados por toda a vida, muito mais que a maioria que lê este blog já deve ter passado, e eu nunca ouvi nenhuma delas, nem minha cunhada, nem minha mulher, ficarem se lamentando e, muito menos, sentirem pena de si mesmas! Sentir pena de si mesmo é o mais baixo que uma pessoa pode chegar.

“No Pain, No Gain!”

Parabéns, cunhadinha, por mais uma vitória ;-) Como eu já disse, ganhar uma guerra é uma somatória de pequenas vitórias, cada uma delas conta.

Aliás, escrevi na lista rails-br hoje sobre “Não são as coisas que são caras, nós é que ganhamos pouco.” Parte disso eu vi na prática com minha cunhada. Outrora ela sequer tinha um centavo para comer um pão duro, mas ela sempre quis mais. Hoje ela desfila com seus óculos Dolce & Gabana pela Oscar Freire. Ainda está longe do que quer ser, por isso a história é mais interessante. Eu sei que ela tem o potencial para chegar lá se quiser. Os objetivos dela não páram em um salariozinho razoável, um empreguinho estável e um teto para morar. Pessoas como ela são alimentadas a desafios e grandes objetivos.

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