Off Topic: Inimigos da Razão

2007 August 23, 17:37 h - tags: science career principles management off-topic

Meu blog definitivamente não tem nada a ver com religião, mas tem tudo a ver com formação. Não apenas formação técnica, mas formação de vontade. Eu não valorizo quem estuda com o objetivo apenas imediato de tirar um certificado. Mas valorizo quem estuda pura e simplesmente por gosto próprio, sem o objetivo de curto prazo de uma prova no final de seis meses, mas sim pela vontade de aprender. Este artigo é inflamatório, corro o sério risco de perder leitores … fazer o quê? ;-)

Nesse sentido, religiões, superstições, tem alguns problemas. Não quer dizer que religiosos ou crentes não possam ser excelentes programadores. E eles são! Existe a visão errônea que Ateus como eu, quando falam de religião, é com o exclusivo objetivo de caluniar, falar mal, ridicularizar. Calma lá, não somos tão maus assim. Da mesma forma como não somos racistas de cor, também não somos racistas de crença. Nosso problema é quando a desvalorização das evidências em favor de superstições leva a prejuízos, como o atraso no desenvolvimento das técnicas de células tronco. Ou quando a pessoa pára um tratamento médico sério por um copo d’água homeopático.

Interessante notar como muitas discussões no mundo de tecnologia tem muito de não-racional: minha linguagem é melhor do que a sua, meu processo é melhor do que o seu, meu Linux é melhor que seu Mac, meu Ruby é melhor que seu Java. As pessoas assumem que existe Certo e Errado absoluto. Para um ganhar o outro tem que perder. Se o meu é obviamente o Certo, o do outro é, obviamente, o Errado. Como diria Einstein (em outro contexto, eu sei), tudo é relativo.

Vocês devem ter notado em artigos mais antigos onde menciono várias vezes que eu não torço para nenhum time: sou um programador Ruby, mas não tenho nenhum problema em abrir um Visual Studio e codificar um pouco de C#. Tenho vários Macs, não não tenho problemas em otimizar um Windows ou um Linux. E assim por diante: tudo que puder me ajudar a melhorar meu conhecimento, é bem vindo. Qual o sentido prático de você se auto-limitar?

E a motivação de falar sobre isso foram dois vídeos do Channel 4 da Inglaterra, um documentário em dois episódios chamado “Enemies of Reason”, que podem ser assistidos na íntegra pelo Google Video (episódio 1 e 2). O apresentador é ninguém menos que um dos meus autores favoritos de livros de não-tecnologia: o Dr. Richard Dawkins. Biólogo, feroz defensor do evolucionismo, criador do termo Meme – cunhado pela primeira vez no excelente livro The Selfish Gene.

Ele também é autor do meu livro favorito recente: The God Delusion, que está para ser lançado no Brasil como Deus, um Delírio. Esse livro deu origem a outro documentário do Channel 4 – que também recomendo muito – chamado The Root of All Evil?, que também está no Google Video aqui e aqui (o segundo episódio é entitulado “The Virus of Faith”).

Dawkins faz parte de uma – muito criticada – nova geração de Ateístas, chamados de Novos Ateístas, onde figuram também outros autores e estudiosos como Sam Harris (autor de “The End of Faith”) e o filósofo Daniel Dennett (autor de “Breaking the Spell: Religion as a Natural Phenomenon”).

O maior problema é o fanatismo. Existem religiosos não-fanáticos (felizmente, a maioria). Mas a minoria fanática é perigosa e muitos deles estão nas cúpulas de poder, definindo o futuro de todos. Já passamos por uma era de alienação religiosa, conhecida como Idade Média. Temos a sorte de sermos uma geração pós-Renascentista. Não faz sentido regredir por pura falta de razão.

Independente de todas as implicações políticas e culturais, pessoalmente o que me incomoda é a falta de valorização própria. Não estou dizendo em ser um arrogante absoluto: uma pessoa que ‘acha’ que sabe tudo sem saber. Mas o simples ‘Graças a Deus’ é um freio inconsciente. Se você conquistou alguma coisa, o mérito é único e exclusivamente seu e de seus colaboradores. Sorte ajuda, mas sorte não é milagre, é apenas um evento estatístico. Nada é impossível. Apenas algumas coisas são probabilisticamente mais improváveis.

Se você não conquistou alguma coisa, a culpa não é de Deus: é toda sua. Eu sinto que muita gente tem dificuldade de assumir responsabilidades: tanto dos acertos quanto dos erros. A culpa/mérito das suas ações é exclusivamente sua: viva com isso.

Outra coisa que me incomoda: todos os materiais que menciono acima, serão altamente criticados – talvez eu tenha uma inundação de comentários criticando, como de costume, ou apenas serei ignorado. Mesmo assim: os pré-conceitos farão com que muita gente simplesmente não queira ver. Esse é outro problema: o caminho do aprendizado exige razão e raciocínio lógico baseado em evidências sólidas. Faz um século que Charles Darwin publicou sua “Teoria da Evolução” e nenhum de nós, das ciências, fomos arrogantes o suficiente para transformá-la em “Lei da Evolução”. Da mesma forma, em tecnologia, ninguém pode afirmar “Minha Tecnologia é Superior”. É relativo, ninguém aqui tem autoridade para criar uma Lei comprovando uma afirmação dessas, é o que precisamos ter em mente para criar um ambiente conscientemente investigativo “se o meu não é o melhor, quais as alternativas? quais as evidências? quais as circunstâncias?”

Joseph Campbell diria que as sociedades precisam de mitologias, heróis, crenças. É uma forma de explicar coisas que não sabemos, de comunicar o que é considerado Certo ou Errado dentro de um determinado período no tempo (já que conceitos de Certo e Errado variam conforme o espaço e o tempo). À medida que evoluímos, matamos um Deus de cada vez. Ra, Isis, Osiris, Apollo, Artemis, Poseidon e muitos outros. Explicamos onde o Sol nasce, onde se põe, o que há no Céu, de onde viemos, para onde vamos, e uma tonelada de outros eventos naturais.

Como Richard Dawkins disse, sintimos falta de Carl Sagan. Para mim, ele fez dois dos trabalhos mais inspiradores: a série “Cosmos” e o livro The Demon-Haunted World: Science as a Candle in the Dark. Toda criança deveria ser encorajada a assistir a série inteira de Cosmos e aprender a pensar por si própria, verdadeiramente, livre de dogmas e superstições.

Como disse Dawkins no documentário: os livros de astrologia e outras superstições, ultrapassam numa taxa de 4 para 1 os livros de ciências. Até em documentários temos produções supersticiosas que pregam histórias da carochinha usando a ciência como pretexto, como no horroroso DVD “What the Bleep do We Know?”.

Num mundo competitivo, com diversos problemas a serem resolvidos, como doenças, conflitos, aquecimento global, escassez de recursos, precisamos da maior quantidade de cérebros não-supersticiosos e céticos de todos os tempos. Só assim poderemos dar passos à frente, e não estagnar em mandingas do passado. E mesmo sem considerar as grandes questões, enquanto evolução individual, não podemos nem devemos nos tornar inimigos da razão.


Definição de Ciência: vêm do Latin “scientia” ou “conhecimento”. Segundo o Webster’s New Collegiate Dictionary: “conhecimento adquirido através do estudo ou prática”, ou “conhecimento que cobre certas verdades da operação de leis gerais, como as obtidas e testadas através do método científico e que se preocupam com o mundo físico.”

Ciência se refere a um sistema para se adquirir conhecimento. Esse sistema usa observação e experimentação para descrever e explicar fenômenos naturais. O termo ciência também se refere ao corpo organizado de conhecimento que as pessoas ganharam usando esse sistema.

Ciência é um sistema elegante porque o método científico é simples e coerente (Observação/Pesquisa, Hipótese, Predição, Experimentação e Conclusão), porém é rigoroso o suficiente para ser confiável principalmente porque, por definição, possui mecanismos de auto-correção. Independe de opinião pessoal, crença ou ponto de vista. A Lei da Gravidade é a mesma para todos, independente de raça, cultura, ideologia, idade ou condição social.

Nenhuma hipótese ganha o caráter de “Lei” a menos que se tenha evidência sólidas o suficiente para tal. Além disso toda teoria (ou hipótese – definição: sugestão de explicação) pode ser descartada caso evidências sólidas em contrário apareçam.

Definição de superstição é: (1) uma crença irracional sobre um objeto, ação ou circunstância não logicamente relacionada a um curso de eventos influencia seu resultado. (a) Uma crença, prática ou ritual irracional mantido por ignorância das leis da natureza ou por fé em mágica ou acaso. (b) Um estado mental de medo ou rejeição resultado de tal ignorância ou irracionalidade. © Idolatria.

Finalmente, a definição de Dogma: (a) algo tido como uma opinião estabelecida; especialmente : define um princípio autoritativo. (b) um código de tais princípios (dogma pedagógico). © um ponto de vista ou princípio colocado de forma autoritária sem terreno adequado. (d) não pode ser disputado ou posto sob dúvida.

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