A notícia mais quente da semana? Obviamente é o lançamento do ultra-esperado Apple Mac OS X 10.5, mais conhecido como Leopard. A melhor notícia para nós, brasileiros? A Apple do Brasil – finalmente – resolveu se mexer e o Leopard terá lançamento simultâneo lá fora e aqui, no mesmo dia 26 de outubro, esta sexta-feira!! (Só preciso saber onde para estar lá!)

Hoje vou me dar ao luxo de ser um Apple fanboy :-)

3 dias, 15 horas, 56 minutos e 57 segundos para o lançamento …

O dia foi interessante. Uma pena que não entendo nada de mercado financeiro. Deveria ter dado um jeito de comprar ações APPL há um ano, pelo menos. Os números anunciados hoje foram acima do esperado. Os lucros do quarto-trimestre fecharam com aumento de 66%, indo para US$ 904 milhões, ou US$ 1,01 por ação diluída. A Apple foi capaz de gerar US$ 24 bilhões de faturamento e US$ 3.5 bilhões de lucro no ano fiscal de 2007.

Como todos já aguardavam desde o começo do ano, hoje se confirmou: o market cap da Apple está colada à da IBM! Durante alguns instantes de pico ela chegou a ultrapassá-la. A Apple vale neste momento US$ 151.6 bilhões e a IBM vale agora US$ 156.4.

Para efeitos de comparação de market cap:

  • a Sony vale US$ 46.3 bilhões,
  • a Dell vale US$ 63 bilhões,
  • a SAP vale US$ 64.6 bilhões,
  • a Oracle vale US$ 108.5 bilhões,
  • a HP vale US$ 132.2 bilhões,
  • a Intel vale US$ 155.5 bilhões,
  • o Google vale US$ 203 bilhões e
  • a Microsoft vale US$ 286 bilhões.

Em julho a Apple já tinha ultrapassado a HP. E continua chegando próxima da Intel.

Em 2006 aconteceu o primeiro cala-boca quando a Apple ultrapassou o market cap da Dell. Isso 9 anos depois de Michael Dell em pessoa ter dito uma das frases mais infelizes da história desta indústria: “O que eu faria (se fosse a Apple)? Eu fecharia tudo e devolveria o dinheiro de volta aos acionistas.” Isso logo depois do retorno de Steve Jobs à uma Apple quebrada. Depois da famosa apresentação de 1997 delineando seus planos de como ele traria a Apple de volta à vida.

Essa é a maior lenda viva da história da informática, uma peça Shakesperiana em quatro atos: a queda, a jornada, o retorno, o triunfo. Poucos que realmente conhecem a história da informática desconhecem a história da Apple, já que seus 30 anos de história compõe o segundo episódio dessa saga.

Do nada para o Apple II em 1977 (o Apple II tem minha idade), para o lançamento icônico do Macintosh em 1984, à queda de Steve Jobs em 1985, de sua jornada adquirindo a Pixar de George Lucas e a construção da NeXT durante os anos 90. Ao retorno à Apple com a compra da NeXT em 1997, o lançamento do Mac OS X em 2000 e do iPod em 2001. O resto é história. Vocês assistiram ao documentário da Discovery Channel, The iPod Revolution ?

O terceiro ato, que começou em 1997, completou 10 anos este ano. E esta não foi a primeira vez, durante a jornada ele já havia feito experiências de Midas, transformando US$ 10 milhões em US$ 7 bilhões com a Pixar. George Lucas deve se chutar no traseiro até hoje.

E se vocês ainda caem no conto do market share aprendam com este artigo. Entendam: a Apple não vende computadores baratos (=baixa qualidade). Não vende sucatas que se encontra nos hipermercados. Não venda sub-computadores a países sub-desenvolvidos de terceiro mundo. Ela não vende computadores ‘corporativos’ – e eu tenho pena de quem é obrigado a ‘trabalhar’ nessas sucatas. Isso leva a outro artigo: por que não se pode comparar o Leopard ao Vista e sim o Mac ao PC

Esse tipo de hardware não dá lucro! A HP e a Dell vendem toneladas disso: que lhes dá retorno em centavos. É por isso que a Apple, com não mais do que 6% do market share global fatura mais do que a HP e mais do que a Dell. É por isso que a Apple realiza o equivalente a metade do faturamento da Microsoft (lembrando que a Microsoft tem um “market share” de 98% do mercado global). Aliás, é muito bom aprender como a Microsoft chegou nesse ponto e para onde vai com a série Office Wars

A Apple é uma empresa de excelência. Fabrica e vende produtos de alta qualidade para o topo da pirâmide que mais dá lucro. Convenhamos, produtos Apple não são o tipo descartável que se compra em super mercado. iPods, iMacs, Macbooks, são produtos de luxo. É como comprar um Audi em vez de comprar um Gol: ambos são carros, ambos funcionam, mas todos vão concordar que eles não são “similares”, e não me refiro apenas ao preço. Leiam sobre isso em Marketing de Mac num Mundo de PCs e sobre o Mito do Mac mais caro

Tenho aversão aos falsiês chineses de camelô: preço não é relevante, qualidade é. Quem busca apenas preço acaba comprando os Nikes falsificados que vão destruir sua coluna e cópias baratas de óculos de sol que vão lhe causar cegueira. Já dizia o sábio “Não são as coisas que são caras: nós é que ganhamos pouco”.

Usuários Apple continuam dando lucros à Apple depois de 5, 10 anos. Usuários de PC deixam de ser importantes para a indústria depois 1 ou 2 anos. Depois disso elas passam a usar produtos piratas, não compram updates, enfim, são irrelevantes. É por isso que a Microsoft não se deu ao trabalho de suportar máquinas mais velhas que 2 anos. Isso explica porque empresas como Adobe ou mesmo a Microsoft continuam desenvolvendo software para um market share de “apenas” 6%: porque é MUITO mais lucrativo do que o mercado de PCs. Com menos esforço se capitaliza muito mais.

Por que uma Oracle não faz produtos para Mac? Porque corporações não usam Macs. Corporações são um nicho competitivo onde o menor preço é mais importante. É como uma feira: o pepino mais barato ganha. As margens de lucro são muito menores. Isso explica porque uma SAP – a maior software-house corporativa do mundo – lucrou US$ 581 milhões, contra US$ 901 milhões da Apple no mesmo período.

No Brasil isso é ainda pior já que a Apple do Brasil é uma presença inexpressiva. O terceiro-mundo é o melhor lugar para commodities, não para inovação, nem excelência, nem qualidade. O que tiver de “sobra”, estamos comprando. E isso é um ciclo vicioso. Por que empresas como a Apple não tem interesse no Brasil? Preciso responder?

As grandes corporações não são empresas de tecnologia, são empresas de petróleo, fabricantes de carros, distribuidores, etc. O “núcleo” do seu negócio não envolve tecnologia. Tecnologia é apenas um estorvo necessário a eles, o que explica porque a maioria dos departamentos de TI e suporte são péssimos. O arroz com feijão funciona mais ou menos. A regra nunca é funcionar bem, é funcionar mais ou menos. Em raras ocasiões já vi casos de excelência mas, como disse, é a exceção.

Oh well, eu sei, eu sei, tentar convencer uma porta não a fará mudar de lugar: ela vai sempre abrir e fechar do mesmo jeito. A única diferença é que com o tempo vai também começar a guinchar.

P.S. ah sim, e o quais são algumas das coisas que o Leopard efetivamente fará melhor do que o Vista? Veja aqui. E leiam esta série

comentários deste blog disponibilizados por Disqus