Kathy Sierra: Dilbert e a zona de mediocridade
Ouvi falar de Kathy Sierra pela primeira vez num post do Loud Thinking, o blog do David Hansson. Kathy também palestrou na RailsConf Europe em setembro. Ela e outros amigos escrevem no blog Creating Passionate Users.
Ela se interessa muito por cérebro, inteligência artificial, psicologia e filosofia. Os artigos dela mostram um ângulo diferente de coisas que a gente já deveria saber. Este post é um excelente exemplo. Segue a tradução:
Dilbert e a zona de mediocridade

Legenda. [título] “Como seus usuários se sentem sobre seu produto ou serviço”.
[setas] “aqui é bom”, “aqui você está ferrado”, “aqui é bom”.
[barra] “Amor”, “Zona de Mediocridade”, “Ódio”.
Quanta coragem você tem? Até onde você (ou seu empregador) iria para evitar a Zona de Mediocridade? A menos que você esteja disposto a arriscar provocar ódio passional, talvez nunca sinta o amor. Scott Adams concorda. Num post recente no blog do Dilbert, ele escreveu:
“Se todo mundo que for exposto a um produto gostar dele, o produto não terá sucesso… A razão pela qual um produto que ’todo mundo gosta’ vai falhar é que ninguém o ‘ama’. A única coisa que prevê sucesso é paixão, mesmo que só 10% dos consumidores a tenham.”
Isso NÃO é sobre ser notável. É sobre ser adorável. E ser adorável quase sempre significa ser odiado também. Nosso livro “Head First Java”, por exemplo, tem 139 resenhas na Amazon, e a maioria é cinco estrelas (“amei, o melhor livro técnico já feito, aprendi muito”) ou uma estrela (“odiei, o pior livro técnico que já vi, os autores deviam ser fuzilados”).
Mas criar um livro que as pessoas iam amar ou odiar nunca foi a intenção. Nós queríamos um formato de aprendizado mais amigável para o cérebro, e fomos ingênuos e desavisados o bastante para não perceber quantas “regras” implícitas estávamos violando. Só quando os editores da O’Reilly começaram uma mini-revolta contra o livro percebemos que tínhamos cruzado uma Linha Que Não Deve Ser Cruzada e criado algo potencialmente embaraçoso.
Hoje, criar algo “seguro” costuma ser muito mais arriscado do que apostar grande em algo profundamente provocativo, perigosamente inovador ou simplesmente estranho.
Pense em tudo o que você ama hoje e que um dia pareceu muito, muito estranho. Alguém apostou grande naquilo.
Hoje, quanto mais você tenta prevenir o fracasso, maior a chance de fracassar
Nem sempre foi assim, mas poxa… quantos [seja lá o que for] a mais a gente realmente precisa hoje? Já tem coisa demais de tudo o que a gente já tem, e novidade de menos do que a gente não tem. Todos sabem por que empresas jogam na segurança, e por que funcionários são forçados a jogar na segurança, mas esse efeito manada não ajuda ninguém.
O que é preciso para sair da Zona de Mediocridade?
Normalmente, nesse ponto, eu falaria das coisas que todo mundo fala… como ter ideias revolucionárias, onde procurar oportunidades, como ser inovador, blá blá blá. Você já sabe disso tudo. Para mim, tudo se resume a isto:
Para evitar a Zona de Mediocridade, você precisa suspender a descrença
Você precisa querer e ser capaz de desligar (temporariamente) A Voz interior que diz: “A gente nunca vai se safar com isso. As pessoas vão odiar.” Isso não significa necessariamente que A Voz está errada, mas até você conseguir desligá-la, suas ideias vão continuar seguras e incrementais, garantido. E lembre: “seguro” não é mais seguro, a menos que seu único objetivo seja evitar críticas. Segurança vai te manter seguramente fora dos holofotes. Se é isso que você quer (e às vezes é a melhor saída), ótimo. Mas se não é…
(nota: isso é parecido com a abordagem do Inner Game, de Desenhando com o Lado Direito do Cérebro, ou de qualquer outra técnica de criatividade que tira a parte lógica e “falante” da mente do caminho, para que as partes mais úteis e mudas do seu cérebro cuidem das coisas importantes que você está tentando realizar).
E não basta suspender a descrença sobre o que seus usuários (ou críticos) vão dizer… você também precisa suspender a descrença sobre o que sua empresa vai te deixar fazer. Vivi isso pela primeira vez na Sun, onde era quase impossível fazer um brainstorm criativo sobre como melhorar as coisas sem alguém soltar: “É, mas eles nunca vão deixar a gente fazer isso.” Fim da discussão. Fim da chance de fazer algo incrível.
Toda vez que dou um workshop interno, os participantes são bem mais negativos do que quando algumas dessas mesmas pessoas estão numa versão pública do mesmo workshop. Tirando-os da empresa e fazendo-os pensar ou trabalhar em projetos fictícios ou de outras pessoas, as mentes deles ficam livres para se mover. Quase desisti de dar workshops internos porque a síndrome do “eles nunca vão deixar” é forte demais.
Você não consegue ajudar seus usuários a detonar até que seu empregador deixe VOCÊ detonar. Fácil falar para uma desempregada como EU ;)